André Braga

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Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Preciso Morrer

 

A pressão que meu peito sofre já não me põe mais medo, pois sei que o que sinto não é gerado por uma disfunção corpórea, é ardor puro: um aviso do inconsciente de que meu ser não é aquele e nem aquilo que parece, e é também um aviso de que preciso morrer! Minha interminável guerra arquetípica chega a ser injusta são muitos contra um que nem sabe mesmo o que é e, pior, nem se virá a ser algo. Barbeando-me vi que o creme formou um risco em meu pescoço como que se marcasse o local a ser atingido. Fiquei olhando agoniado à espuma escorrendo como se fosse sangue... Alguém ali, bem de frente ao mentiroso espelho ia degola-me sumariamente, mas num ato corajoso repousei confiante a assassina navalha na mórbida e necrotérica pia branca e momentaneamente tranqüilo assisti a um deles findar de forma súbita. Sorrindo pensei “ganhei uma batalha” apesar de saber que o que preciso mesmo é morrer, e logo. Não vejo mais sentido no ato de sentar-se ao vaso porque meus verdadeiros excrementos realmente nunca desceram pela sua goela abaixo. A privada é uma ilusão. Pareço um enfezado filtro: ingiro imundices expilo porcarias e as incômodas e verdadeiras nojeiras cancerígenas ficam alojadas incubadas no âmago remoendo-se e moendo-me para que depois quando regurgitadas façam-me parecer um encabrestado animal ruminante. Não quis passar o desodorante aquilo é uma maldita armadilha sulfúrica que queima-me todas às vezes que a uso, extingui meu natural e marginalizado cheiro, meu corpo é violentamente surrado pelos químicos disfarçados. Cansei de me auto-flagelar. Não podia mais permanecer ali e fiquei apreensivo pela consciência de saber que ao sair do banheiro alguém entocado me apunhalaria pelas costas e mesmo sobrevivendo ao ataque o combate continuaria com outro, outro, outro... Há um exército psíquico a minha espreita e os generais dessas tropas carniceiras alimentam minhas internas pragas ratos baratas um monte de outras pestes que foram todas plantadas regadas cuidadosamente semeadas para que eu me mantenha um infeliz derrotado e neurótico. Tática eficaz e ilícita essa, mas vou vencê-los e para isso preciso morrer, e rápido. Tomei fôlego e corri em direção ao quarto, mas quando meu passo quente tocou no piso frio meu corpo inteiro tremeu baqueado e a reverberação produzida no corredor zuniu aguda em meus ouvidos aturdindo-me, focado ainda segui cambaleante até cair sobre o ríspido carpete da câmara fúnebre, veloz recuperei-me audaz e bravio ergui o rosto avistando a monstruosa montanha de vinil negro que havia a minha frente: um cemitério de vozes mortas; impactado e assustado recuei batendo as costas contra uma muralha de livros velhos e falastrões empoeirados que há anos ignoro; acuado gélido suei vendo com os olhos arregalados as centenas de mãos que saiam de objetos cognitivos agarrarem uma porção de outras mãos que imergiam de minhas entranhas e fui debatendo-me contra elas até chocar-me numa urna vertical imensa e sombria que revelou ao abrir as portas uma série de peles inumanas todas mofadas apodrecidas com os nomes de seus algozes marcados a ferro, elas saltaram e rastejando tentaram subir pelas minhas pernas, me defendi chutando-as para longe, desequilibrado em meio aos pontapés cai sobre cama e senti meu estomago encolher repugnado amargando minha boca só de imaginar quantas autópsias minhas já foram feitas sobre aquela sádica mesa cirúrgica, quantas... Cansei de ser o divino animal terrestre que se nega a ser o que é. Vou morrer e vencer-los e vai ser agora! Sem medo do que poderia vir a acontecer levantei-me e quebrei tudo o que vi pela frente, precisava desmembrá-los desarticulá-los espedaçá-los torná-los amorfos não-cógnitos. Depois de horas espancando-os olhei em minha volta e quando tudo não me lembrava mais nada, agachei-me como um bicho faminto e comecei a comer a salada de farrapos que se formou aos meus pés. Comi até vomitar e quando vomitei comecei a comer de novo e fiz isso até que os restos gástricos misturados a minha saliva formassem uma massa grudenta e densa, quando isso aconteceu, com ela construí meu sepulcro... Acasulado batráquio, morri.


Algum tempo depois foram encontrados no cômodo apenas cacos apodrecidos do que aparentava ser um grande invólucro. Ninguém nunca mais foi visto no local.

 

 

Poema inspirado nesse conto: Se não é que já estou morto.

 

Publicado por AB Poeta às 20:28
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4 comentários:
De Bene a 3 de Junho de 2010 às 21:47
Gostei muito. Tudo aquilo num fôlego só, como para eliminar algo que realmente mata, e da qual precisamos morrer. Mas também me pegou de chofre no início, pois é algo meio como uma navalha na gente mesmo. a nos fazer repensar, como um filme a nos mostrar. Depois acabei racionalizando tanquilamente: uma denúncia sobre tantos químicos que adoramos ao mesmo tempo que satanizamos.
De AB Poeta a 3 de Junho de 2010 às 21:48
Vlw Bene! É pra tirar o folego de quem lê mesmo!

abrçs
De Helu a 9 de Agosto de 2010 às 17:43
Eu gostei de toda a idéia e das analogias, tem umas frases ótimas para citações posteriores, hahaha (sou viciada em anotar trechos...). Enfim, a parte da navalha em si e o comentário sobre o vaso e o desodorante foram perfeitos, realmente marcaram o conto. Só queria te dar um toque sobre o formato do texto, senti falta de um espaço entre os paragráfos.

Enfim, vou ler mais texto por aqui :).
De AB Poeta a 10 de Agosto de 2010 às 02:13
Olá Helu, o texto é assim mesmo, sem parágrafos, sem espaços sem nada! Não era para ter nem pontos e nem vírgulas, para passar a sensação de agonia e confusão total!

Mas valeu pela observação e comentários!

Bjs

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