Minhas poesias.

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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020

Canção do Exausto

 

Minha terra tem problemas

que sabia até o sabiá

As aves que aqui gorjeiam

são os mais podres carcarás

 

Nossas ruas, mais buracos

Nossas várzeas, mais horrores

Nas esquinas, mais chacinas

Nossas vidas, mais temores

 

Nessa terra paulistana

quase nada que se planta dá:

a grama aqui não verdeja

o lixo sempre há de aumentar

os sujos rios não têm correnteza

e o ar cinzento o sufocará

 

Nossas aves, revoada de rapina

alimentam-se de propina

Nossos trens, mais descarrila

aqui nunca prosperará

Minha terra tem problemas

que sabia até o sabiá

 

Não permita Deus que eu morra

sem que me revolte contra lá:

do Matarazzo ao Bandeirantes

Câmara e Assembleia

parasita classe deletéria

que eu a ponha a debandar

 

Minha terra tem picaretas

que sabia até o sabiá

Carcará que aqui gorjeia

do povo bovino se alimentará

Em cismar – sozinho - à noite

não dormi... Já é hora de levantar

 

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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2019

Joker

 

Em cada esquina um coringa

Só mais uma vida desgraçada

Cansado da sorte que não vinga

espera pela próxima cartada

 

Contra a sociedade que o humilha

traz na manga sua última jogada

Sorriso histérico, a arma engatilha

agora quero ver quem dá risada

 

A gargalhada ecoa na cidade

e o terror domina a face pálida

O caos se espalha, brutalidade

é o fim de mais um piada

 

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Torcedores FC

 

Futebol e seus fanáticos

sofrimento e glória

O amor começa com um gol

e consolida com a vitória

 

A derrota traz o dissabor

à boca dos alucinados

“Competir é onde está o valor”

isso é o hino dos derrotados

 

Ninguém torce por esporte

seja qual for a situação

Mesmo sobre política ou religião

com paixão defende sua equipe

 

Trocar de camisa, jamais!

Essa seria a maior traição

Ganhando ou perdendo

vivemos mesmo e da ilusão

 

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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2019

O alcoólatra

 

O alcoólatra sedento

na rua é um anônimo

Perdido na vida, caído

é só mais um esquecido

 

Ás vezes alguém lhe “ajuda”:

comida, roupa, palavra amiga

conselhos, algo que lhe acuda

Porém parece que nada o muda

 

Mesmo que a realidade o desiluda

se entregar ao acaso não resolve

e nem evita qualquer sofrimento

 

Muito pior: câncer, pancreatite aguda

neuropatias, outros males que o envolve

trará o seu fim, sozinho ao relento

 

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Domingo, 29 de Setembro de 2019

Animais e refeições

 

Servem-se os porcos da marmelada

e a nós bovinos não sobra quase nada

Nos dão uma merreca, um farelo, fiapo

Certeza é só o nabo no rabo até o talo

 

Entre famintos e glutões famigerados

a divisão é simples: aos primeiros pão

e circo; os outros à vontade se servirão

Assim segue a maioria feliz no pasto

 

Para abrandar a ilusão do povo, latente

futebol, festa e um copo de água ardente

Aos políticos, farra melhor eu nunca vi:

saborosas pizzas e bolsos cheios de catupiri

 

Dizem que um dia tudo isso vai mudar

e um prato belo e cheio à mesa todos terão

Mas até lá, tangidos sem revolta ou rebelião

seguirá o dito: “uma andorinha não faz verão”

 

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Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Joinha

 

Meu like

é tão fake

quanto a sua face

perfeita na foto

 

De fato

gestos, filtros, formas

tudo é falso

 

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Domingo, 1 de Setembro de 2019

A riqueza amazônica

 

A riqueza amazônica

é a sua biodiversidade

Sem educação e ciência

não desfrutaremos dessa realidade

 

Nosso líder passa o dia relinchando

olha à floresta e só enxerga pasto

Por isso sigo falando:

“passarinho que segue asno

amanhece pastando”

E na Amazônia tem bastante espaço

 

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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

Triturados

 

O animal morto

velado sobre a mesa

feito ao ritual do fogo

fatiado ao molho sangue

é servido à minha boca

 

Vegetais sem raízes

guisados na gordura

harmonizados ao vinho

ao som do violino

são servidos à minha boca

 

Enlatados e embutidos

sobras e restos que servem

à pressa do dia a dia

ao ritmo dos insossos

são servidos à minha boca

 

Flora, fauna, fábrica

e tudo que pode ser vida

ou servir à minha carne faminta

ainda que seja um desejo falso

podem ser triturados pela minha boca

 

A fome e a sede humana

já transcenderam o estado animal

e toda essa ânsia que não alimenta

nem corpo nem alma, caminha para o dia

em que seremos o prato principal

 

 

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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019

Aquífero paulistano II

 

Cada gota que cai de chuva

tece a enxurrada que desce a rua

e forma o lençol d’água

onde a cidade afunda

 

São Paulo para toda

ninguém aqui mais anda

Fica o recado da natureza

mostrando quem é que manda

 

Sob o asfalto bruto

um fio de vida ainda existe

tratado como subproduto

o rio que ainda resiste

 

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2018

Black Friday

 

Começou a #BlackFriday

vende-se, compre

e pague o preço, meu caro

 

Mais um produto barato

consumido pela multidão

Tudo foi liquidado

 

A Graça perdeu a promoção

sozinha no balcão

Amostra grátis de solidão

 

#AloneSaturday

 

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Publicado por AB Poeta às 20:51
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Embate público

 

Os dois candidatos

mais votados

são os mais odiados

 

O que há com a nação?

Digo desamparado:

o Brasil é uma negação

 

Um país polarizado

pela limitação

Caso de despolitização

 

Democracia dá trabalho

ir atrás de informação

E brasileiro quer é churrasco

futebol, “descendo até o chão”

 

No país do rebolado

independente do resultado

vejo a pior previsão:

mais 4 anos de esperança

e de pura ilusão...

 

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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2018

Efêmeros

 

A cidade diminui na noite

que escura se funde à fuligem

Céu e asfalto se unem

formando uma outra miragem

 

Que a cada passo se amplia

nos ecos dos passos passados

Personagens que somem ao dia

se avultam a novos pecados

 

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Publicado por AB Poeta às 02:42
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O mortiço

 

Quando será que a vida acaba?

Com a morte? Não creio

Tanta gente maltrapilha vaga

sem saber para que aqui veio

 

Carregar a própria existência

nos ombros, há quem não suporte

O peso do “ter que ser”, consorte

transcende qualquer essência

 

Sobreviver como indigente

na selva de pedra é penoso

A esmola, um prato, entorpecentes

ajudam amenizar o desgosto

 

Mas uma hora isso cansa

Abreviar o sofrimento é a opção

Quem vai lembrar daquela criança?

Era só mais uma, largada no chão

 

Seu nome? Rogério, Roberto... Enfim

o viaduto da santa foi o trampolim

Num voo curto e fatal, no paraíso

mais um precipitou o seu fim

 

Espatifou no asfalto da 23 de maio

Por um instante pararam em atenção...

Olharam e foi como naquela canção:

“morreu na contramão atrapalhando o sábado”

 

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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

O rato roeu o rei

 

O tribunal pegou mais um

em sua ratoeira sem mola

Proferiu o juiz: “essa não cola”

“soltem o rato e o soltem no ato!”

 

Aqui tudo é premeditado

aliança, conchavo, propina

e quem morre nessa armadilha

travestida de justiça, é o gato

 

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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2018

(O)Culto

 

Nunca via graça na lua

 

E o eclipse

secular

alterna entre lua e sol

o que há de novo nisso?

 

O que me impressiona

é que ainda há quem veja

significado

era após era

nos movimentos repetitivos

dos astros

 

O ser humano é um cão uivando ao nada

 

O ser humano é um cão uivando a

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Sexta-feira, 4 de Maio de 2018

Em ruínas

 

O prédio incendiou

desabou, caiu

Apagou a vida

que nunca existiu

 

Sem dinheiro para consumo

só serviu de insumo

para aproveitadores, políticos

e muitos movimentos

 

A miséria é a base do poder

e quem o tem, apodrece

Coitado dos desamparados no Paiçandu

que não é tão largo quanto parece

 

E a eterna ama de leite

na periferia da praça

ainda serve à casa grande

para o deleite da elite

 

O ranha céu, que já foi moderno

teve seu fim como “inferno”:

do luxo ao lixo

do lixo ao esquecimento...

 

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Long live Café Piu-Piu

 

O Rock’n’Roll está na veia!

No palco, muitas vertentes musicais

Expressão artística diversificada:

guitarra, sanfona, violinos, metais

 

No coração do bairro do Bixiga

um dos mais tradicionais

Café Piu-Piu, a sua marca

não saiu (nem sairá) de lá jamais

 

Clássico atrás de clássico

a plateia sempre clama

por mais um riff, um refrão

que acorde a noite paulistana

 

Tantos músicos aí tocaram

e muitos outros tocarão

Que suas portas permaneçam abertas

para quem tem a música como paixão

 

Long live Café Piu-Piu!

 

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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

Banquete

 

Observo na calçada o mendigo

que come feito um cão;

mas hoje o cão como feito um rei;

rei que ainda come feito um porco;

porco que come feito um mendigo

 

Em meio a esse banquete indigno

cheio de defeitos

perco a fome

 

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Publicado por AB Poeta às 01:37
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

PEC(ados)

 

Dentro do pecado

há uma PEC

Dentre os deputados

há vários pecados

 

Abaixo dos pecadores

tem o povo, no calvário

que nunca aprendeu

e que pagará pelos pecados

que ele mesmo elegeu

 

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Publicado por AB Poeta às 23:48
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Sábado, 8 de Outubro de 2016

Modelo

 

O mendigo fotografado

ficou bonito

 

Homem oriundo do descarte

no fotograma agora é arte

 

Da rua à galeria de fotolitos

o mendigo virou mito

 

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Publicado por AB Poeta às 15:45
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