André Braga

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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Eterna brincadeira

Sentado na antiga poltrona da sala, observava saudoso a velha foto. Era ele, com o braço estendido segurando uma flor, e seu pai, agachado abraçando-o sorridente. Na época deveria ter entre cinco ou seis anos, não lembrava exatamente. De fundo, um enorme e vivo jardim colorido, que numa distante e quase esquecida infância foi seu universo de brincadeiras, um mundo de diversões. Não sabia mais quando foi à última vez que esteve ali. As poucas lembranças eram esfareladas, e no decorrer dos corridos anos a casa havia mudado muito, o que não o ajudava a trazer de volta alguns flashs do passado. O antigo e alegre jardim hoje é uma pavimentada e espaçosa garagem, toda coberta, e no lugar das flores e ervas cidreiras há um monte de ferramentas e outras bugigangas empoeiradas, todas esperando que um dia haja uma ocasião em que possam servir para alguma coisa. Debaixo do duro e insipto cimento repousam boas lembranças vespertinas de épocas há muito vividas.

 

Sua vida adulta era asfixiante: doze horas para mais de trabalho, trânsito, os filhos na escola, esposa, contas e mais contas... O lazer programado... Muitas prioridades, responsabilidade sobre responsabilidade. O tempo era escasso. Tê-lo “livre” era coisa rara, virou artigo de luxo. O gesto do garoto no retrato lhe ofereceu um momento nostálgico de íntima alegria infantil. Fechou o antigo álbum e guardou-o na parte baixa da estante, junto ao tricô disforme e inacabado.


Venha, vamos cantar parabéns - chamaram-no para junto da família reunida em volta da mesa. Olhou as velas no bolo, 9 e 1. Apesar de saber a idade que sua avó faria, ficou impressionado com o número. A aniversariante olhava para as pessoas em sua volta, mas não reconhecia mais quase ninguém. Ele achava aquilo curioso: apesar daqueles rostos para ela não serem mais familiares, sempre respeitava as ordens da filha mais velha, e quando era chamada de mãe sempre olhava de volta. Deveria ser o instinto materno, talvez ele nunca desapareça... Algo assim.

 

No começo foi duro para que entendessem o que estava acontecendo. Ela esquecia os nomes de todos, perguntava a mesma coisa uma série de vezes, guardava sapatos na geladeira, temperava o feijão com detergente... Foi um período complicado. Depois da confirmação as coisas ficaram mais claras, porem, não menos sofridas. A doença degenerativa era irreversível, e estava em estágio avançado. O mal genético estaria com ela até o fim. Mesmo acompanhando os acontecimentos de longe, erra difícil aceitar isso. Ele entendia agora o que significava ter medo da morte.


É estranho, sabemos que vamos morrer, todos morrem, mas quando a morte é uma realidade próxima, o medo vira uma presença constante. O que será que se passa na cabeça dela... Fica o dia todo com uma boneca na mão tratando-a como um filho. Banha-a, lava as roupas, fica horas conversando... Está presa num mundo só dela. É perturbador. Não lembro a última vez que ela falou comigo. Não sou visita freqüente, não tenho muito o que lembrar também... Pareço com ela: não me recordo de um monte de coisas que aconteceram dentro dessa casa. Esqueci. Passei aqui muitas tardes, correndo de um lado para o outro, só parava com os gritos de faça mesmos algazarra menino. Tempos que... Acho que troquei as lembranças que vivi aqui por um punhado de informações absorvidas num cotidiano burocrático, de tarefas consecutivas que precisam somente serem passadas à frente. Nesse ambiente caótico, os arquivos é que se encarregam das lembranças. Não me recordo dos gostos das comidas que ela preparava e que formaram meu paladar. Doces de sobremesa e bolos para comer com o café feito no coador de pano, aqueles sabores cuidadosamente feitos pelas matriarcais mãos dedicadas, nunca mais os sentirei. Os cheiros, que enchiam a casa durante o preparo... Aromas únicos de dar água na boca... Nunca mais. Gradativamente fui reeducado pela rapidez dos pratos semi-prontos, e hoje meu olfato se contenta em sentir o odor de cremes e loções. Olho para meus parentes, mas também não lembro da maioria. Quase todos, para ser quase exato. Fora um ou outro mais próximo que ainda converso, os demais trato-os como primos, e mais nada. Não existe proximidade, além disso. De quantas coisas ela já não tem mais consciência: crise mundial, política, aquecimento global... Ela nem faz idéia do que esteja acontecendo com o mundo, catástrofes... Deve ser bom não ter que se preocupar com isso. A morte... Ela também não tem conhecimento sobre o que esta por vir. A tão assustadora morte, de olhar frio, capuz preto e foice na mão, não é ninguém para ela. Nada. Parece irônico. Todos os medos e neuroses que sentimos, em seu mundo de brincadeiras, não existem. Assim como eu, ela também não lembra do jardim, mas diferente de mim ela não tem o desprazer de saber sobre os acontecimentos desumanos que ocorrem a toda hora, e que são jogados na nossa cara durantes os noticiários, narrados com ódio e em tom indigno, e que ressoam demagogo aos ouvidos. Segregações, fobias, intolerância, Hiroshima e Candelária... Nada disso mais... Nem céu nem inferno. O que para ela é real é sua eterna brincadeira. Está segura em seu solitário e rico mundo imaginativo. E eu, tenho que lembrar que não lembro de muitas coisas que um dia foi o meu mundo... Meu mundo de brincadeira feliz e real e que aos poucos foi sendo substituído e esquecido por algo que nem sei mais como chamar. Dizem que essa loucura diária é que é a realidade...


Ele logo voltou a si... Olhou para ela e sorriu. Ela o sorriu delicado de volta. Sentiu um alívio interior por saber que ela de certa forma está segura, longe dos problemas criados pelas megalomanias humanas. Voltou à atenção para a festa e tranqüilo juntou-se ao coro dos esquecidos:


- Paaarabéééns praaa vo-cê...

 

 

Baseado no conto Diagnóstico de Helga Belivacqua

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Publicado por AB Poeta às 19:04
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1 comentário:
De Helga a 5 de Outubro de 2009 às 16:39
Olá, André!

Muito bom ler seu texto! Muito bom saber que o meu texto foi inspiração de algo!

Adorei!

bj

Helga

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