Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Sábado, 8 de Outubro de 2016

Modelo

 

O mendigo fotografado

ficou bonito

 

Homem oriundo do descarte

no fotograma agora é arte

 

Da rua à galeria de fotolitos

o mendigo virou mito

 

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publicado por AB Poeta às 15:45
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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2016

Encalço

 

Signos seguidos

persigo na cidade

Acidade sanguínea

fluxo, rotatividade

 

A rapidez do tempo

age no aço, edificante

E eu lento, nesse espaço

agonizo, insignificante

 

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Domingo, 8 de Março de 2015

a rua e o rio

 

a rua ria do rio que ia

do curso que ele seguia

pois sabia não conseguiria

progredir conforme ela progredia

 

cobrir a Terra ela poderia

ser mais útil ela seria

servir sempre ela serviria

só crescer era o que fazia

e isso ela nunca pararia

 

até que percebeu um dia

que o rio é que da rua ria

porque parada ela não saía

e apesar de crescer à revelia 

para nenhum lugar a via ia

 

quando entendeu a diferença que havia

a rua imponente que antes ria

parada no lugar pôs-se a chorar

porque diferente do rio que ia

seu curso seguia para algum lugar

e a rua que antes não via

viu que nunca encontraria

o mar

 

agora é tarde demais para desaguar

 

publicado por AB Poeta às 15:02
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Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015

Black SP

 

algo irá acontecer

na cidade intensidade

o céu ficará negro

e o dia irá escurecer

 

a água irá cair

as ruas irão encher

a noite será escura

não haverá amanhecer

 

a torneira irá secar

só sobrará o Tietê

o trânsito irá parar

não haverá pra onde correr

 

o estresse se espalhará

e atingirá você

seu coração explodirá

e você irá morrer

 

no meio da multidão

ninguém irá querer saber

de mais um corpo pelo chão

atrapalhando o entardecer

 

você irá apodrecer

a enxurrada o levará

ratos irão te roer

não há nada o que fazer

 

porque aqui é a Black SP!

 

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publicado por AB Poeta às 23:31
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2015

X haikais à vida em SP

 

I

 

céu sem nuvens

o fundo da represa

ar na torneira

 

II

 

o vento forte

a árvore que cai

luz que se apaga

 

III

 

lagoa seca

tucanos bebericando

há vinte anos

 

IV

 

água cai do céu

asfalto impermeável

Clara boia

 

V

 

o céu cinza

a multidão que corre

edifício

 

VI

 

o sol a pino

multidão amontoada

espera no ponto

 

VII

 

a chuva forte

correria na praça

o banco vazio

 

VIII

 

fome de inverno

o sal sobre a mesa

mosca na sopa

 

IX

 

gramado verde

passe preciso, o gol

ver de amar, elo

 

X

 

chove lá fora

batem palmas no portão

melhor na cama

 

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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2015

chuvas de verão

I

 

chuva de verão

casamento de espanhol

enclave de sol

 

II

 

chuva de verão

asfalto impermeável

a rã está morta

 

III

 

chuva de verão

a árvore cai morta

luz que se apaga

 

IV

 

chuva de verão

o ônibus lotado

vidro embaçado

 

V

 

chuva de verão

a gravata a forca

algodão molhado

 

VI

 

chuva de verão

batuque no telhado

chão de granizo

 

VII

 

chuva na estação

trem lento caramujo

todos verão

 

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Sábado, 6 de Dezembro de 2014

dessigno

 

pelos signos da cidade

perdido errante

o ser social segue

insignificante

 

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publicado por AB Poeta às 13:43
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Terça-feira, 29 de Julho de 2014

cida de

 

viver cidade

violenta velocidade

 

ver a cidade aparente

ser o vírus e a semente

fugaz ser

a serpente

gás do caos corrente

 

lentamente

trânsito em transe

carros tragados

transeuntes

cigarros lábios lentes

 

lenta mente ácida

árida

fragmenta mente

 

cor rente

de mente

fuga cidade

lá tente

 

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publicado por AB Poeta às 03:44
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Sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Tietê - II

 

Tietê quem

te viu não quer

te ver

 

à margem

sem ramagem

sem ramais

marginais nada

fluviais

 

no leito

sem porto

sem jeito

rio quase morto

 

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publicado por AB Poeta às 02:42
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Sábado, 5 de Abril de 2014

amizade universitária

amizade de faculdade

entidade

Unisant’anna

 

o tempo passa, zuni

e a afinidade mantem-se imune

espírito, nirvana

pois algo ainda nos uni

em bares de Santana

 

para Eli, Bia, Betão e VB

 

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publicado por AB Poeta às 01:46
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Domingo, 19 de Janeiro de 2014

levante

 

ódio raiva rancor

toda dor da humanidade

 

a infelicidade faz o corpo

social se mexer

mover-se com indignidade

 

a favor da igualdade? talvez

mas de vez pela mudança

no mundinho pobre da esperança

não espere nada da felicidade

 

a raiva é que vai nos salvar

(levante ante o Leviatã)

 

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publicado por AB Poeta às 22:07
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Sexta-feira, 6 de Setembro de 2013

prédio e praça

 

entre um prédio e

outro um tédio e

outro prédio e

outro tédio e

um outro

rumo

 

entre uma praça e

outra uma graça e

outra praça e

outra graça e

uma outra

rima

 

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publicado por AB Poeta às 02:59
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Quarta-feira, 1 de Maio de 2013

Na Luz não há luz

 

Constelação faminta

Há de luzir

de lá as estrelas

todas

 

A deusa nua

banha-se amoral

em pleno esgoto a céu

aberto chafariz sem anjos

 

Um punhado maltrapilho

come um punhado dado

graças à graça

do olhar de desgraça

sob o desgraçado

 

A estação é sempre

a mesma

seca fria suja

sem luz

sem esperança

 

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publicado por AB Poeta às 17:07
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

Abandono

 

Criança sem casa

não cria asas

tem perna torta

e bate palmas

de porta em porta

 

 

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publicado por AB Poeta às 13:42
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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Viaduto

 

Um homem sobe

o viaduto

O carro sobe

o viaduto

A velha sobe

o viaduto

O progresso sobe

o viaduto

O viaduto sobe viaduto

 

O adulto via

viaduto

sobe

mas não alcança o céu

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Domingo, 21 de Outubro de 2012

O mendigo-gato

 

Do lixo ao luxo

o mendigo-gato

não é negro

Traz sorte

 

Olhos de céu solitário

cabelos de campos de trigo

o pequeno príncipe

de um planeta podre

 

Entre tantos esquecidos

foi o escolhido:

o mendigo-gato-borralheiro

é tão belo

que a miséria

não o merece

 

 

Clique e leia sobre o "mendigo-gato"

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publicado por AB Poeta às 01:18
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Terça-feira, 17 de Julho de 2012

Falo

 

I

 

A sociedade civil

machista sucumbiu ao

feminismo

isso é fato

e a mutação que a redefiniu

transformou clitóris

em falos!

 

 

II

 

Falo, fera, fuzil

a falocêntrica sociedade civil

brochou de vez 

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Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Rodoviária

 

Partir

Chegar

 

Partir os olhares

algo que fica

 

Um beijo jogado

no ar

por bocas distantes

 

O amor me fez olhar para trás

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publicado por AB Poeta às 13:39
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Sábado, 17 de Dezembro de 2011

Vila das Belezas

 

De cada lado um monte:

cada casa uma janela

cada janela uma visão

cada visão um horizonte

cada horizonte uma ilusão

 

Nas cores dos varais

a ilusão escala

em notas musicais

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publicado por AB Poeta às 02:31
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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011

Canibalismo capital

 

A mulher-homem

devora entre as engrenagens

o macho-alpha

que delira na dúvida

enquanto as crias

embriagadas no chiqueiro

criam asas de anjo

decaído

 

Na selva dos símbolos

pagãos

crias, caças e caçadores

confundem-se

e todos morrem

famintos

 

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publicado por AB Poeta às 19:25
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Domingo, 27 de Novembro de 2011

Espera

 

O nome de um morto na placa dá nome à praça

enquanto espero de costas

para o mundo

 

Afinada a garoa soa como orvalho noturno

em meus cabelos serenos

enquanto a multidão passa

como um rio de vontades frustradas

que segue para lugares

aonde o mar não está

 

A sinfonia das coisas

embala o berço dos pedintes

vigiados pela dó

pelas pombas sujas

pela coerção

 

A mesmice das cores se espalha

pelos becos dos olhos

e não te enxergo na imensidão

da cidade difusa

 

Por onde você anda...?

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publicado por AB Poeta às 01:58
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Anunciação

 

No céu de São Paulo

nuvens chumbo prenunciam

a queda

que arrasta tudo alaga:

esgotos gastos

coletivos esgotados

casas ocas poços

restos fossas pastos

fossos poças

paços largos

logradouros

lugares comuns

 

Lago imenso lodo

onde Tristeza e Tragédia nadam nuas

sincronizadas

entre ratos-golfinhos

dejetos restos

e rostos

 

O trovão grita

rasga o ar:

Corre! A água é suja

imunda inunda

tua hora vai chegar

 

A sinfonia continua

no mesmo (des)compasso

até que a última gota

caia

 

 

publicado por AB Poeta às 13:01
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2011

Poesia prum dia chuvoso

 

Lá fora

na depressão da rua

só a chuva

fraca fina esfria

Relento

 

Aqui dentro

a solidão

afia a faca fria

na alma fraca

Que logo abra

o tempo

 

A subida do sol

é íngreme

saída

Contento

 

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publicado por AB Poeta às 14:04
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Sábado, 22 de Outubro de 2011

Sobvive

 

Um barraco

pegou fogo

muitos morreram

 

Só a

Miséria

continua viva

 

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publicado por AB Poeta às 14:49
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Propriedade e produto

 

Nas esquinas da minha pátria

camelôs vendem

o dropes da amargura

por uma módica quantia:

a vida

 

O doce

produto

que se dissolve

na boca

limitasse a

um fechar de olhos

um pacote a prestação

um auto

um instante

 

E o sabor

extra-forte

da bala

não abala

a estrutura

 

Adquirir a própria vida

custa

(meu) caro

 

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publicado por AB Poeta às 01:39
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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Barulho dos Inocentes

 

Rebeldia Punk

grito suburbano

 

A cidade não pára

ambiente desumano

 

Ao que me parece

o pânico prevalece em SP

onde anoitece e aparece

a face de deus na rotina

da pátria amada

do desequilíbrio

 

Devoro estilhaços calado

o expresso oriente descarrila

Eu ignorado, faminto

um ninguém em chamas

sem medo de morrer, sem valor

 

Inimigo, homem negro

que bebe demais, sujo

estranho de sangue ruim

um verme, resto de nada

 

Que tem nojo

que aprendeu a odiar

um homem em fúria

sem nada a perder

pesadelo contra o mal

 

A noite dome lá fora

amanha será tarde demais

 

Só a raiva vai nos salvar!

 

 

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publicado por AB Poeta às 20:44
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Domingo, 10 de Julho de 2011

Noturnos

 

Na pulsação dos sons

no sangue que se espalha por veias de luzes

minha vida corre

entre teus movimentos e

deságua

em teus beijos de nicotina

publicado por AB Poeta às 18:22
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Sábado, 16 de Abril de 2011

Resgate

 

Um vagão sem trem

e vazio

 

Chão baldio

 

Fora dos trilhos

janelas abertas e esquecidas

sem horizonte

terminam no tempo

 

Só a arte salva

 


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Sexta-feira, 25 de Março de 2011

Sinal vermelho

 

Atenção!

Amarelo fome

 

O sinal fecha e abrem-se as cortinas

 

Equilibrado num corpo seco sujo

malabarisa-se

come pouco e cospe fogo

a atração que nunca foi a principal.

 

O homem bala (de hortelã)

voa por entre o aço industrializado

Todos olham, acompanham e fingem indiferença

carregando no íntimo espanto, medo e pessimismo.

Correndo, na velocidade estridente dos sons

ele volta à posição inicial

alçando mais alto um próximo vôo

 

Flores espirram água

pedintes rodam as rodas ralas entre as rodas negras

O picadeiro urbano fervilha

enquanto a tristeza do palhaço transita

na orla pavimentada.

 

Um sinal verdeja

a platéia sem graça segue sagaz

em passo apressado

Acelera a carroça e sopra fumaça na moça insossa que passa

enquanto feroz

a fera faminta fenece no asfalto

frio

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Sábado, 12 de Março de 2011

A praça morta

 

uma praça sem coreto

não tem esperança de música

nunca atrairá nada de puro.

 

por detrás das ogivas sacras

não há mais santos

mitos

pecadores em confissão

carolas

divindades

não há nada que não seja humano

 

seu herói

eternizado pela verdade que voa pelas bocas

no tempo

enriquecido pelo bronze

descalço pela humildade

é só mais um estranho

que anda sem destino

e disputa espaço

com palmeiras poluídas

camelôs falastrões

policiais famintos

com a podridão alada que come

migalhas

 

seus anjos

foram devorados pela pressa

pressa em passar

em crescer

em ser

em ser percebido

percebido pela multidão

multidão que passa quieta

quieta e rápida

rápida e sem fim

sem um fim

 

a beleza das putas

a sem-graçisse dos funcionários numerosos

o cão coitado

que é mais amado que as coitadas

das crianças sujas

 

o pastor apocalíptico

vagabundos

desempregados

golpistas

o progresso escondido debaixo da terra...

 

marco zero

marcas do progresso

zero a esquerda

 

céus

que inferno é esse?

 

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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Itinerário

 

Uma música adoça pelo ouvido

Um corpo morto que viaja contra o tempo

 

Um filme passa em seus olhos

Fechados ou abertos

(ou até sem olhos)

 

Um mesmo mesmo

Passa pela mesma situação

Acomodado igual na poltrona igual

No lado oposto

 

São vários mesmos

Talvez não iguais

Mas parecidos

Que correm

Para aonde? Não sei.

Não faz diferença

 

Um sonho nasce a cada sonho

E o que se sonha neles é realizar

Pelo menos um que seja

 

No itinerário diário

Todos os caminhos levam

Do sonho à morte

 

Estrela polar no norte

Cruzeiro do sul no sul

Uma terrestre é necessária

Já que ninguém enxerga mais o céu

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Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Fuga

 

Quanto tempo ainda tenho

Para perder jogando meu olhar

Pela janela coletiva e percebê-lo

Freado no cinza-sujo?

 

Quanto de mim ainda perderei

Na multidão só e petrificada

Que se preocupa apenas em morrer bem?

 

Quanto ainda irá crescer

Cidades, procissões, artérias podres

E vias duras que não chega a lugar nenhum?

 

O relógio rege rígido o rumor rancoroso

E rupestre da ror romântica e ridícula

 

O nada produzido às máquinas

Enche as nada-vidas em dias de nada

 

Acho no chão um metal

Levo-o ao ouvido

Escuto o mar que há em mim...

Ondas quebram

Sinto a areia sob meus pés nus

Um sol eterno me faz rir

Envolto a um calor de satisfação

 

Passa uma garota que não me olha

Porque não tem mais olhos

Mas sinto seus olhos negros

Infinitos de ternura

Que fogem de uma espécie de burca

 

Sinto sua pulsação de samba

Sua seda, mesmo perdida em trapos mentirosos

Sinto-a leve

 

Um beijo quer escapar, sinto...

Quente seu desejo quente, sinto...

 

Ela passa e o homem morto no bar

Estirado sobre vidros

Sente-a também

Acho

 

Ela se vai...

 

Leio gritos nas pedras

Que estão tatuadas no chão do cotidiano

Que está tatuado no tempo agora

Que não está tatuado em lugar algum

Mas foi marcado a ferro

Em minha lembrança

 

Um cachorro semi-vivo rasga meus restos

Na esquina dos heróis

Jogo a ele mais um pedaço meu

Ele cheira e vai embora, não quer

 

Crianças semi-mortas entoam

Cantigas de roleta-russa

Já brinquei com elas assim

E perdi...

Faz tempo, só não lembro quanto

 

O tempo faz tempo que passa

E de tempos em tempos

Me pergunto: quanto tempo já isso?

 

Não me vem respostas

Porque não quero mais respostas

Elas são nada mais que a morte

E preciso da dúvida, que é vida

Que impulsiona

 

Sou cercado de platonismos

Que me sepultam

Em mármore grego sagrado

E mitos mais humanos

Que os próprios humanos

 

Entre as verdades

Idealismos e utopias doentes

Sou só fuga

Desse horizonte cinza-sujo

Que freia meu olhar

De esperança

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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Esmola

 

Pelo ar voa o cobre

Nobre cuia aguarda o metal

Fatal a fome do pobre

Morre no tilintar final

 

Sorri-me banguelo

Magrelo

O flagelo

Sobrevivendo a farelo

 

O resto que me resta

Jogo ao resto que resta

Rastejando nas ruas

 

A dó me faz ser caridoso

Torna meu dolo culposo

E meu coração bondoso

Seus nós desaperta

Acreditando ter feito a coisa certa

Para que a paz seja alcançada

 

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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

Pombas

 

A pombinha banca da paz

Que bebe água de esgoto

Que come restos da cidade

E migalhas de bondade

Mal sabe que seu vôo

É metáfora terrestre

 

A pomba indigente

Foco de doenças

Vive junto aos seus

Defeca nos heróis

Nos casais e nos Santos

Gorjeia em fios elétricos

Aninha-se em luminárias

E em tetos comerciais

Que quase tocam o céu

 

A pomba não sabe o que é paz

Nem o que é guerra

Nem o que é herói

Nem o que é doença

Nem indigência

Não sabe nem o que é voar

 

Rato alado hoje

A pomba sofre

As conseqüências

Boas e más

Da minha utopia

 

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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Minha rua

 

Minha rua negra já foi de terra, pedras e diversões

Na época em que os carneiros eram coloridos

e podíamos montá-los e guardar essa lembrança

para o resto de nossas vidas

 

O Gigante é uma lembrança alegre

A casa da Flora nunca teve árvores

O homem da tapioca não tinha relógio

e sabia a hora certa. Acho que nos tapeava

As gêmeas, nunca achei elas parecidas, mas

agora estão ficando (que estranho...)

 

Alguns vizinhos detestavam os inofensivos

restos de couro que insistíamos em chutar

entre os chinelos que ficavam nas laterais da rua

 

Acho que éramos uma gangue de crianças

criminosas que com alegria pura e ilícita

perturbavam a moral adulta

 

O céu da minha rua sempre foi de nuvens e pipas

Poucos fios e postes ainda

Nas noites ele era mais celeste

Tinha mais e maiores pontos brancos

Salpicados, densos, formavam manchas

 

Hoje minha rua é silêncio

Que às vezes é quebrado por algum vendedor

Alguém pedindo um punhado

Leitores autárquicos...

 

Às vezes passa uma criança correndo

Dá um grito e some veloz rindo

Mas não sei se é menino do vizinho

Se é de outra rua

Ou se é uma impressão saudosa

Que ainda insiste em brincar

E pregar peças nesse adulto clandestino que me transformei

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Sábado, 4 de Setembro de 2010

Pipa de papel

 

Lá vai longe lá em cima no céu

A pipa colorida de papel

Limitada pela branca linha

Que fica embolada numa latinha

 

Também chamada de Papagaio

Peixinho, Raia, Maranhão

Ou Quadrado, alimenta a ilusão

Do garoto pobre e esguio

 

Quantas coisas não voam junto com ela

Nem lembramos de Morros ou Favelas

Nesse momento infantil e alado

Todas as mazelas ficam de lado

 

Só existem a brisa e as cores

Das nuvens beija-flores

As pipas fazem seu papel voando

Desbicando, aparando e habitando

Um universo paralelo e infinito

Que torna o nosso pesado finito

Mais leve e um tanto mais bonito

 

Finda o dia com a pipa brincado

Volta a branca linha para a latinha

E o sonho que antes era alado

Num canto da casa pernoita quietinha

 

No outro canto da casa pequena

Depois de tornar a dor amena

Repousa feliz o garoto sonhador

Imaginando que algum dia na vida

Todos os homens deixem a lida

Desenrolem suas negras linhas

De suas surradas latinas

E pintem de colorido o azul do céu

Com suas pipas de papel...

 

(Até as negras linhas se confundirem com as nuvens)

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Domingo, 1 de Agosto de 2010

Giraluas

 

Quando o dia cai e o balcão encerra

A Lua se contrapõe ao negro do resto

Fazendo as Giraluas desabrocharem soltando perfumes, gestos e jeitos

Atraindo ceifeiros desnutridos com suas foices fálicas

Dando sentido a toda essa existência noturna e contratual

 

As Giraluas são das mais variadas cores

Usam poucas pétalas de seda e renda

Que são arrancadas num quem-me-quer qual-me-quer

Que perdura por todo o período da colheita

 

Édipos órfãos que nunca sugaram suas mães

Aos pés pintados e podados das Giraluas

Encontram leito, leite e deleite

Esparramam-se, explodem e derramam gametas infecundos

Sobre a terra que um dia há de engoli-los

 

Ao raiar o dia as Giraluas recolhem seus caules cansados

Cheios de espinhos pontiagudos e venenos que só contaminam a si

E sedem lugar aos vegetais carnívoros

Que se matam por um fio de sol

 

Sol esse que reordena as coisas do ser

Ilumina os olhos cansados dos agricultores

Aquece mortos, montes e solidão

E faz o Girassol abrir seus braços na manhã

Achando que o dia é belo

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publicado por AB Poeta às 23:25
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Sábado, 31 de Julho de 2010

Encruzilhada

 

Atravesse na faixa

É para sua segurança

Nesse mundo sem esperança

Onde o amor está em baixa

 

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publicado por AB Poeta às 15:10
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Terça-feira, 27 de Julho de 2010

Tietê

 

Já não rio mais...

porque em teu curso correm negras minhas sobras

e em teu leito sereias mudas e perdidas

desencantam famintos estivadores de passagem

que sonham com suas ilhas

 

Marginais roubaram tuas plumas e deixaram-te

com a pior fantasia

 

Veia exposta que sangra restos

cadáver decúbito eternamente em decomposição

 

Tua beira escura e densa produz

um Narciso inverso

que se irrita por saber que os reflexos

que lhe mostra são

as ruínas de seus desejos

 

Difícil encarar teus olhos verdes-fossa

que tristes me suplicam pureza

 

Eu

Deus eterno e onipotente núcleo do tempo

a ti ignoro

pois sei que fiz de você minha

imagem e semelhança

 

 

publicado por AB Poeta às 02:40
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Domingo, 25 de Julho de 2010

Recenseando

 

O Brasil é feito de vidas

Mas há Brasis que são feitos de morte

Severina se apresenta para os sem-sorte

Que pelas barrigas ocas foram paridas

 

Juliano marcou o tempo a gosto

E hoje ele é referência

De porta em porta a diligência

Fará o trabalho disposto:

 

“Bom dia minha Senhora,

Vim depois da aurora

Para não lhe causar incomodo”

 

“Que nada meu filho

Já acordo ralando milho

Entre, deixe de modo”

 

“Não precisa, muito obrigado

Já me contenta o bom trato

Eu pergunto daqui e tu dizes daí

Assim é rápido, que nem asa de bem-te-vi”

 

“Então pergunte, qual é o quesito

Dita daí, que daqui lhe dito”

 

“É pouca coisa: sobre a vida

O pão, o fogão, sobre a lida”

 

“É, filho, então é pouco mesmo

Como pode vê, tenho muito não:

Ali é minha maloca

A luz é de lampião

A horta é de mandioca

Que me dá tapioca

Mas o solo não é meu não,

A água é de poço

O banheiro é um fosso

Tenho só uma muda de roupa

Um galo que não cacareja

Há tempo não vejo garoupa

E sou mulher Sertaneja”

 

“E com a Senhora, mora mais alguém?”

 

“Não meu filho, ninguém

Meu marido a muito faleceu

Minha filha, que era moça direita

Se imbestô com Irineu

Aquele, que só desrespeita

E ela com ele desapareceu

Me fez essa desfeita

E agora, entre o céu e o chão

Tá por ai nesse mundão”

 

“E qual é a sua renda?”

 

 “Renda? Só se for de linho!

Às vezes me ajuda o vizinho

E me da um punhadinho.

Comida quem me põe na boca

É a mãe natureza, que pare da terra

E quando a estação encerra

Pra mesa me volta a dureza...”

 

“Minha Senhora, já acabei!

Viu, seu tempo não tomei,

Agora, assine aqui para mim”

 

“Assino... se soubesse

Mas não sei fazer isso não

Do nome só faço rabisco

De ensino o povo padece”

 

E o recenseador agradeceu e saiu

Contou mais um, mais cem, mais mil

Nesse país gigante. E logo a diante

Parou e refletiu:

 

“Conto, conto, conto...

E continuo sem um conto.

Já to tonto de ir em tanto canto

E contar que conto para que o montante

Possam dividir em proporção igual

Apesar de admitir que está muito desigual.

Espero que não tratem o resultado

Que para conseguir foi custoso e suado

Não o apliquem de forma banal

E que toda essa situação alguém reveja

Pois quero ver a Senhora Sertaneja

Pelo menos, com uma muda no varal”

 

(De dez em dez as galinhas enchem seu papo)

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publicado por AB Poeta às 02:57
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Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

Loucomotiva

 

Leva o peão

Leva o peão

Leva o peão

Leva o peão

Leva o peão

 

De estação

Em estação

De estação

Em estação

De estação

Em estação

 

Sobe um montão

Desce um montão

Sobe um montão

Desce um montão

Sobe um montão

Desce um montão

 

Bate o cartão

A multidão

Bate o cartão

A multidão

Bate o cartão

A multidão

 

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

 

Piuiiiii

 

Arroz feijão

Arroz feijão

 

Piuiiiii

 

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

 

Pra casa não

Ganha o patrão

Pra casa não

Ganha o patrão

Pra casa não

Ganha o patrão

 

E mais café

E menos pão

E mais café

E menos pão

E mais café

E menos pão

 

Reprodução

Reprodução

Reprodução

Reprodução

Reprodução

 

Tudo ilusão

Tudo ilusão

Tudo ilusão

Tudo ilusão

Tudo ilusão

 

Desce o caixão.

 

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publicado por AB Poeta às 12:23
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Domingo, 13 de Junho de 2010

Sampacaosmopolitana

 

Santo São Saulo

De Tarso, rico em cultura

Das alturas, herança deixou

E edificou a cidade assim:

 

Parques, Vilas e Jardins

Pinheiros, Maria e Mariana

Negra, rubra e ariana

Sampacaosmopolitana

 

De punhos cerrados

Recebe os afilhados

Com olhos de assombro

Em seu tapete negro

 

Retirantes, imigrantes, viajantes

Romarias, passeatas, procissões

Revoluções, campanhas, companhias

 

Aglomerações em suas vias

Devastações de suas ramas

Amálgama, é estrela tramontana

Sampacaosmopolitana

 

Reza às alturas, aos deuses

Por meses, em línguas, novenas

Terços, penitências, por horas

Ora as sagradas escrituras

 

Judia, Cristã, Protestante

Católica, Espírita, Testemunha

Umbandista, Budista, Ateia

Quadrangular, Pentecostal, Muçulmana

Cética, Política, Maometana

 

Ortodoxo só seu ecumenismo

Cigana, Agnóstica, Anglicana

A mistura é o seu absolutismo

Sampacaosmopolitana

 

Seus sons são somas

Gritos grunhidos das gargantas

Buzinas, balbúrdia, Babel

Ritmos retumbantes radiofônicos

 

Rock, Sertanejo, Baião

Reggae, Punk, Samba

Eletrônica, Rap, Clássica

Inglesa, Hispânica, Americana

 

Suas tribos se multiplicam

Na selva de pedra urbana

Aqui todos se coisificam

Sampacaosmopolitana

 

Grande centro financeiro

Do trem é a locomotiva

Boas são as perspectivas

Que vive o ano inteiro

 

Os subúrbios desditosos

As periferias populosas

Casarões de muros grandiosos

Desigualdades escrabosas

 

Todos querem o montante

Da equação: trabalho x salário

E nisso não há nada de hilário

Pois o chicote estrala constante

 

Agora, o dinheiro é o seu fruto

Brota das mãos, das cabeças

Dos negócios, do tributo

Espessa nasce sua grama

Sampacaosmopolitana

 

Nas esquinas as meninas

Pintadas, pouco vestidas

Boca naquilo na Boca do Lixo

Aqui sexo não é pecado, é nicho

 

O bicho pega, a bicha

Que disputa pelo ponto: rixa

A polícia coerciva, ficha

E a Santa Hipocrisia, lincha

 

Prostituida por qualquer troco

O cafetão sempre nos engana

O prazer muitas vezes dura pouco

Sampacaosmopolitana

 

A solidão aqui é coletiva

O dia a dia gera ansiedade

A lágrima escorre corrosiva

Tamanha é a brutalidade

 

Parece até que é covardia

Mas é assim que ela ama

Nunca afaga sua cria

Sampacaosmopolitana

 

Viver aqui é uma arte

Arte que se vê em marquises

Prédios, pontes, grafites

Nos passos da porta-estandarte

 

Baluarte dos escritores, poetas

Pintores, antropófagos das letras

Modernistas das palavras

Pau-Brasil que o artista lavra

 

No cotidiano se forma o léxico

Reflexo da língua provinciana

Parnasiano agora disléxico

Sampacaosmopolitana

 

Assim ela se faz, refaz e desfaz

E nós vivemos meio a essa metamorfose

Simbiose que muito nos cansa

Dificilmente aqui se tem paz

Mas, quem não ama essa criança?

 

Sampa cosmopolita

Caótica, metropolitana

Agora é a bendita

Entre todas, a mais bonita

Sampacaosmopolitana

 

A minha cidade.

 

 

Esse poema foi publicado no site Catraca Livre, clique e deixe um comentário.

 

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publicado por AB Poeta às 19:59
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Sábado, 3 de Abril de 2010

Estrela (de)cadente

 

Quantas vezes brilhei nesta passarela

Quantas...

 

Na mais paulista das avenidas

Eu, dessa terra nato

Quantas vezes deslizei

Pelo tapete negro do capital

Como uma estrela cadente

Quantas...

 

Construída por migrantes

Comandada por imigrantes

Eu paulista

Não brinco mais o jogo

 

Hoje decadente

Estrela sem pontas (amorfa)

Estrelo a sarjeta

 

E fico contente

Com o tilintar da moeda

Quando cai na cuia

 

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publicado por AB Poeta às 23:36
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Impressões de São Paulo - Liberdade

 

É difícil escolher e falar de um lugar de São Paulo, já que sou paulistano, sempre morei aqui e ando por toda a cidade, ou pelo menos por boa parte dela, desde sempre. Fica então mais fácil começar pelo começo da minha relação com Sampa.


Essa paixão, ou amor, ou dependência, não sei mais qual desses é que sinto, ou se sinto todos ao mesmo tempo... É, acho que é tudo ao mesmo tempo. Aqui tem que ser tudo ao mesmo tempo, senão não vai. Essa relação começou a ficar mais intensa quando entrei para o mercado de trabalho, em 89. Iniciei na vida corporativa como todo garoto da minha época e idade (14) começava, como Office-boy. Foi um ano de muitas mudanças: para mim, que a partir de então teria mais responsabilidades, para o Brasil, que depois de um período de ditadura estava prestes a realizar eleições diretas para presidente, e para o mundo, que assistia a bancarrota de boa parte dos camaradas vermelhos, iniciada com a queda do muro de Berlin.


Bem, mudanças geopolíticas a parte, uma alteração significativa na minha “georotina” era o fato de que eu concluiria o ensino médio num colégio próximo ao centro, mais exatamente na Av. Liberdade. Os amigos da escola de bairro ficariam para o final de semana. Nada mais de, ao término do expediente, correr e pegar o metrô lotado na República, baldear na Sé, ir enlatado até o Carandiru e depois ir pendurado no ônibus até o Jardim Brasil. Tudo isso para, tentar, chegar a tempo de assistir a primeira aula.


A minha rotina alterou-se. Saia do trabalho, um escritório que tratava de imóveis e seguros localizado na 24 de Maio, caminhava tranquilamente por toda extensão da rua sentido Conselheiro Crispiniano, o tempo agora sobrava. Às vezes parava na Galeria do Rock para admirar as capas de discos e estampas de camisetas, que em sua maioria retratava algum rockstar morto por overdose, ou algum outro motivo. As figuras que lá freqüentavam também eram bem curiosas. Punks, metaleiros, góticos e mais uma porção de outras tribos que eu não fazia idéia de como se chamavam ou se denominavam.


Passava pela Praça Ramos de Azevedo que era habitada por figuras quase que circenses: os homens-sanduíche, que divulgavam vagas de emprego, logo a sua frente ficava o mágico que entre tantos números o que melhor executava era tirar luz, feijão e morada de dentro da mínima cartola. Havia também os piratas negociadores de ouro e documentos falsificados... A mais interessante dessas personas era o malabarista: de um lado um aro 20 velho de bicicleta circundado de facas e do outro lado o grande protagonista, vestido com uma calça de capoeirista e sem camisa, exibindo seu físico parcialmente definido (definido mais pela fome do que pela prática de exercícios) e em sua volta a multidão de espectadores curiosos, ansiosos para vê-lo mergulhando através do arco da morte, o que nunca acontecia. Ele ensaiava um salto, recuava, contava uma lorota, ameaçava pular, recuava... E de repente oferecia ao público uma pomadinha milagrosa, feita sei lá do que, que curava de dor de cotovelo a reumatismo. Observando tudo isso, em cada lateral havia um gigante. Na esquerda o erudito e histórico Teatro Municipal, e na direita a impávida e colossal loja de departamentos Mappin, elefante que divertiu muita gente, mas virou zebra e acabou morrendo.


Passado à praça, atravessava a Xavier de Toledo, seguia pelo Viaduto do Chá, onde o show continuava. O homem-bala confesso que não era uma figura querida, era só surrupiar uma bolsa ou carteira para vê-lo voar, e caso precisasse usar o canhão, a experiência tornava-se mais desagradável ainda para o (in)voluntário da platéia. As ciganas, as coloridas cartomantes, com o seu sexto sentido apurado de charlatãs, eram capazes de ler o futuro até nas tampinhas de garrafa, uma maravilha. Os camelôs faziam o papel dos pipoqueiros, vendendo suas bugigangas paraguaias. Os macacos adestrados e de uniforme chegavam todos de carro, estacionavam, desciam e ficavam observando o movimento. Mas é melhor não trata-los como macacos, Virgulino perdeu a cabeça por causa disso. No final do viaduto a visão não era agradável. Pedintes exibindo suas pernas podres passavam o dia ali, com o braço esticado na esperança de um trocado. Era uma ferida sobre a outra: gangrena ou trombose tornando o mendigo enfermo a pior feriada produzida pela sociedade. Havia um que não tinha os olhos, seus braços e dedos eram ossudos, vivia sentado todo torto, era uma figura impactante. Olha-lo era uma mistura de dó, indignação e escárnio. Talvez fosse mais digno que o farrapo se jogasse no vale do diabo, se estatelasse tingindo o chão de sangue e desigualdade. Quem sabe até estrelasse as primeiras páginas do Notícias Populares e alguém sentisse apenas dó dele. Mas ele era tão magrelo que era capaz de nem sangrar muito e não ser percebido. As feridas expostas incomodam e, querendo ou não, nos deixam um pouco frios.


Saia do viaduto, atravessava a Praça do Patriarca, seguia pela Rua Direita e prestava atenção em outras pernas. Na passarela calças pretas apertadas, saias azul-marinho, saltos altos, pernas torneadas, tudo aquilo era um colírio para os meu olhos juvenis. Às vezes parava em alguma loja em que havia uma pilha de fitas K7 em promoção e entre uma fita e outra admirava uma modelo. Na pilha nunca havia algo que prestasse, mas era bom sempre dar uma conferida.


Subia a Quintino Bocaiúva, dava uma olhada nas lojas de instrumentos musicais, chegava no Largo São Francisco e parava no Sebo do Messias. Praticamente eu batia cartão lá, sempre conferindo os vinis. O único lugar onde o cheiro de mofo não atacava minha renite alérgica era no Sebo.


Saia e em fim chegava na Av. Liberdade, me deparando com as últimas personagens da minha jornada. No começo da avenida tem um trecho que apelidei de “paredão das putas”. No final do horário comercial as lojas de Cine & Foto baixavam suas portas, e as meninas iniciavam a profissão. Ficavam enfileiradas ali de 15 a 20 mulheres. A que mais chamava atenção era uma grávida, com o barrigão enorme, na maioria das vezes de vestidinho agarrado de cor azul bebê (Freud explica). Eu passava entre chamadas - psiu, ei gato, ta afim?; oi... vamô lá? - e pensava - mal sabem elas que meu misero salário fica quase todo com a instituição da família Álvares Penteado... o que sobra dá para, no máximo, um hot dog no final do dia.


Chegando ao colégio encontrava os novos amigos, às vezes comia o dito hot dog, às vezes não, às vezes era uma “canoa na chapa”, com catchup e guaraná, às vezes não...


No final da noite era pegar o metrô o ônibus voltar para casa e tentar dormir antes que o dia seguinte chegasse, para acordar pela manhã junto com o galo e me preparar para viver mais um dia de responsabilidades e impressões lúdicas dessa cidade, que apesar dos pesares, ainda muito me encanta.

 

publicado por AB Poeta às 14:51
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Picho

O picho é um grito escrito num muro, por um cara que berrou no escuro da noite, na calada da cidade que, parcialmente morta, dorme.


Quem acorda do coma em meio à manada, passa em frente e o lê cravado disforme, escuta o apelo do coitado e mesmo sem vê-lo sabe que a paz não repousa e sim jaz em sua alma, que ousa dizer.


A cidade já sem calma à vida retoma, e olhar em sua volta ela se nega, pois há muito que fazer e não há tempo a perder, temos que correr porque aqui o bicho pega.


O picho foi visto, lido e esquecido... Virou lixo.

 

publicado por AB Poeta às 16:17
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Carandiru

Pombas e gatos num lugar onde os cachorros são os ratos e a morte vem travestida de gente. Implodido, deixa um alívio consciente na mente e a desigaldade social a caminhar tranquilamente... Sorridente. Vida leve leve vida leviana finda.

 

publicado por AB Poeta às 15:38
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Domingo, 7 de Junho de 2009

Pedro (ou A Procissão)

Pedro antes de se levantar da cama de caixotes e espuma, ficava deitado de bruços para o ar, com a coberta até a altura do peito, passando a mão por entre os finos raios de sol, que entravam sem pedir licença, pelas frestas e orifícios do velho amianto. As vezes se virava para o lado e ficava contornado com o dedo o desenho de uma árvore que havia na madeira. Ficava ali... As vezes fazia isso emitindo algum som. Em dias de chuva era diferente, saltava rápido da cama, para desmonta-lá. Depois ficava parado num canto onde não pingasse. Quando a chuva era muito forte, além da ação de desmontagem, ficava num canto onde não pingasse tanto.


Numa manhã levantou-se mais cedo do que de costume. Sem querer, pisou numa bala que estava no chão, mas não deu bola. Havia combinado com um amigo de ir ao centro da cidade. Comeu o que tinha como café e saiu. Desceu rápido pela ladeira. O movimento dos chinelos levantava a poeira da rua batida e seca, deixando seus velozes pés com um tom avermelhado. Foi até o local marcado e esperou o colega, que logo chegou. Andaram mais um pouco até o ponto, sinalizaram para o coletivo, subiram. Apostaram uma pequena e disputada corrida, para ver quem passaria primeiro por baixo da catraca. Pedro perdeu. Os olhares passageiros e aversos admiravam a habilidade dos garotos – nossa, parecem ratos. Atravessaram o corredor de ombros encolhidos e atenções apreensivas, sentaram-se nos últimos bancos.


No centro da cidade iam sempre ao mesmo lugar. Encontravam outros garotos na praça, passavam o dia lá. Não tinham muito que fazer. Descontraíam-se quando alguém escorregava no lodo morto encruado no fundo do chafariz. Todos riam. O infeliz mergulhador emergia, cuspia a água densa, e sorria meio ao engasgo. Era uma festa.


Os saquinhos plásticos com a cola endurecida não os serviam mais. A fome dava sinal de vida – rir deve dá fome. Tinham a brincadeira já combinada. Um vinha correndo por um lado, trombava, e o outro, pelo lado oposto, passava e apanhava a bolsa: pronto, os roncos das barrigas estavam com as horas contadas. No boteco pediram algumas coxinhas que estavam adormecidas na estufa amarelada, e uma coca de litro. Depois compraram algumas fichas, jogaram horas na máquina de videogame. O comerciante detestava aquelas presenças molambentas. Bêbados, pedintes sujismundos, moleques, espantavam os bons fregueses –
um dia essa matilha acaba e não sobrarão nem as pulgas.


A tarde caía morna. Voltaram para o bairro. Ao chegarem encontraram um pessoal parado na esquina de sempre. Juntaram-se a eles. Adoravam aquilo: ficavam ouvindo as histórias dos caras mais velhos, cheias de aventuras. Benê era o que mais falava. Seus gestos prendiam a atenção dos mais novos. As roupas, o brilhoso relógio, o nome na camisa – o bom é ser assim.

 

- E ai Pedrão, aquela parada lá, ta contigo né?
- Ta sim, ta sim. Ta moqueada.
- Firmeza! Depois eu pego lá.
- Opa, de boa Benê, ta na “responsa”.

 

Benê era um cara respeitado, todos gostavam dele. Uma vez foi parar na Febem, mas ficou pouco tempo. Fugiu com outros garotos durante uma rebelião. Agora estava mais ligeiro, não podia vacilar – se eu der bobeira me prendem, fico guardado uma cara. Fita agora é só a certa. Depois de muito papo, o pessoal dispersou, cada um seguiu seu caminho. Pedro foi para casa.


Subiu a ladeira escurecida pensativo. Chegou em casa, mas não havia ninguém ainda. Não havia nada. Sentou-se em silêncio, ainda pensativo. Enfiou a mão entre a madeira e o caixote com espumas, pela lateral da cama, e apanhou o embrulho que o amigo Benê pediu para que guardasse. Apoiou-o no colo, tirou de dentro um objeto preto-fosco, novo e frio. Tentou ler o que estava escrito no cano – C – O – L –T – 3 – 5 - 7 – não entendia o que significa aquilo, mas mesmo assim achava o nome bonito. Levantou-se e ficou apontando para um espelho velho, mirava na testa do reflexo embaçado – pá, pá, pá – fez com a boca. Sentiu-se poderoso. Estufou o peito e sorriu largo. Apanhou a bala suja do chão e abasteceu o tambor. Estava decidido, a casa que fitou dias atrás, no bairro próximo, seria hoje. Tirou do bolso um resto de dinheiro que sobrou da divertida tarde e colocou-o sobre o criado mudo, perto dum terço, junto a uma pequena caixinha de bijuterias. Ajeitou a cintura e saiu.


O plano estava na cabeça. Morava pouca gente na casa, e pelo que percebeu, não havia cachorro para dedurá-lo. Na maioria das vezes jantavam no mesmo horário. Seria fácil: renderia todos, pegaria dinheiro, outros objetos de valor e sairia. Rápido e limpo. Dificilmente seria pego – a culpa sempre cai na favela, e o primeiro que a polícia pegar vai segurar essa bronca – pensou.


Entrou caminhando, numa passada rápida e muda, pelo meio da rua onde ficava a casa. Passou uma vez pela frente, fitou por entre o portão, não viu nada de anormal, seguiu até o final da rua e voltou. Pular foi fácil, apoiou-se nas barras, subiu pelo muro, caiu como um gato no chão. Agachado, olhou pela janela da sala, que tinha uma fina cortina branca fechada. Tinha um vulto, alguém via TV. Havia uma porta ao lado, mas preferiu não entrar por lá, render um só seria perigoso. Arriscou a porta que dava acesso ao corredor lateral, e deu sorte, estava destrancada. Com o caminho livre, continuou com seu andar de pato. Havia alguém no banheiro. Pela pequena janela saia uma fumaça quente e úmida, misturada a luz. No cômodo seguinte, o rádio em volume baixo dizia algo, continuou seu caminho. Levantou vagarosamente a cabeça, olhou pela janela da cozinha, nada. No pequenino quintal do fundo, nada também. Era a deixa, vai ser agora.


Quando entrou pela porta, um pequeno amarronzado cão, de latido fino, veio com tudo em sua direção. Coitado. Com um chute certeiro, foi arremessado na parede. A pancada produziu um som oco. Caiu imóvel. Um homem avolumado levantou do sofá e veio correndo ver o que estava acontecendo - quem é você moleque? O que quer? Sai daqui ou – sem hesitar, sacou e esticou o braço – pá... pá. O primeiro pegou na barriga. O segundo no pescoço. O pesado corpo caiu, com os olhos estatelados, cuspindo sangue e produzindo um som de animal abatido morrendo. Pedro nunca tinha ouvido nada parecido. Uma mulher saiu do banheiro, de roupão e toalha na cabeça. Quando viu a cena, desesperou-se.

 

- Que é isso! Senhor do céu...
- Cala boca dona, e dá o dinheiro!
- Que você fez... meu marido....
- Vai, fala logo, cadê a porra da grana!

 

Ela, já sem nenhum controle, chorava de maneira histérica. Sem paciência, derrubou-a no chão, chutou-a na cara – cala boca! – não adiantou. Debruçou e puxou a toalha que protegia seus longos cabelos, olhou-a nos olhos, cobriu seu rosto alvo... . O belo corpo tépido silenciou. Começou a vasculhar a casa, que não era muito grande. Foi até um dos quartos e ouviu um soluço baixinho e ininterrupto, que vinha de trás da porta. O garoto em choque escondido era pura lágrima. Pegou-o pela gola do pijama e sacudiu-o – tem grana ai filho da puta – nada, nenhuma reação diferente, só pranto. Pedro empurrou-o contra a parede, encarou-o por um momento, olhou-o de cima a baixo, afastou-se um pouco – . Empurrou a porta de volta. Apanhou todo o dinheiro que encontrou e, junto com outros objetos que acreditava ter valor, colou dentro duma mochila. A ação estava no fim, era hora de ir. Mas antes, lavou o rosto na pia, tirou a surrada roupa e vestiu um abrigo escolar azul escuro, que estava no quarto. O par de tênis também. Viu que as chaves da casa estavam na fechadura da sala. Abriu a porta, testou as chaves no portão, pôs a mochila nas costas, estava terminado.


Saiu pela rua vazia, na calma noite de junho. Chegando na esquina, algo lhe chamou a atenção. Um enxame de luzes quentes em movimento, vinha em sua direção, ficou observando. Olhou admirado para a enfeitada imagem de barro, tingida colorida, que passou na sua frente, e o enorme número de gente que a seguia. Entrou por entre as pessoas, misturando-se as devotas carolas.

 

- Oi anjinho, tudo bem.
- Oi.
- Ainda de uniforme? – Pedro apenas olhou de volta.
- Não está rezando? Com quem você veio?

 

Quieto, saiu de lado e caminhou próximo a procissão, pela beira da rua. A senhora de véu acompanhou o menino com o olhar, mas logo voltou sua atenção ao culto e prosseguiu a reza. Pedro virou na primeira esquina, foi embora. O enorme cortejo continuou seu caminho pelo bairro, seguindo seu mártir. Os lamentos continuaram sendo murmurados. Os fiéis com os corações vibrantes e cheios de fé seguiram seu destino, felizes, pois sabem que todos estão seguros, amparados pela tutela de Deus.

 

Pra ouvir download:

Ira! - Rubro Zorro  (do álbum Psicoacústica 1988)

 

Pra ver:

Video Clip: Ira! - Rubro Zorro - Baseado no filme "O bandido da luz vermelha" (Brasil, 1968) - Direção de Rogério Sganzerla

 

 

publicado por AB Poeta às 02:02
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Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Qual é o valor da educação?

Será que a educação tem preço? A educação acadêmica, essa tem, e não custa pouco. Hoje todos sabem que educar o filho numa escola do estado é uma tarefa dificílima. Descaso do governo, professores despreparados, infra-estrutura precária, algumas com merenda outras não, à distância de casa, violência, drogas lícitas e ilícitas... uma série de problemas sociais que depreciam o valor que é educar-se. Hoje não se valoriza mais o estudo em si, só tirar o diploma já ta valendo. Para nossos adolescentes, jovens, adultos jovens, o que vale mesmo é ter um calçado da moda, uma camisa descolada, uma “correntona” no pescoço, uma “caranga” potente, uma motoca, qualquer coisa que faça com que o outro enxergue nele um valor econômico (status), que mostre que ele tenha um potencial financeiro. Econômico e poder, poder e possibilidade... palavras que caminham juntas nessa distorção de valores da nossa atual sociedade capitalista.


A maioria das pessoas concordam com uma coisa: educação vem de berço, começa dentro de casa. Você pode ter dois jovens em situações financeiras bem diferentes, mas ambos bem educados; ou pode ter um pobre educado e um riquinho sem educação, ou um rico educado e um pobre não... O que conta mesmo são os valores morais ensinados pelos familiares. Meu pai me ensinou uma coisa que carrego comigo e procuro passar à frente, com muito orgulho: nunca faça um favor esperando outro em troca. Faça porque você quer fazer. Porque é bom fazer! Num mundo capitalista e interesseiro, como o nosso, esse pensamento hoje é quase que “coisa de monge”. A grande maioria faz um favor já pensando na possibilidade de pedir algo em troca. E esse ensinamento paterno que eu tive, tem um que de filosófico. Quando você faz um favor à alguém você pratica (acredito eu) uma boa ação junto ao próximo. E quando você o faz sem esperar nada em troca, nunca há a decepção da não retribuição. O primeiro passo para decepcionar-se com alguém é esperar, logo após lhe fazer um favor, que essa lhe retribua um outro. Favor e esperança podem resultar numa mistura amarga, desgosta. É preferível trata-las de forma heterogênea. (Dica de leitura: A Felicidade Desesperadamente – André Comte Sponville)


Transporte público é um lugar complicado. Hoje a intolerância das pessoas é algo visível. Ninguém tem mais paciência para nada. Qualquer esbarrão num coletivo já é motivo pra cara feia. Uma coisa que me irrita muito, são aquelas pessoas que colocam uma gigantesca mochila nas costas e ficam paradas no corredor como se fossem as únicas a habitarem a joça do ônibus! Tem uma galerinha que não tem noção nenhuma de espaço físico, de viver em coletividade. Isso é puro reflexo do padrão individualista que estamos vivendo, que estamos moldando e alimentando cada vez mais. Aconteceu uma coisa outro dia que, num primeiro momento, me deixou feliz, mas depois parei para pensar e vi que realmente os valores estão distorcidos. Estava eu dentro do bom, companheiro inseparável, e velho “bumba” (ônibus) – Pça João Mendes – dirigindo-me do trabalho para a faculdade. Sentei no melhor local que existe para se ir lendo: aquele banco de um lugar só, antes da catraca; ali ninguém me incomodaria com cotoveladas, bolsas enormes, som no último... Sentei e já saquei o livreto! Alguns pontos mais a frente subiu uma mulher puxando pela mão sua filhinha, deveria ter uns quatro ou cinco anos a menina, a mãe parou e fitou o fundo do ônibus tentando ver se havia algum lugar desocupado. Sem ter nenhum acento livre, ficou parada ao meu lado, segurando a pequenina pela mão. Eu, com o que acredito que seja o mínimo de educação, levantei e ofereci meu lugar para sentarem-se. Olhou mais uma vez a procura de uma vaga, e acabou aceitando a oferta. Fui em pé, na boa, ouvindo meu mp3 (perigo: sintoma individualista), viajando em meio aos meus devaneios psicopatológicos humanos cotidianos de sempre. E seguiu-se o destino. Chegou num determinado ponto do caminho, ela levantou-se, nitidamente havia chegado o local onde desceria, mas antes veio em minha direção e , de forma grata, disse – muito obrigada por me deixar sentar em seu lugar... olha, eu deixei sua passagem paga... muito obrigada! – fiquei meio sem entender, mas muito agradecido, falei que não era preciso e tudo mais. Logo à frente o coletivo parou e elas desceram. Agora vamos tentar entender o que aconteceu: uma mãe com sua filha sobe num ônibus e, vendo que não há lugares vagos, um rapaz sede o seu a elas. A mãe fica agradecida, e como forma de retribuir a gentileza, paga à passagem do cavalheiro. Com toda certeza ela ficou muito sensibilizada com aquele gesto, mas chegar a pagar a minha passagem... Da para perceber que gentileza, cavalheirismo e, principalmente, educação, estão virando práticas raras de se ver. Se todas as vezes que alguém agir com educação (ou com honestidade) tivermos que retribuir de maneira financeira, como se gentileza fosse um ato digno de premiação, putz, ai já era, os valores humanos foram para o brejo. Claro que aquela mulher tomou essa atitude de coração, fez por gratidão, mas ai é que mora o perigo: ela sentiu-se na obrigação de retribuir, e retribuir não é obrigação, obrigação é agir com compaixão, ser empático e, no mínimo, educado com o outro (acredito eu).


Depois disso tudo, continuei minha viagem durante a viagem, até que, eis que, surge a personagem final: o cobrador! Depois que a senhora desceu, o indivíduo olhou para mim com uma cara tipo “se deu bem nessa em”, respondi com um gesto qualquer com a cabeça e voltei minha atenção à paisagem lá fora, tomada audivelmente pela minha trilha sonora de bolso. Bem, chagava próxima a minha hora de desembarcar, então fui passar a catraca. O cobrador não olhava para mim, ou fingia que não me via, sei lá, se fez de loco... Falei para ele – por favor, passa o bilhete, a moça deixou minha passagem paga, não deixou? – ai veio o inesperado, responde ele – já sim, mas passa o seu ai, passa seu bilhete ai – caraca! Não acreditei na insinuação do cara. Ele queria se dar bem nessa! Queria ficar com os exorbitantes dois reais e trinta centavos que a mulher deixou. Ta certo que cada um tem a sua realidade, e que essa quantia tem um peso em cada bolso, mas pela cara dele... não era um necessitado, e sim um praticante inveterado da lei de Gerson.


Educar não custa caro: para educar alguém basta dar carinho, atenção, afeto, amor, dedicar tempo a esse, coisas assim, nessa linha, que não custam dinheiro, mas que também, nessa nossa sociedade capitalista, do jeitinho brasileiro, do se dar bem a qualquer custo, do ascender social, essas coisas não valem nada. Ta na hora de para pra pensar: Qual é o valor da educação?

 

"Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?"

 

 

Gerson, o "canhotinha de ouro", jogador de futebol campeão do mundo com a fantástica seleção de 70. O atleta foi garoto propaganda dos Cigarros Vila Rica (1976), onde proferia a celebre frase acima, que se tornou pilar da Lei de Gerson.

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Domingo, 25 de Janeiro de 2009

Me falta etiqueta?

 

Todos os dias, ou quase todos, me descubro do Parahyba, levanto do Probel, só de Dog, dirijo-me ao banheiro, às vezes sento na Loqasa, às vezes não nesse horário, mas quando sento, depois do serviço feito, passo o Carinhoso nas nádegas, ligo a Corona, me esfrego, parte com Dove parte com Colorama, enxáguo-me, desligo a ducha, e me emaranho na Sisa. Depois de seco, passo Dope nas axilas, Natura nos braços, com a Sorriso passo Colgate nos dentes, às vezes passo Bozano na face e retiro tudo com Gillette, e passo, logo após, O Boticário. Terminado tudo, saio. Vou para o quarto, coloco a Zorba, visto a Hering, boto a Lee, calço as Adidas, com Granado dentro, e o par de All-Star sobre. Coloco o Iron-Man no pulso e o Nokia no bolso. Dirijo-me à cozinha, tomo Pilão com Jussara requentados no Dako, como Pullman com Qualit, encho o Tupperware com Tio João e Carioquinha, e junto, coloco a mistura que estiver disponível. O que sobrou guardo na Brastemp. Depois de cheia e bem fechada, a Tupperware, coloco-a na Bagmax, junto com Crime e Castigo, jogo-a nas costas, coloco o Sony nos ouvidos e saio de casa. Vou para o ponto e pego o Mercedes, que não é mais Amélia, mas continua sendo de verdade. Chego ao trabalho, ligo o Dell, atendo o Ericson, às vezes o Motorola, vendo Bomber, Bravox, Selenium, Stetsom, Golden Cabo, American-Auto e mais um monte de outras coisas. Todos os dias, no mesmo horário, como o que estiver dentro do Tupperware, às vezes com Coca-Cola, outras com Dolly, algumas com Tang ou Frisco. Depois como um Nestlé, ou chupo uma Kids, ou tomo um Kibon. Passado uma hora, volto à rotina. Finda o dia de labor, pego o Mercedes, às vezes vou tomar uma Brahma, ou uma Skol, às vezes vou usar Olla, às vezes vou direto para casa. Chegando, esvazio a Bagmax, descalço o All-Star e as Adidas, tiro a Lee, a Hering, a Zorba, vou para o banheiro e refaço todo o procedimento matinal, saio e visto-me. Para passar o tempo às vezes ligo a LG, às vezes ligo o LG, às vezes escuto o Toshiba, às vezes toco a Eagle ou o Tagima e em dias quentes ligo o Walita para refrescar-me. Antes de dormir programo o Nokia para acordar-me no horário certo. Deito no Probel, jogo o Parahyba por sobre mim e repouso com a cabeça no Zelo. E assim vai...

 

Às vezes a rotina muda, inventam novas necessidades indispensáveis à nossa vida cotidiana e junto com essas invenções novas marcas vão sendo inclusas em minha história.

 

 

Para ler:

Eu etiqueta - Carlos Drummond de Andrade

Para ver:

A alma do negócio - Super Filmes - 1996

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Desejar o bem sem olhar a quem

Acho que todos nós aprendemos isto desde criança: nunca deseje aos outros o que você não quer que lhe aconteça. Ou, pelo menos, algo parecido com isso... Ou nessa mesma linha. Mas uma coisa é certa: o bem é algo a ser ensinado; a virtude é algo a ser ensinada. E muitas vezes quem nos ensina isso é a experiência.


Segundo psicanalistas (Jung é pai desta teoria), todos nós carregamos em nosso inconsciente um arquétipo chamado sombra, que é responsável pelos nossos atos (pensamentos) violentos e, socialmente, inaceitáveis. A sombra é o lado “primitivo” do homem, que foi gradativamente, durante todo seu processo de “evolução”, sendo reprimida no inconsciente através dum processo social de “educação” (adestramento) que sofremos durante todo o decorrer de nossa história. De vez em quando ela da às caras. Nos momentos em que explodimos numa fúria cega, é ela, nossa amiguinha, que bota lenha na fogueira. O Self, arquétipo responsável pelo “equilíbrio” do inconsciente, é quem da uma “segurada de onda”, canalizando essa violenta energia para outros arquétipos, aliviando-nos, e afundando no sub, cada vez mais, a sombra.


Somos naturalmente violentos, mas, ainda bem, que inventamos o Bem, que nunca é absoluto, mas que faz com que pensamos que há algo sublime a alcançar, e isso nos ajuda a esquecer que temos esse tipo “ruim” de natureza. Mas, tudo bem, não é para falar sobre isso que escrevi este, e sim para contar uma história que vivi e que tem tudo a ver com o título deste acima.


Amigo secreto, essa brincadeira (pé no saco) que se faz, geralmente, em final de ano, onde um grupo de pessoas escreve seus nomes em pedacinhos de papel e depois sorteiam os papelotes (no bom sentido) entre si, não participei de muitas, mas fiz parte de uma que me deu uma boa lição.


Participei duma dessas brincadeiras na época de colégio. O combinado foi que, ao invés de comprarmos presentes mais tradicionais, como roupas, discos (na época), essas coisas assim, presentear-nos-íamos com chocolate. Poderia ser em barra, caixa de bombom, etc.. Não me recordo do nome na menina que tirei no sorteio, mas lembro que beleza não era sua maior virtude... Para ela, comprei uma barra dessas grandonas, recheada com pedacinhos de amendoim. Não lembro o nome, nem marca, de tal guloseima, recordo somente que vinha numa embalagem de papel de cor amarela e tinha um nome curto escrito em vermelho. Cursava no horário vespertino, e entrava na aula próximo ás 13hs. Sai naquela tarde, visualmente corriqueira: ônibus passando, os botecos abertos, grupos de pré-adolescentes uniformizados com avental branco, seguindo em direção a instituição de ensino estatal... Tarde que era diferenciada somente por ter como data o final da brincadeira. Segui pela rua e, ao dobrar a esquina, encontrei com um amigo meu de sala (amigo próximo meu até hoje), e logo iniciamos uma conversa sobre o acontecimento que estava por vir. Perguntou-me se já havia comprado o presente para meu secreto amigo, respondi que sim, o que era, mas não revelei seu nome. Ele comentou que ainda não havia comprado seu presente, e que passaria, antes da aula, no mercadinho que ficava (ainda fica) na esquina posterior a do colégio. Fomos juntos. Chegando lá havia muitas opções de presente, o que gerou certa dúvida do que comprar. Pediu minha ajuda (opinião), e acabou decidindo por uma entre duas caixas de bombons. Uma das caixas continha um número maior de unidades, acho que trinta, ou algo perto disso, mas por isso tinha preço mais alto. A outra, a escolhida, tinha um número menor de unidades, dezesseis bombons, mas o principal atrativo, segundo meu ponto de vista, era que o preço acompanhava essa redução quantitativa.

 

Então perguntou para mim:

 

- E ai André, qual das duas você acha que devo comprar?


- A mais barata, claro! – Respondi “na lata”.

 

- Mas a outra não está tão mais cara assim. E, pela quantidade de bombons que vem na caixa, acho que o preço compensa. – Disse com visível empatia pelo amigo que seria futuramente presenteado.

 

- Tanto faz. O que importa é que você entregará o presente. E, melhor ainda, vai lhe sobrar uma grana! E o cara, esse, nem vai saber mesmo... – Respondi com total indiferença.

 

- Ah, então vai essa mesmo. – Seguimos para o colégio.

 

Chegamos à sala, todos já eufóricos para saber quem foi quem que tirou quem, quem que ganhou o que, quem ganhou o que de quem... E assim foi até a professora chegar e dar início ao final do jogo misterioso. No começo é sempre o mesmo suspense: um vai até a frente da sala e começa a descrever seu amigo secreto, até descobrirem quem é, e nesse espaço de tempo todo mundo fica, é fulano, é cicrano... E, quase nunca, ninguém acerta. Chegou à vez desse meu amigo, e minha ansiedade aumentou, pois como eu instantes antes havia ajudado a decidir na escolha do presente, queria saber quem era o indivíduo a ser contemplado. Ele começou a descrevê-lo, dando risada. Ai a classe ria junto, e eu ria junto com a classe. Descrevia... Dava risada... A classe ria... E eu, ria junto com a classe... Com a caixa na mão, chegada à hora de falar o nome do agraciado, olhou para mim e riu...
Adivinhem quem ele tirou!

 


 

Downloads:

 

IRA! - XV Anos

 

Álbum completo:

 

IRA! - Vivendo e não aprendendo

 

Para ler:

 

André Comte-Sponville - O pequeno tratado das grandes virtudes

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Terça-feira, 16 de Dezembro de 2008

O Dia Que Tancredo Morreu

Foi em 1985, eu estava na quarta ou quinta série, nem lembro direito, mas me recordo perfeitamente o dia em que Tancredo morreu.


O Brasil, depois de passar vinte anos vivendo num regime ditatorial, e esse é considerado o período mais negro de toda a nossa história, o Colégio Eleitoral elegia presidente da república, numa votação mais do que histórica, já que foi aberta (cada integrante dirigia-se até um microfone e falava seu voto) e transmitida por, praticamente, todos os veículos de comunicação, o Sr. Tancredo de Almeida Neves, candidato do PMDB, que no embate político derrotou o biônico, e amiguinho dos militares, o Sr. Paulo Maluf, com 480 votos contra 180 desse último, e teve 26 abstenções (é, teve cara que num momento histórico dessa magnitude ficou calado! 26 bundões omissos!).


Na época não fazia idéia do que estava acontecendo, do momento que o país passava. Num muro dum ferro-velho, que ficava de frente a rua que eu moro (moro no mesmo lugar até hoje), havia pichado a frase “Diretas Já!”, lia-a mas não sabia do que se tratava tais palavras. Lembro de alguns detalhes da vida escolar que eram provenientes da influência dos militares. Todos os dias na escola tínhamos que traçar na página do caderno, de cima para baixo, da direita para a esquerda, dois riscos com lápis de cor, um verde outro amarelo, depois de fazer o cabeçalho com o nome da escola, local, data... Na entrada, na hora de formar as filas para que fossemos conduzidos, ordenadamente, as respectivas salas de aula, tínhamos que esticar o braço e encostar a mão no ombro do amigo da frente, isso determinava a distância que cada um deveria ficar do outro. Na educação física, na hora do professor fazer a chamada, formávamos quatro colunas, todos de uniforme branco, ficávamos com as mãos atrás do corpo, uma mão segurando o punho da outra, e com os pés naturalmente afastados. Essas duas posturas corporais são militares. Descobri isso, ou melhor, liguei o nome à pessoa, quando servi ao exército (obrigatoriamente) em 1994, no 2º Batalhão de Polícia do Exército (quando ainda era na Abílio Soares). Fora hastear a bandeira cantando o hino nacional, isso já era clichê. No quartel tínhamos que saber, na ponta da língua, todo o hino nacional. Tarefa difícil. Um dos tenentes dizia indignado “como pode, vocês saberem Faroeste Caboclo inteira, sem errar uma vírgula, e não decorarem o hino nacional! Bando de mocorongos!”.


Na escola, numa das vezes que ficamos sem professora na sala, aproveitamos da situação para fazer a boa e velha algazarra, como os alunos do primeiro grau geralmente fazem. O contingente da sala deveria ser entre trinta e cinco, quarenta alunos, não lembro exato. A porta da sala ficava no canto frontal direito. De repente a professora, uma mulher magra, rosto chupado com nariz fininho, lábios insossos, olhos furiosos, cabelos curtos, meio alaranjados, meio amarelados, nitidamente tingidos na tentativa de esconder o tempo, rompe aos berros, “parem já com esta anarquia!”... Era a primeira vez que ouvia a palavra anarquia. Nem sabia o seu significado. Mas associando essa nova palavra à situação, boa coisa ela não poderia significar.


Outra coisa bem interessante da época era uma propaganda que a TVS (hoje SBT) exibia. Sempre aos domingos, nos intervalos do programa do Silvio Santos, era exibido “A semana do presidente”, onde mostrava as atividades cotidianas do presidente militar em exercício. Era uma nítida puxada de saco, para tentar obter favores de concessão, já que os Marinhos sempre foram mais próximos dos generais verdejantes, e levaram muito mais vantagem do que os Abravanel, no campo das telecomunicações.


Voltando ao fatídico dia, tudo estava aparentemente normal. Os preparativos corriqueiros seguiam, tinha tomado café-da-manhã, e minha mãe ouvia um programa matinal de rádio, onde o locutor todo dia dizia “olha hora, olha hora. Acorda ele Dna. Maria. Joga água!”, e sonoplasticamente seguia-se o som de água espirrando. Coloquei o avental do colégio, branco com um passarinho desenhado no bolso superior esquerdo. Peguei minha mochila, sai pela porta da cozinha e segui pelo corredor. Passei pelo portão que vem antes da garagem, atravesei-a, saquei as chaves do bolso, e fui para abrir o portão principal, o que dá acesso à rua. Estava uma manhã ensolarada, lembro-me das sombras das barras do portão esparramadas pelo chão do quintal, provocadas pelos quentes e suaves raios solares. Quando fui abrir o portão ouvi um voz me chamando, “andré, andré”, olhei para o lado direito da rua e vi minha vizinha, que voltava do colégio. Ela veio em minha direção e disse:

 

- André, hoje não vai ter aula.

 

- Não? Por quê? - Perguntei espantado. Não via motivo para tal.

 

- O Tancredo Neves morreu! – Respondeu num tom seco.

 

Parei de frente ao portão, pensando na trágica e fúnebre afirmação que a menina acabara de proferir... E como todo bom garoto do primeiro grau, alienado politicamente, bradei:

 

EBAAA! HOJE NÃO TEM AULA!

 

 


Regime Militar - 1964/85

 

Revolucion Download's:

 

Zuenir Ventura

1968 - O ano que não terminou

Vozes do Golpe - Um Voluntário da Pátria

 

Karl Marx - O Manifesto do Partido Comunista

Zelia Gattai - Anarquistas Graças a Deus

Carlos Marighella - Manual de Guerilha 

Jean-Jaques Rousseau - O Contrato Social

George Orwell - 1984

 

Platão

A República Vol I

A República Vol II

 

Texto: Ser Governado - Pierre-Joseph Proudhon

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Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

Painéis

Estes são alguns painéis espalhados pelo centro da cidade de São Paulo. Fiz este post pelo seguinte motivo: é muito difícil encontrar informações na internet sobre esse tipo de arte. Inclusive se você procurar por "painel" aparece milhares de tipos de painéis, menos estes. Se confunde muito painel com mural, mural com mosaico... Bem,  abaixo tem alguns painéis, mas não tenho todas as informações sobre eles, então, se alguém tiver mais informações, por favor, deixe no comentário.

 

 

Obra de: Tomie Ohtake

Local: Av. Xavier de Toledo, 161 - Edifício Santa Mônica - Estação Anhangabaú do Metrô.

 

Local: Rua Líbero Badaró, 646 (Lgo. São Bento) - Edifício Galeria e Condomínio São Bento.

 

Local: Av. Cásper Líbero, 115 - Shelton Inn Hotel.

 

 


Local: Av. Líbero Badaró, 613 - Edifício Santa Lucia.

 

Isso um dia foi um painel. Dei até um título a essa obra: Capitalismo Vs. Arte.

Local: Av. Líbero Badaró, 477 - Agência do Banco Itaú.

 

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Garoto de futuro

 

Garoto com talento, que mantém garoto com talento, que mantém garoto com talento, que mant...

 

Não tenho muito o que falar, acho que a imagem já diz muito.

 

 

Nova tentativa...

 

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publicado por AB Poeta às 20:37
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Carta de despedida

Boa tarde a todos! 

 

Como é do conhecimento da maioria das pessoas dai, deixei de fazer parte do quadro de funcionários da empresa. Quero agradecer a todos por terem me ajudado durante o período em que fiz parte dessa grande família.
Desculpem-me se fui rude, grosso, briguento ou qualquer outra coisa do tipo. Sou assim mesmo, visceral! Visto a camisa do time em que estou jogando. Se alguma coisa atrapalha o andamento do meu trabalho, e o meu (nosso) trabalho é o que dá Vida a empresa, ai meu amigo, é melhor sair da frente. Ou você tem um ótimo discurso fudamentado e muito bem argumentado, ou... Não me atrapalhe! Pareço um pouco arrogante, mas se pararmos para pensar, não é o sistema, os métodos, os procedimentos, as máquinas que fazem com que a empresa ande, são as pessoas. O material humano (no maior sentido que a palavra humano possa ter). O intelecto. Um basta à burocracia . Viva o dinamismo, a agilidade! A empresa é somente: um nome que possui um número (CNPJ), que é reconhecido por toda a sociedade, perante a um contrato, e que tem uma localidade, vende produtos ou serviços, ou muitas vezes os dois, mas que sem as pessoas, esse ser chamado empresa, que foi inventado, não dá um passo a frente. Alias, não se move um fio de cabelo que seja!
Valeu pessoal da expedição! Flávio, que no começo ficou meio receoso para me contratar, mas graças ao Pedro e o Charles, que me avaliaram quando fiz o teste para embalador, e convenceram-no, as coisas (impressões) tomaram um rumo bem diferente. Obrigado Flávio pela confiança. Aos outros lideres, Lorival, Marques, David, Ronni, valeu pela força. O pessoal da antiga, Fabão, Baiano, Nivaldo, Zé Antonio, U2, Ronaldinho, Johannes (acho que é assim que se escreve) Geir, André (Príncipe), Jefferson, Hildebrando, Tião, Marcelino, Rafael, Mingalzinho, e mais outros que não me lembro agora, muito obrigado mesmo. Pessoal da garantia, Rose, Raimundo, Raimunda, Rinaldo, Leandro, o pessoal novo que está ai, mas não lembro o nome também, (os outros eu já citei) muito obrigado.
Cida, muito obrigado, você foi (é) uma pessoa que me ajudou muito ai dentro, acreditou muito no meu trabalho. Particularmente, você acreditou mais em mim do que eu mesmo. Sou muito grato!
Ao pessoal da cobrança (na época), Cris, Fabio, Luciana, Paulo, Oto, que me incentivaram todo o tempo em que estive trabalhando por lá.
Valeu todo o pessoal de Compras, SAC, Financeiro (ai Dudu tranqueira!), Política Comercial, Informática, Contabilidade, RH, muito obrigado a todos por me aturarem, porque, realmente, eu pesava na de vocês atrás de respostas para as minhas inquietudes profissionais.
Obrigado Cinthya, você também me ajudou muito.
As meninas do Restaurante, Marli, Solange, Mazé, Cida, Lurdes, o brigado pelo modo gentil e atencioso com que vocês me tratavam.
Pessoal da Exportação muito obrigado por me incentivarem a criar, a porem lenha nas minhas idéias. Maria José, Aline, Vannn, vocês são mulheres maravilhosas! Seu Jairo muito obrigado pela força (o Sr. também não é nada bobo, cercado de mulheres lindas!).
Obrigado Netto pela oportunidade na área comercial, Eduardo, Donizette, valeu, aprendi muito com vocês. Marilda, Viviane obrigado pelo carinho e atenção.
Galera do dominó, graças a vocês hoje eu me considero um atleta, e de peso, valeu!
Marcelo Molinari, Seu Jairo, Ronaldinho, Cristiano, Fabio Junio, Mauricio, Gerlucio, este ano o Peixe é TRI!!!!!
Oswaldinho e Davi, “demorô” para banda de vocês detonar! É só uma questão de tempo, e não a nada que ele não construa! Putz, lembra quando montamos a banda, eu vocês e a Raí... Então, a empresa não sabe a festa que perdeu.
Aos PCUenses, está no estatuto que demissão também é motivo para comemorar. Então Excelentíssimo Senhor Presidente Paulo, logo agendaremos uma caixinha. Valeu Paulão, acho que só de ter organizado o PCU, você já tem um lugar no Céu. E com OpenBar!
Edna, Idamar e Wagnão, muito obrigado, principalmente pelas risadas. Acho que a digitação é o dpto mais bem humorado da empresa. Pelo menos pra mim.
Pessoal de Ferragens (bando de tranqueiras) Milena, Cleiton (vulgo Cleitóris), Solange Maria, Janaina, Katita, Vanessão, Dani, Fabio Dábliu (W), Marcelo, O cara novo (não lembro o nome, pra variar), Jeremias, Solange Marchiotti, Mauricio, Angelica, Flávia, Paulo Galan, muito obrigado a todos pelos incentivos e, principalmente, por rirem das minhas piadas, estórias, histórias e mais um monte de maluquices que saíram da minha cabeça. Inclusive, tem um ditado que diz: Perco o amigo, mas não perco a piada. Acho que hoje ele foi reescrito: Perco o emprego, mas não perco a idéia! Sei que todos vocês sentirão saudades da minha torta, mas não fiquem tristes, mando uma de presente, para recordar os bons tempos. Valeu Willian, foi um ótimo aprendizado ter trabalho com você. Valeu pelas conversas sobre profissão, mercado, administração, sociologia, logística, marketing e mais uma infinidade de assuntos. Só as pessoas informadas estão à frente do tempo, parabéns você é um excelente profissional.
Muito obrigado aos meus companheiros (camaradas) amados do departamento, que aturaram a minha pessoa, minhas piadas, meus xingamentos, minhas crises nervosas e que adoravam a minha torta. E principalmente a de carne.
Valeu Nelsão pelos papos-furados, esses são os melhores de serem conversados. Você é um cara muito gente boa, não vale nada, mas é gente boa, continue assim.
Papito! O melhor vendedor da empresa! Roeu um osso “du inferno” no começo, mas no decorrer do tempo você mostrou o vendedor que é! Não tenho dúvida, da empresa você é o melhor. Depois de conhecê-lo passei até a acreditar que existe Uruguayo gente-fina. Fabiola.... (um suspiro) Ai ai... (Mais uma vez) Fabiola... A menina doce... Você é uma mulher inteligentíssima, uma profissional excelente e que sabe o que quer. Você não amarela diante de desafios, parabéns! Sentirei muitas saudades desse seu sorriso... Thatiana e Vanessa, trabalhamos pouco tempo juntos, mas foi muito bom, ri muito! Vocês estão chegando agora, mas não desanimem, tudo vai dar certo!
Leandro, sei que mudou de área, mas afinal, o tempo no dpto de vendas ainda é maior. Você é um cara extremante inteligente, uma excelente pessoa, alias, nunca conheci nenhum economista tão bom em língua portuguesa quanto você! Parabéns!
Saio daí sem medo e levando comigo a experiência, a gratidão e a amizade. Se esqueci de alguém, me desculpe, afinal foram cinco anos e quatro meses de empresa, e em diversas áreas. Vi muita gente passar...

 

10/04/08

 

...Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobra-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

 

Trecho de “O operário em construção” – Vinícius de Moraes

 

Clique e leia na integra.

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publicado por AB Poeta às 20:26
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Ligadas pelo desejo (de consumo)

Coisa. Para mim a (ou o) Coisa sempre foi um super-herói, aquele, dos Quatro Fantásticos. Pelo menos era esse o nome deles, quando eu era criança. Hoje, acho, que os Quatro viraram Quarteto. E herói sempre foi para mim uma referência: Pai Herói, a novela da Rede Globo. André Cajarana, era o nome da personagem interpretada por Tony Ramos, que, segundo meus pais, foi a fonte de inspiração para a origem do meu nome. É ai que a coisa começa a ficar estranha. Bem, segundo os meus registros, nasci em São Paulo, bairro da Aclimação, no sexto dia do primeiro mês do ano de mil novecentos e setenta e cinco (século passado). A novela referida foi ao ar no ano de mil novecentos e setenta e nove! Nove? Isso mesmo, nove (Nº 9; para não ter dúvida). Caso meus pais não possuam uma máquina de viajar no tempo, não sei como explicar esse desencontro de datas. O pior é que nem eles sabem o por que desse desencontro. Talvez o tal Cajarana tenha provocado algum impacto na vida deles dois, sei lá... Também, mais de trinta anos vendo novelas é normal que já não saibam o que vem antes do que. Por falar em novela, faz tempo que não acompanho nada na televisão. Principalmente as novelas. Todas iguais.


Vendo TV outro dia, me chamou atenção uma reportagem sobre uma cantora brasileira radicada em Cuba, que não lembro o nome agora (e nem depois também), mas lembro que ela falava sobre música cubana, mostrou um DVD e fez um comentário. Quis adquiri-lo na hora, pois já tinha visto aquele num Sebo aqui próximo. Sabe come é, estou desempregado, tempo ocioso é farto (dinheiro + ócio = consumo), corri para loja. Procurei, mas não estava mais lá. Alguém já havia comprado. Mas ai, sabe como é, a besta-fera do consumo entra em cena! Não tinha o que eu queria, mas havia vários outros que eu queria, mas não sabia que estavam lá. O que era para ser uma compra de, no máximo, doze reais, virou uma de quarenta e cinco. Dois DVDs e dois livros. Cultura nunca é demais, segundo meu senso moral. Sem problemas também, logo estarei empregado, esse dinheiro não vai fazer falta agora.


Produto adquirido, mesmo não sendo o desejado, volto ansioso para ver algum dos filmes. Durante essa volta uma imagem me chamou atenção: um senhor, desses que aprendemos a chamar de catador-de-papelão, com roupas humildes, chinelos velhos e óculos escuros da... Coco Chanel!? Tudo bem, é falsificado, mas e daí! A sensação de beleza, importância, de fazer parte de algo não era falsa, era bem real. Quem diria em Gabrielle, que sua criação um dia estaria no rosto de um trabalhador negro como as lentes, de um dito país subdesenvolvido. A pirataria é a redemocratização da cultura, pois falso é o produto em si, não o sentimento com relação a ele, ou que ele proporciona.


Realidade. A realidade é só um recorte. Nem lembrava mais como a rua era movimentada assim. Também, só passava por aqui pela manhã, para chegar ao trabalho. Será que todo esse povo mora aqui? Ou só trabalham aqui? Ou estão passeando aqui? Eu moro, eles, não sei. Quantos ônibus lotados. Não sei se existe, na língua portuguesa, o coletivo de solidão, mas uma definição contemporânea de coletivo para esse substantivo seria: transporte público. Fico imaginando, milhões de pessoas indo e vindo, sem trocarem uma palavra! Quantos pensamentos passam por essas cabeças. Quantos sonhos, desejos, etc... Parecem zumbis; são apenas corpos, a mente, essa, ta longe... O Coletivo é uma espécie de mosaico de realidades, cada um com a sua. Arthur tem razão, a existência em si é um tédio, um vazio (chega logo ao seu destino ônibus...). Esse vazio justifica um outro pensamento filosófico (só não lembro o autor) que diz: o homem é o único animal que nega ser o que é; pretensiosamente completo: o homem é o único animal que nega ser o que é, e que só se reconhece no consumo, sua maior característica; anda, se alimenta, fala, pensa, etc., mas o que realmente o diferencia, até dos da mesma espécie, é o consumo, e é nesse último que ele se realiza.


A realidade não é em si a matéria, o trabalho e nem o outro, são as sensações que deles provem, entendida de forma subjetiva; como os padrões e entendimentos sociais se renovam, a realidade também é renovável. Como já dizia aquela letra do Raul: “que o mel é doce, é coisa que me nego afirmar, mas que parece doce, isso eu afirmo plenamente”.
Chega de observações do mundo exterior, vou ao que interessa, ver um dos filmes. O Escolhido foi um que mostra a vida do artista plástico estadunidense Jackson Pollock. O outro é um filme chamado Amnésia, muito interessante, mas como já havia visto, esse fica para outro dia.


Terminado o filme, vem a ansiedade. A ânsia de falá-lo a alguém é grande... Enquanto não encontro ninguém, fico com a angustia de ter consumido algo, mas como ninguém ainda esta sabendo disso, não considero ainda o consumo consumado.

 

 

Para entender melhor, algumas definições definidas por mim:

 

Desempregado: Estigma ruim; classificação dada à pessoa que não tem emprego.

Empregado: Estigma do Bem; classificação dada à pessoa que tem uma ocupação com registro em carteira de trabalho, e que dedica todo seu tempo à ascensão de outra da mesma espécie.
Catador-de-papelão: Estigma; classificação dada ao trabalhador que coleta materiais recicláveis pelas ruas, praças, avenidas, etc; filantropia.
Gabrielle Bonheur “Coco” Chanel (1883 – 1971), idealizadora.

Trabalhador: Estigma bom; classificação dada à pessoa que aplica sua ação (força) em algo, a fim de obter algum retorno financeiro; ocupação sem registro em carteira de trabalho; autônomo.
Pirataria: Ato de copiar e comercializar algum produto sem autorização de seus idealizadores; tendência neoliberal.
Redemocratização da cultura:Segundo Walter Benjamin e Siegfreid Kracauer (pensadores da escola de Frankfurt) as sociedades capitalistas avançadas criaram, sem querer, condições para uma democratização da cultura (processo de industrialização da cultura). A pirataria surge como renovação desse processo, pois mesmo com a cultura industrializada muitos ainda não tem acesso; acesso esse que é proporcionado através da pirataria.
Arthur Schopenhauer (1788 – 1860).
Faça, fuce, force– Raul Seixas.
Raul dos Santos Seixas (1945 – 1989).
Pollock(EUA, 2002).
Amnésia(EUA, 2000).

 

11/06/08 

 

Texto acadêmico que fala sobre reificação, fetichismo, realidade, hiper-realidade, alienação e outras cositas filosóficas mas.
 

Baixe para ler:

O vazio da existência - Arthur Schopenhauer

Filosofando. Introdução à filosofia - Maria Lucia de Arruda Aranha

 

Para ouvir:

Raul Seixas - Faça, Force, Fuce

publicado por AB Poeta às 18:49
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Entrevista - Manoel

São nove horas da manhã do dia vinte do quinto mês, dirijo-me até sua residência, conforme havíamos combinado no dia anterior, por telefone, eu poderia a qualquer hora entrevistá-lo. Preferi pela manhã, pois sabia que estava trabalhando em mais uma obra - sua obra - então nada mais justo do que não incomodá-lo muito e realizar logo este trabalho.
Manoel, um senhor de sessenta e cinco anos, casado, quatro filhos, um neto e em plena atividade profissional. Fui recebido em sua casa, que me mostrou com orgulho, pois trabalhava em sua mais nova obra: O Sobrado; os tetos dos seis cômodos estavam no chão, e logo receberão uma laje e mais cômodos sobre ela, e, quem sabe, mais uma laje. Um sobradinho de três lugares, no fundo da casa, acomoda a família, que atualmente são em quatro. A filha casada mudou-se para Salvador, por motivos profissionais do marido, e levou junto o irmão mais novo, recém saído da faculdade, e que estava desempregado. Os dois, irmão e marido, trabalham na mesma empresa, que é do ramo das telecomunicações.
Aos dezoito anos, em 1961, Manoel desembarca em São Paulo, vindo de Pernambuco, numa cansativa viagem de ônibus que durou onze dias. Um comentário seu dá uma idéia do que foi essa “odisséia”: “...só vim conhecer asfalto em São Paulo. Antes, estrada, só de terra”. Em sua terra natal trabalhava na roça, com a família, como a maioria dos migrantes. Chegou sem emprego, com a cara e a coragem saiu em busca, já que estava na “terra das oportunidades”. Seu primeiro emprego formal foi numa construtora civil (o que explica sua atual função), onde ficou por três anos. Trabalhou em mais duas construtoras, numa por dez meses e noutra por três. Não disse o motivo de sua saída, de nenhuma delas.

Iniciou a vida acadêmica em Pernambuco, mas veio terminar, o que chama de “primário antigo” (que, na época, durava quatro anos), em São Paulo, pelo SESI (Serviço Social da Industria), em 1965/66. Em 1967 trabalhou na prefeitura de São Paulo como segurança, mas, nessa época já com três filhas, o baixo salário o fez desistir do funcionalismo público; ”...não sobrava dinheiro para nada. Nem pra uma camisa. Ou cumia ou vistia.”, disse. Mesmo assim ficou nesse emprego até 1976. Ao sair, quando entregou sua carta de demissão, ninguém acreditou, disseram-no que estava ficando “louco”. Mesmo assim foi firme em sua decisão.

O funcionalismo público, no Brasil, sempre foi visto com “bons olhos” (acho que o mais cabível seria “olhos grandes”), já que ninguém nunca é demitido; situação que é muito cômoda.

Sem emprego, e já com mais um filho a caminho, abriu uma empresa – 1977 - tendo o cunhado como sócio. Trabalhavam no ramo da construção civil, mas não deu muito certo. Três anos depois a empresa foi fechada. Partiu então para a vida autônoma, junto com irmão. Começaram a trabalhar como “pedreiro” (nome dado ao trabalhador da construção civil), oferecendo seus serviços a pessoas conhecidas, o que deu mais que certo! Não tinha uma região especifica de trabalho, aceitava todos que dessem um bom retorno financeiro. Até em outra cidade, caso fosse rentável. O que mais me chamou a atenção foi a resposta dada quando questionado sobre a capitação dos clientes (sempre pessoa física): “...nunca bati em nenhuma porta. Sempre fui procurado pelas pessoas.”. Realmente a melhor publicidade ainda é o “boca-a-boca”.

Sua média salarial depende muito da quantidade e do “tamanho” do serviço que aparece, mas mesmo assim disse que é entre um a dois mil reais/mês.

Sempre trabalhou da seguinte forma: vai até o local e faz uma avaliação, dá o preço da mão-de-obra e um prazo mais ou menos de quando fica pronto, pois sempre há imprevistos, tipo: o tempo (chuvas), quando o material acaba, etc... Sempre indica os fornecedores, mas a escolha final fica a cargo do contratante. Nunca foi assediado por nenhum fornecedor, os indicados por ele são conhecidos de muito tempo.

A concorrência também é muito grande nesse segmento. Muitas vezes é questionado o “por que” do preço, e ainda tem que ouvir que “fulano de tal” faz mais barato. Não se incomoda muito, muitas vezes acaba sendo o contratado, por já ter uma certa notoriedade. Isso gera confiança.

Hoje, está aposentado, pagou o INSS (Instituto Nacional de Seguro Social) por conta própria , e recebe em torno de dois salários mínimos/mês. Com a aposentadoria garantida, e todos os filhos formados e empregados, não “pega” muitos serviços como antes. Inclusive dispensou muitos por causa da construção que está realizando em sua casa.

Perguntei se estava satisfeito, respondeu com um sorriso leve e de maneira modesta: “é... da pra levar”. Terminei a entrevista, que durou cerca de meia hora, e ouvi um “já!” que saiu com certo espanto. Talvez ele tenha gostado de olhar para traz e ver a construção de sua história. Mas há verdade era que eu não queria mais incomodar um “artista” ansioso em ver a sua grande obra concluída.

 

* Entrevista realizada para fins acadêmicos em 20/05/08. A finalidade desse trabalho era traçar um perfil socio-econômico dos trabalhadores informais, nesse caso, os da construção civil, mais conhecidos como "pedreiros".

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publicado por AB Poeta às 18:23
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