Minhas poesias.

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Quinta-feira, 12 de Março de 2020

Flatulência mental

 

Cultura? No Brasil tem pro gasto:

vai da farda mal passada no cabide

ao risível talco anal do palhaço

 

A educação caminha ladeira a baixo

E o culto à burrice, que não tem idade

virou regra, para acelerar nosso fracasso

 

A quem torça ou creia no nosso sucesso

e são tão bobos esses, reis da banalidade

não veem que não há nada de concreto

 

Esse governo é inepto, fadado ao fiasco

e a boiada que ele tange, com habilidade

o defende, aumentando o descompasso

 

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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020

Do amor que er[r]a

 

Seis poemas inspirados pelo livro “Do amor que não er[r]a”, da poeta Valéria Tarelho

 

I

 

não sei se é livro

ou pílula

 

um alívio

que pulula na pupila

 

leitura distinta

visão que me abrase

amor a primeira frase

 

II

 

não era amor

mas era Verso

 

Valsa ou reverso

princípio de ritmo

tão divino

feito Verbo

 

III

 

o papo era de anjo

as ideias, diabólicas!

 

baba de moça

curando minha cólica

 

tão doce conversa

que versa

rum com coca-cola

 

IV

 

não era amor

era silicone

 

ciclone

de encher olhos e língua

um toque mágico

 

silício

excesso de química

ilusão de plástico

 

V

 

não era amor

era pigarro

 

vício de nicotina

lançado fora num escarro!

 

guimba sem filtro

brasa sem luz

poema ruim que confunde

Cruz e Sousa

com Souza Cruz

 

VI

 

não era amor

era contágio

 

poesia que contamina

não de qualquer esquina

dessas que cobram ágio

 

simulacro de doença

puro plágio

 

 

 

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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020

Canção do Exausto

 

Minha terra tem problemas

que sabia até o sabiá

As aves que aqui gorjeiam

são os mais podres carcarás

 

Nossas ruas, mais buracos

Nossas várzeas, mais horrores

Nas esquinas, mais chacinas

Nossas vidas, mais temores

 

Nessa terra paulistana

quase nada que se planta dá:

a grama aqui não verdeja

o lixo sempre há de aumentar

os sujos rios não têm correnteza

e o ar cinzento o sufocará

 

Nossas aves, revoada de rapina

alimentam-se de propina

Nossos trens, mais descarrila

aqui nunca prosperará

Minha terra tem problemas

que sabia até o sabiá

 

Não permita Deus que eu morra

sem que me revolte contra lá:

do Matarazzo ao Bandeirantes

Câmara e Assembleia

parasita classe deletéria

que eu a ponha a debandar

 

Minha terra tem picaretas

que sabia até o sabiá

Carcará que aqui gorjeia

do povo bovino se alimentará

Em cismar – sozinho - à noite

não dormi... Já é hora de levantar

 

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Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2019

Mineral

 

O mar sopra em minha carcaça

sua densa maresia

Construo com sal e corais

feito onda que se choca contra pedra

minha arenosa poesia

 

Sopro ela, grão no tempo

encho a orla com a minha grafia

Deixo minhas palavras na sua eternidade

para que alguém as leia um dia

 

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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2019

Joker

 

Em cada esquina um coringa

Só mais uma vida desgraçada

Cansado da sorte que não vinga

espera pela próxima cartada

 

Contra a sociedade que o humilha

traz na manga sua última jogada

Sorriso histérico, a arma engatilha

agora quero ver quem dá risada

 

A gargalhada ecoa na cidade

e o terror domina a face pálida

O caos se espalha, brutalidade

é o fim de mais um piada

 

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Torcedores FC

 

Futebol e seus fanáticos

sofrimento e glória

O amor começa com um gol

e consolida com a vitória

 

A derrota traz o dissabor

à boca dos alucinados

“Competir é onde está o valor”

isso é o hino dos derrotados

 

Ninguém torce por esporte

seja qual for a situação

Mesmo sobre política ou religião

com paixão defende sua equipe

 

Trocar de camisa, jamais!

Essa seria a maior traição

Ganhando ou perdendo

vivemos mesmo e da ilusão

 

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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2019

O alcoólatra

 

O alcoólatra sedento

na rua é um anônimo

Perdido na vida, caído

é só mais um esquecido

 

Ás vezes alguém lhe “ajuda”:

comida, roupa, palavra amiga

conselhos, algo que lhe acuda

Porém parece que nada o muda

 

Mesmo que a realidade o desiluda

se entregar ao acaso não resolve

e nem evita qualquer sofrimento

 

Muito pior: câncer, pancreatite aguda

neuropatias, outros males que o envolve

trará o seu fim, sozinho ao relento

 

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Domingo, 29 de Setembro de 2019

Animais e refeições

 

Servem-se os porcos da marmelada

e a nós bovinos não sobra quase nada

Nos dão uma merreca, um farelo, fiapo

Certeza é só o nabo no rabo até o talo

 

Entre famintos e glutões famigerados

a divisão é simples: aos primeiros pão

e circo; os outros à vontade se servirão

Assim segue a maioria feliz no pasto

 

Para abrandar a ilusão do povo, latente

futebol, festa e um copo de água ardente

Aos políticos, farra melhor eu nunca vi:

saborosas pizzas e bolsos cheios de catupiri

 

Dizem que um dia tudo isso vai mudar

e um prato belo e cheio à mesa todos terão

Mas até lá, tangidos sem revolta ou rebelião

seguirá o dito: “uma andorinha não faz verão”

 

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Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Joinha

 

Meu like

é tão fake

quanto a sua face

perfeita na foto

 

De fato

gestos, filtros, formas

tudo é falso

 

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Domingo, 1 de Setembro de 2019

A riqueza amazônica

 

A riqueza amazônica

é a sua biodiversidade

Sem educação e ciência

não desfrutaremos dessa realidade

 

Nosso líder passa o dia relinchando

olha à floresta e só enxerga pasto

Por isso sigo falando:

“passarinho que segue asno

amanhece pastando”

E na Amazônia tem bastante espaço

 

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Sábado, 29 de Junho de 2019

Astros ilícitos

 

Nossos corpos celestes sem rumo

orbitando o mesmo espaço

velozes entrarão em atrito

cometas com o mesmo traçado

 

E ao seu corpo de Vênus

roubarei os anéis de Saturno

e desse delito noturno

faremos nosso segredo

 

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Estrela submersa

 

Estrelinha d'água

que brilha no fundo do mar

Azul como o céu

seu brilho está em meu olhar

 

Saia desse fundo salgado

você vai se afogar

Deixe de lado esse luto

e vem para a beira brilhar

 

Esse mar que lhe cobre

é muito pequeno para seu brilho

Abandone essa vida marinha

e seja uma estrela no espaço infinito

 

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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

Triturados

 

O animal morto

velado sobre a mesa

feito ao ritual do fogo

fatiado ao molho sangue

é servido à minha boca

 

Vegetais sem raízes

guisados na gordura

harmonizados ao vinho

ao som do violino

são servidos à minha boca

 

Enlatados e embutidos

sobras e restos que servem

à pressa do dia a dia

ao ritmo dos insossos

são servidos à minha boca

 

Flora, fauna, fábrica

e tudo que pode ser vida

ou servir à minha carne faminta

ainda que seja um desejo falso

podem ser triturados pela minha boca

 

A fome e a sede humana

já transcenderam o estado animal

e toda essa ânsia que não alimenta

nem corpo nem alma, caminha para o dia

em que seremos o prato principal

 

 

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Publicado por AB Poeta às 02:23
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Sábado, 23 de Março de 2019

Manhãs bragantinas

 

As maritacas, o bem-te-vi, o sabiá

a orquestra reunida

todos juntos a cantar

 

É tanta nota musical

em horário matinal

que o galo nem arrisca cacarejar

 

A platéia ainda na cama

aprecia o concerto

mais um tranquilo despertar

 

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Publicado por AB Poeta às 23:12
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2019

A gaiola

 

Na mente que não para

o temor se multiplica

A insônia te faz companhia

 

A pressão do peito

as veias comprimidas

é o tempo engolindo a vida

 

A lágrima tange o rosto

salga o lábio, assombra

e o olhar se perde no escuro

 

A voz, na garganta, reclusa

que se encontra contrita

guarda a palavra amiga

 

Aquela que, ensurdecedora

ao teu surdo ouvido grita:

“há um pássaro onde a morte habita

 

liberte-o!”

 

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Publicado por AB Poeta às 22:19
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019

Aquífero paulistano II

 

Cada gota que cai de chuva

tece a enxurrada que desce a rua

e forma o lençol d’água

onde a cidade afunda

 

São Paulo para toda

ninguém aqui mais anda

Fica o recado da natureza

mostrando quem é que manda

 

Sob o asfalto bruto

um fio de vida ainda existe

tratado como subproduto

o rio que ainda resiste

 

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Publicado por AB Poeta às 01:10
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O laranjal

 

A família se afunda na sujeira

bandalheira à brasileira

 

E o filho da pátria

lava o dinheiro em laranjeiras

e limpa o catarro na bandeira

 

Há quem ladre a seu favor

sem vergonha do ocorrido

De joelhos e em louvor

brasileiro gosta de bandido

 

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Publicado por AB Poeta às 01:02
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2018

Black Friday

 

Começou a #BlackFriday

vende-se, compre

e pague o preço, meu caro

 

Mais um produto barato

consumido pela multidão

Tudo foi liquidado

 

A Graça perdeu a promoção

sozinha no balcão

Amostra grátis de solidão

 

#AloneSaturday

 

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Publicado por AB Poeta às 20:51
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Aquífero paulistano

 

Límpida cai a chuva

na rua

e corre suja

ao rio invisível

 

Água viva

corrente ativa

um fio de vida

ainda possível

 

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Publicado por AB Poeta às 20:45
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Embate público

 

Os dois candidatos

mais votados

são os mais odiados

 

O que há com a nação?

Digo desamparado:

o Brasil é uma negação

 

Um país polarizado

pela limitação

Caso de despolitização

 

Democracia dá trabalho

ir atrás de informação

E brasileiro quer é churrasco

futebol, “descendo até o chão”

 

No país do rebolado

independente do resultado

vejo a pior previsão:

mais 4 anos de esperança

e de pura ilusão...

 

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Publicado por AB Poeta às 02:35
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