André Braga

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A pena mágica

 

Num mundo não tão distante, e nem tão ficcional, onde quem tem menos nas mãos pode vir a ser Rei, os conduzidos levavam suas existências guiando-se pelas luzes. A divina, essa sim iluminadora, não ajudava a populaça, pois ela era vista somente pelos virtuosos. As luzes utilizadas para conduzi-los eram as dos letreiros de lojas, de bares, dos cinemas, das propagandas, luz da TV... Mas no decorrer dos últimos anos um problema surgira: durante o dia a luz do Sol, que sempre causou problemas ao senado real, e que de uns tempos para cá vem ficando cada vez mais intensa, ofuscava as luzes dos letreiros e afins, atrapalhando, e muito, a condução das coisas. Sem essa luz para pautarem seus caminhos, os conduzidos logo ficariam a mercê das palavras contidas nas fachadas, e assim aprenderiam seus significados simbólicos, semânticos e elucidativos, e essa possibilidade de raciocínio sem controle produziu certo desespero na corte. A averiguação de falta de tal referência condutora durante a vigília deixou os autocratas preocupadíssimos, pois entenderam isso como uma ameaça à vida farta e luxuriosa dos cortesãos. Sem demora reuniram-se à procura de uma solução rápida e, de preferência, não tão custosa para o erário:


- Os luminosos durante a luz do dia não iluminam mais nada! E assim não guiam ninguém. Então como conduzir a plebe durante o dia, já que eles se guiam por estas luzes, as dos letreiros? Será que não é melhor recorrermos às...


- NÃO! Às palavras não! Para essas nem pensar! Elas, essas malditas, juntam-se e formam coisas terríveis... Formam FRASES!


- FRASES! ELAS FORMAM FRASES! Nossa, então o que faremos? Como evitar tal catástrofe! Não podemos deixar os conduzidos zumbizando por ai, sem luz guia e muito menos deixá-los expostos às frases formadas pelas palavras!


- Concordo plenamente. Temos que fazer algo a respeito. E de preferência sem recorrer às... Às... Não tenho nem coragem de repetir esse repugnante nome.

- Concordo, mas vamos fazer o que então?


- Já sei! Vamos utilizar a luz do fogo! Utilizá-la-emos porque, mesmo à luz do dia, elas, as chamas, são visíveis. E podemos apagá-las durante a noite, pois a luz da TV já os guia nesse período, e particularmente acho que ela faz isso muitíssimo bem.


- É uma boa idéia, mas já utilizamos as chamas para assar os pedaços de cadáveres de animais que caçamos, para alimentarmo-nos. Pode haver confusão. Os conduzidos podem não entender essa mudança e confundir as utilidades. Podem não distinguir os contextos...

 

- É verdade. Se isso ocorresse seria o caos do caos.

 

- Desgraçados são estes tais de conduzidos! Não fazem nada se não tiverem alguém que os mandem fazer! Que os ensinem a fazer! Não limpam nem o próprio cú direito se não forem corretamente adestrados.

 

- Concordo!

 

- Também concordo!

 

- Bom mesmo são os animais, que já nascem sabendo o que tem que ser feito. Já sabem para que vieram ao mundo. Equilibram-se coletivamente, cada qual com sua pré-determinada função existencial, de maneira perfeita.

 

- Concordo plenamente! Por exemplo: o João-de-barro: já nasce sabendo que tem que edificar a própria casa, e faz isso muito bem, com técnica e sem a ajuda de ninguém em... Sem dar um “piu” se quer.

 

- E insetos como as abelhas: constroem, dentro das colméias, milhares de hexágonos, simetricamente perfeitos, depois vomitam mel dentro, e tudo isso é comandado simbolicamente apenas por uma rainha; são mais de oitenta mil súditos operando ao mesmo tempo... Fascinante!

 

- É uma pena que não podemos transformar os conduzidos em animais, seria bem mais fácil, e útil, para nós.

 

- Já imaginaram que maravilha seria: não precisar mandar mais nenhum conduzido à Cia. Alfabetizadora... Economizaríamos milhares de moedas.

 

- É, mas pelo jeito a solução será gastar mais moedas com a Cia. Alfabetizadora, para letra-los e, conseqüentemente, guiar os conduzidos com a ajuda das... É, dessas ai mesmo que vocês estão pensando. Também não tenho coragem de dizer esse maléfico nome.

 

- É, não há outra solução... Acho que vamos ter que letra-los...

 

- É... Então vamos comunicar ao Rei, para que o decreto solucionador seja logo assinado, e livrarmo-nos rapidamente desse problema.

 

Naquela calorosa tarde o Rei já havia assinado uma série de vários outros decretos, o que o deixara com a mente cansada, exausto de tanto pensar, e sabendo a corte disso, caminharam todos receosos, com medo de alguma reação ríspida da parte de vossa majestade. Como não encontraram nenhuma outra solução, e o problema teria que ser resolvido o mais rápido possível, seguiram temerosos ao derradeiro encontro.


Quando adentraram na sala do Rei, ele estava sentado pensativo, com o olhar fixo no nada, imóvel e com um semblante não tão amistoso, apoiando o cotovelo esquerdo no respectivo braço do trono, com o punho cerrado e mantendo o queixo sobre, e a outra mão estava espalmada sobre a coxa direita...

 

- Com licença vossa majestade. – Disseram todos com a voz um tanto tremula. O Rei não esboçou nenhuma reação.

 

- É... Com licença, vossa majestade. – repetiram – se for incomodo voltamos outra hora...

Lentamente o Rei recostou-se, com a coluna ereta e o queixo erguido, repousou seus braços nos braços do trono, passando um ar de soberania e prepotência para com os nobres da corte, e disse:

 

- Sim. O que querem... O que os trazem aqui?

 

- É, desculpe-nos, vossa majestade, pelo incomodo...

 

- E por um acaso vocês sabem fazer outra COISA! Além de me causarem incomodo.

 

- É que... Que... Temos um problema e... Não conseguimos resolve-lo... - O Rei pôs-se a rir, levemente sarcástico...

 

- Grande novidade! Digam logo o que querem! Qual é o problema?

 

- É que... - Um outro palaciano interveio e disparou a dizer sem pausa...

 

- São as luzes que guiam os conduzidos durante a luz do dia por causa do sol rei astro os letreiros não iluminam nada consequentemente assim não guiam os conduzidos deixando essa tarefa apenas para a TV à noite e a luz do fogo não pode ser utilizada por que os conduzidos podem não entender e será o caos do caos e...

 

- CALE-SE! - urrou o Rei - Você é louco ou o que? Perdeu as estribeiras! Quer apodrecer na masmorra! Eu já sei o que está acontecendo!

 

- Sabes?! – Alguns murmuraram.

 

- Claro que sei! Tenho diversos informantes. Ou achas que deixaria a ordem do meu reino nas mãos de vocês! Áulicos idiotas!

 

- Se vossa majestade já sabe, então, por favor, diga-nos o que fazer.

 

- Sim, claro. Já pensei, pensei, pensei, e tive uma grande idéia. Vamos utilizar as palavras!

 

- Oh! – Disseram todos os cortesões, em uníssono – às palavras! Mas não é custoso e, pior, perigoso, recorrer às palavras? E se elas dominarem os conduzidos? Se isso ocorrer, podem eles virarem-se contra nós! E a Cia. Alfabetizadora? Teremos que erguer aos montes, e isso será muito custoso. Gastaremos muitas moedas!

 

- Vejo que letrar-se é mesmo privilégio de poucos. Eu não disse “recorrer às” e sim “utiliza-las”.

 

- Mas, como assim utiliza-las, vossa majestade. Perdoe nossa singela ignorância.

 

- É muito simples: precisamos somente simplifica-las. Torna-las menos complexas e mais práticas... Para nós, claro! – Quase todos riram a meio tom de maneira maliciosa.

 

- Ah! Entendi, e só mudarmos as regras do jogo! Oh, meu Rei, sua idéia é simplesmente genial. Mas... Vamos mudar isso como?

 

- Simples: assinarei um decreto mudando as regras, removendo sinais e acrescentando símbolos. Reordenarei tudo. Fazendo isso todos entenderão, pelo menos um pouco, as palavras, e assim esses ai, os conduzidos, podem guiar-se “sozinhos”, sem custo algum para os cofres e, melhor, não representarão nenhum tipo de ameaça a nós. – Todos riram em tons diferentes de satisfação.

 

- Viram como é fácil de resolver nossos problemas! Tragam-me agora papiro e pena tinteira. - Sentaram-se todos a távola, com a majestade na cabeceira, e foi assinado o decreto.

 

- Obrigado vossa majestade! Sem vossa inteligência não sei o que seria de nós.

 

- Eu sei disso! Agora, mandem chamar o poeta. Mandem-no registrar em poesia todo esse acontecimento histórico, que ficará para a eternidade...

 

- Sim, vossa alteza, seu desejo é mais que uma ordem.

 

- É... E vocês queriam investir na Cia. de Alfabetizadora... São uns dementes mesmo! – Após proferir, o Rei sentou-se soberano ao trono.

 

Rapidamente chamaram o poeta, que ao saber do ocorrido sentiu-se ferido, pois sua paixão, além de já ter virado um ofício, havia sido lesada. O que ele levou tanto tempo para aprender, debruçado dias e noites sobre sábias escrituras, já não valia mais de nada. Transcreveu o fato em poema, como era de vontade do Rei.

 

- A vontade do Rei é a nossa vontade também... E triste, de pé sobre o púlpito da ágora, recitou poeta:

 

A luz que guiava-nos, um dia
Sumira, sem dar explicação
Deixando conduzidos a deriva
Perdidos, atrás de solução

 

A chama acesa ilumina
Mas não com precisão
A TV, só à noite essa
Ajuda na condução

 

De dia o Sol brilha muito
Ofuscando a visão
E deixa as palavras expostas
Ameaçando cortesãos

 

O Rei, vendo aquilo
Agiu com precaução
E disse: Tragam-me papiro e pena
Vou acabar com a sofreguidão:

 

 

Assinar um decreto irei
Mudando a legislação
E as palavras, que antes ninguém lia
Não trarão mais aversão!

 

E assim foi feito
O Rei, que tem bom coração
Com uma simples assinatura
Alfabetizou toda a nação!

 

- Vida longa ao Rei!

 

- VIVA!

 

Após a leitura, o Rei foi aplaudido.
 

 

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Publicado por AB Poeta às 00:45
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