Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Estorinha

 

o verbo

o déspota

o filósofo

o mártir

o rei

o desbravador

o burguês

o clérigo

o amor

o alienado

o intelectual

o sonho...

 

a utopia criou ideais e

em seu nome

mataram pessoas

 

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Domingo, 23 de Agosto de 2009

A história do Homem de Nada

Quando tudo era nada e a existência se resumia na solidão divina, um conceptivo sopro rompeu o tédio, ressoando em criação, transformando o silêncio em verbo a escuridão em luz e o nada em tudo.


Dentre todas as galáxias originadas há uma um tanto diferente, é a galáxia de nada. Nesse pedacinho de universo de nada existe um astro de nada especial, o planeta de nada. Esse planeta de nada, que também é chamado de mundo de nada, é divido geopoliticamente em continentes, países, estados, cidades, bairros... Todos de nada. E é num desses locais de nada que nasceu a personagem dessa história de nada: o Homem de Nada.

 

Era uma vez o Homem de Nada. O Homem de Nada nasceu num hospital que não tinha nome relevante e ficava num bairro que ninguém nunca ouviu falar, de uma cidade desconhecida, situada num estado de peso econômico que não vale a pena ser citado. O horário ninguém sabia qual era, pois os relógios não marcavam tempo algum. Era um dia de nada de um mês sem comemorações, nenhuma data especial. O Homem de Nada foi abandonado antes de completar vinte e quatro horas de nada de nascido, mas logo foi acolhido por uma família riquíssima de nada, a família de Nada, que foi onde ele recebeu o nobre sobrenome.


Sua interiorana infância de nada foi maravilhosa. Cresceu cercado de livros cheios de estórias e conhecimentos de nada. Quando entrou no colégio de nada, já sabia ler muitas coisas de nada, o que o fez ser o primeiro aluno de nada da classe de nada. A professora de nada vivia lhe fazendo desimportantes perguntas:


- Senhor de Nada.


- Sim professora de nada.


- Me responda: quem descobriu nosso país de nada? – Sem pensar em nada o pequeno menino de nada respondeu.


- Ninguém professora!


- Muito bem! Está vendo classe de nada, vocês tem que ser de nada assim também! – O pequeno de nada abriu um sorriso brilhoso de orelha a orelha espalhando pela sala seu majestoso feliz semblante de nada.


Na adolescência as meninas de nada o adoravam pela sua inteligência de nada, o que o ajudou a ter algumas namoradas de nada. Prestou o vestibular de nada para Ciências de Nada na Faculdade Federal de Nada e foi aprovado em primeiro lugar de nada, o que o fez mudar da pequena cidadezinha de nada e partir para a grande megalópole, a capital de nada. Morou, junto com outros alunos de nada, numa república estudantil de nada onde, entre festas e estudos de nada, passou agitados dias de nada, memoráveis. Ainda cursando nada conseguiu um estagio de nada numa das maiores multinacionais de nada, a Indústria Nothing S/A. Determinado como era na vida acadêmica de nada, assim também foi no trabalho de nada e logo efetivou-se, e em sua carreira profissional de nada galgou muitos cargos de nada. Ascendeu ao nada muito rápido. Através de uma de suas amizades de nada, conheceu uma garota maravilhosa de nada, a Garota de Nada. Logo começaram um namoro de nada, que resultou em um casamento de nada. Quando terminaram a faculdade de nada (a Garota de Nada cursava Psicologia de Nada na Uninada, e diplomaram-se no mesmo ano de nada) mudaram-se para o interior de nada, queriam que seus futuros filhos de nada, que logo vieram em escadinha (Menina de Nada, Menino de Nada e Caçula de Nada), fossem criados longe da violência de nada que na grande cidade de nada tinha com fartura. Abriram um comercio de nada, que gradativamente prosperou. Suas crias de nada logo cresceram e seguiram os mesmos passos de nada do pai de nada, e foram estudar nada em outra cidade de nada numa das melhores instituições acadêmicas de nada. O casal de nada envelhecera sem perceber, e quando menos esperavam já eram avós de nada: nos finais de semana de nada os sete netos de nada enchiam a casa de nada de alegria nenhuma. Era uma grande felicidade de nada. Num dia de nada o Homem de nada, já aposentado de nada, acordou bem cedo e foi até a banca de nada comprar a Gazeta de Nada, voltou para casa de nada encheu sua canequinha de nada preferida com café de nada puro, sintonizou na Rádio de Nada que tocava suas modas de nada que tanto adorava, sentou-se como nunca na cadeira de balanço de nada, abriu o jornal de nada e morreu...


A família de nada juntou-se para o velório de nada no velho casarão de nada. Praticamente todos os moradores de nada da cidadezinha de nada seguiram pelas ruas de nada, cadenciados ao som do bumbo de nada, o florido cortejo de nada. Por fim, o defunto de nada foi sepultado.

 

Até hoje nessa cidadezinha de nada quem vai ao cemitério de nada e escuta o coveiro de nada contar essa história de nada, impressionasse, e fica mais curioso de nada quando lê o epitáfio de nada esculpido no marmoroso jazigo de nada: “Aqui jaz o Homem de Nada: um ser humano que representou tudo o que alguém pode ser na vida.”

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publicado por AB Poeta às 20:28
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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009

Sábios pensamentos

“Tem coisas que são tão eternas que parecem que nunca vão acabar...”


“A dentadura é a peruca da boca.”


“Dobrar a esquina é a maior forma de provar que você é forte!”


“A privada é uma ilusão, não creia nela.”


“Darwin desenvolveu a ‘Teoria da Evolução das Espécies’ onde diz que o mais forte sobrevive na cadeia evolutiva. Os políticos, para provarem o contrário, criaram o nepotismo.”


“Nem tudo que reluz é luz.”

 

"Se todos fossem vencedores, não haveriam perdores. Da cara de quem que iriamos rir então?"


Autor: Arquétipo desconhecido

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Domingo, 28 de Junho de 2009

Aos meus anjos dourados

Perdido num vale escuro
Onde o que se olha é miragem
“O que será que há após o muro?”
Pois dali só via sombra, não imagem


Desencorajado e acorrentado
Levantar e ir além já não podia
Mas os anjos, vendo o pobre coitado
Aos ouvidos lhe sopravam:
“Desespera a alegria”


Contaminado de euforia
Saiu em busca do saber
No caminho, conheceu Filosofia
E ao invés de olhar, aprendeu a ver


Viu que seu trabalho era alienado
Sua farra, Dionisíaca
O tempo: inventado
Mas algo estava errado!
E o amor que ele sentia?


Desconsolado, sentou-se e escreveu:
“Anjo, o que faço com o amor meu?”
Sem demora, em resposta recebeu:
“Emprega-o todo, em algo teu!”


Encorajado, ao anjo obedeceu
Passou a escrever noite e dia
Para atingir a maestria
Bebeu, fartou-se, em fontes a reveria

Agora sabia o que queria!


Seguiu errante pela escrita
Devorou tudo que lhe apareceu
E em seu árduo caminho logo conheceu
A doce e amante Poesia
Que em seus braços o acolheu...


Hoje ele escreve aos montes
Tudo lhe inspira: mares
Lugares, olhares, Mulheres
Quer ir além dos horizontes.

 

Toda essa história aconteceu
Graças ao incentivo dado
Por um anjo dourado
E grato lhe digo: obrigado!


Cavalheiro que sou
Agradeço também a outro anjo
Que aqui pousou
E rápido me encantou


Sem ser exagerado
Sei que de vocês a beleza emana
Muito obrigado, meus anjos alados
De cachos dourados
Taísa e Tatiana.

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publicado por AB Poeta às 05:50
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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

O teatro e a vida

"nós somos muito mais o que os outros acham que somos, do que aquilo que pensamos ser" 

Bruna Nehring

 

Dizem que a vida imita a arte... ou é a arte que imita a vida? Dizem... Ou será que vida e arte são coisas que se completam, contemplam-se e fundem-se, paralelas que passam a infinidade se cruzando, imitando-se? Vida, arte e teatro: sinônimos, não legalizados pela burocrática língua.

 

Acordo Eu, levanto filho, embarco passageiro, caminho transeunte, atravesso na faixa, sigo colaborador, atento estudante, pai, amigo, irmão, namorado, ator social que protagoniza e coadjuva ao mesmo tempo diversos papéis ao lado duma infinidade de outros. Genuflexório mudo atento me faz cristão. No carnaval, desfilando entre outros tantos outros, sou pierrô pagão. Tributo pago no balcão, duplicata em caixa, sou cidadão. Jungnianas personas que eclodem em meio a pensativos monólogos shakespearianos, sou pessoa, sou-me. Frente ao machadiano espelho, só, sou ninguém. Nada. Meu teatro é a vida encenada sem ensaio, sem roteiro, sem frases prontas e, pior, sem deixas, sem saber a hora certa de entrar em cena. Subjetivado réu, frente à platéia social, sou muitos, entre culpado e inocente.

 

O teatro é o oxigênio. É o oxigênio contido na água. É o oxigênio contido na água contida no aquário. É o oxigênio contido na água contida no aquário onde vive o peixe, que é dourado. É o oxigênio da água que mantém o dourado peixe vivo. O peixe vivo que vive no seu aquário-palco uma representação de ser: ser peixe dourado de estimação. O estimado peixe-ator, que desfila dourado em seu palco-aquário, repleto de pedrinhas coloridas e outros objetos de cena, representando para outro ser, enche de alegria e sentido a tola existência tediosa cotidiana de seu dono-platéia. Cercado de água contida de oxigênio-teatro, respira, alimenta-se, vive e representa o peixe-ator, dando sentido a feliz razão de ser ao seu dono-platéia, contemplando-o, com a arte de ser dourado.

 

O teatro é a mentira ensaiada. É a mentira que não fere. É a mentira gostosa de se ver e viver. E viver uma mentira que se gosta é viver uma verdade. O teatro é a verdade, que não passa de uma mentira ensaiada. Mentira que não fere. Que é gostosa de se ver e viver, porque ver e viver a verdade é bom, faz bem.


O teatro-vida é complicado. O choro sem ensaio dói. É um choro que punge verdadeiro, e que às vezes torcemos para que essa verdade seja uma mentira ensaiada. A mentira sem ensaio dói, fere. No teatro-vida, os aplausos são minguados, há mais apupos que tudo, decorrentes de sentimentos esmigalhados e poluídos no dia-a-dia pela ausência de amor... e ausência essa que, na maioria das vezes, erroneamente, é preenchida de matéria. As vezes é preciso deixar o teatro-vida de lado, descer do palco-mundo, despir-se do ator social que somos e sentar-se junto a platéia do teatro-arte, deixar o sonho fluir com a mentira ensaiada, cheia de calorosa verdade verdadeira, que transforma o choro-verdade que fere, em riso alegre que acolhe, meio a real sensação coletiva de felicidade. Na platéia do teatro-arte todos atuam com o papel de olhar e sentir. E eu, ator social destituído, quando desço do palco-mundo para ver atento o teatro-arte, que não só imita a vida, mas vai além dela, sinto uma alegria transcendente, que transborda o ser, e torço para que meu teatro-vida caminhe no mesmo sentido verdadeiro da representação que não fere. Vivendo esse coletivo momento feliz, farei de tudo para que no decorrer da minha peça, atuada no palco-mundo do teatro-vida, conquiste o doce beijo molhado infinito da suave e aveludada feminina boca desejada. E após o ato final, ao fecharem-se as cortinas e as luzes se acenderem, e ascenderem-me, eu receba e sinta os calorosos, acolhedores e recompensadores aplausos da platéia.

 

 

 

Texto publicado no blog Teatraria e no site do Itaú Cultural.

 

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Ter Estilo

Tribo: essa dissílaba, de origem latina (tribus: divisão política Romana), serve para designar grupos de povos primitivos, grupos pré-estado, indígenas, ou qualquer outra espécie de formação social que não seja ocidental. Num sentido mais contemporâneo, designa pequenos grupos urbanos que reúnem-se em torno dos mesmos interesses culturais: música, linguagens, vestes, idéias, etc... E dentro desta nossa solidariedade orgânica, várias tribos, dos mais variados estilos, convivem pacificamente... ou pelo menos a maioria. E dentro das tribos urbanas os adeptos reconhecem-se, aceitam-se, mutuamente. E saindo do macro organismo e inserindo-se num micro, esses seres tribais, de alguma forma, reconhecendo-se, descoisificam-se.


Ter um estilo: é o que hoje a maioria das pessoas procuram, em matéria de comportamento. Querem ter uma característica própria, algo que as destaquem em meio à multidão. E ter estilo é muito mais que estar na moda. Estar na moda é querer ser igual à maioria. É seguir uma tendência. E ter estilo não, ter estilo é querer ser diferente.


Ai é que vem a contradição: a maioria procura ter algum tipo de estilo, ter uma característica que a diferencie da massa, e quando ela tem isso, o que ela faz? Freqüenta os lugares, locais, onde todos seguem o mesmo estilo. O extremo desse tipo de comportamento estão nas chamadas tribos (no sentido contemporâneo). O individuo se veste diferente, faz um corte de cabelo diferente, usa roupas diferentes, consegue, ou pelo menos acha que consegue, ter seu estilo e, depois de tudo isso, junta-se aos seus iguais. Reifica-se na multidão e, sentido só, mas com estilo, desreifica-se junto à tribo.


Não adianta, punks, emos, metaleiros, pagodeiros, funkeiros, forroseiros, intelectuais, nerds, patricinhas, mauricinhos, todos querem ser diferentes, mas correm para os iguais para serem aceitos... mas, claro, sem perderem o estilo.


O que quero dizer, afinal, com tudo isso, é que, se você quer realmente ter estilo, não pareça com nada e não lembre ninguém!

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publicado por AB Poeta às 18:45
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Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

Jean-Jacques Rousseau (1712-78)

- As vezes sonho em ser apenas um bom-selvagem rousseauniano...

 

"O homem nasce livre, porém em todos lados está acorrentado"


"A maioria de nossos males é obra nossa e os evitaríamos, quase todos, conservando uma forma de viver simples, uniforme e solitária que nos era prescrita pela natureza"


"O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém'"


"E quais poderiam ser as correntes da dependência entre homens que nada possuem? Se me expulsam de uma árvore, sou livre para ir a uma outra"

 

Pra ler:

O Contrato Social - Jean-Jacques Rousseau

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Desejar o bem sem olhar a quem

Acho que todos nós aprendemos isto desde criança: nunca deseje aos outros o que você não quer que lhe aconteça. Ou, pelo menos, algo parecido com isso... Ou nessa mesma linha. Mas uma coisa é certa: o bem é algo a ser ensinado; a virtude é algo a ser ensinada. E muitas vezes quem nos ensina isso é a experiência.


Segundo psicanalistas (Jung é pai desta teoria), todos nós carregamos em nosso inconsciente um arquétipo chamado sombra, que é responsável pelos nossos atos (pensamentos) violentos e, socialmente, inaceitáveis. A sombra é o lado “primitivo” do homem, que foi gradativamente, durante todo seu processo de “evolução”, sendo reprimida no inconsciente através dum processo social de “educação” (adestramento) que sofremos durante todo o decorrer de nossa história. De vez em quando ela da às caras. Nos momentos em que explodimos numa fúria cega, é ela, nossa amiguinha, que bota lenha na fogueira. O Self, arquétipo responsável pelo “equilíbrio” do inconsciente, é quem da uma “segurada de onda”, canalizando essa violenta energia para outros arquétipos, aliviando-nos, e afundando no sub, cada vez mais, a sombra.


Somos naturalmente violentos, mas, ainda bem, que inventamos o Bem, que nunca é absoluto, mas que faz com que pensamos que há algo sublime a alcançar, e isso nos ajuda a esquecer que temos esse tipo “ruim” de natureza. Mas, tudo bem, não é para falar sobre isso que escrevi este, e sim para contar uma história que vivi e que tem tudo a ver com o título deste acima.


Amigo secreto, essa brincadeira (pé no saco) que se faz, geralmente, em final de ano, onde um grupo de pessoas escreve seus nomes em pedacinhos de papel e depois sorteiam os papelotes (no bom sentido) entre si, não participei de muitas, mas fiz parte de uma que me deu uma boa lição.


Participei duma dessas brincadeiras na época de colégio. O combinado foi que, ao invés de comprarmos presentes mais tradicionais, como roupas, discos (na época), essas coisas assim, presentear-nos-íamos com chocolate. Poderia ser em barra, caixa de bombom, etc.. Não me recordo do nome na menina que tirei no sorteio, mas lembro que beleza não era sua maior virtude... Para ela, comprei uma barra dessas grandonas, recheada com pedacinhos de amendoim. Não lembro o nome, nem marca, de tal guloseima, recordo somente que vinha numa embalagem de papel de cor amarela e tinha um nome curto escrito em vermelho. Cursava no horário vespertino, e entrava na aula próximo ás 13hs. Sai naquela tarde, visualmente corriqueira: ônibus passando, os botecos abertos, grupos de pré-adolescentes uniformizados com avental branco, seguindo em direção a instituição de ensino estatal... Tarde que era diferenciada somente por ter como data o final da brincadeira. Segui pela rua e, ao dobrar a esquina, encontrei com um amigo meu de sala (amigo próximo meu até hoje), e logo iniciamos uma conversa sobre o acontecimento que estava por vir. Perguntou-me se já havia comprado o presente para meu secreto amigo, respondi que sim, o que era, mas não revelei seu nome. Ele comentou que ainda não havia comprado seu presente, e que passaria, antes da aula, no mercadinho que ficava (ainda fica) na esquina posterior a do colégio. Fomos juntos. Chegando lá havia muitas opções de presente, o que gerou certa dúvida do que comprar. Pediu minha ajuda (opinião), e acabou decidindo por uma entre duas caixas de bombons. Uma das caixas continha um número maior de unidades, acho que trinta, ou algo perto disso, mas por isso tinha preço mais alto. A outra, a escolhida, tinha um número menor de unidades, dezesseis bombons, mas o principal atrativo, segundo meu ponto de vista, era que o preço acompanhava essa redução quantitativa.

 

Então perguntou para mim:

 

- E ai André, qual das duas você acha que devo comprar?


- A mais barata, claro! – Respondi “na lata”.

 

- Mas a outra não está tão mais cara assim. E, pela quantidade de bombons que vem na caixa, acho que o preço compensa. – Disse com visível empatia pelo amigo que seria futuramente presenteado.

 

- Tanto faz. O que importa é que você entregará o presente. E, melhor ainda, vai lhe sobrar uma grana! E o cara, esse, nem vai saber mesmo... – Respondi com total indiferença.

 

- Ah, então vai essa mesmo. – Seguimos para o colégio.

 

Chegamos à sala, todos já eufóricos para saber quem foi quem que tirou quem, quem que ganhou o que, quem ganhou o que de quem... E assim foi até a professora chegar e dar início ao final do jogo misterioso. No começo é sempre o mesmo suspense: um vai até a frente da sala e começa a descrever seu amigo secreto, até descobrirem quem é, e nesse espaço de tempo todo mundo fica, é fulano, é cicrano... E, quase nunca, ninguém acerta. Chegou à vez desse meu amigo, e minha ansiedade aumentou, pois como eu instantes antes havia ajudado a decidir na escolha do presente, queria saber quem era o indivíduo a ser contemplado. Ele começou a descrevê-lo, dando risada. Ai a classe ria junto, e eu ria junto com a classe. Descrevia... Dava risada... A classe ria... E eu, ria junto com a classe... Com a caixa na mão, chegada à hora de falar o nome do agraciado, olhou para mim e riu...
Adivinhem quem ele tirou!

 


 

Downloads:

 

IRA! - XV Anos

 

Álbum completo:

 

IRA! - Vivendo e não aprendendo

 

Para ler:

 

André Comte-Sponville - O pequeno tratado das grandes virtudes

publicado por AB Poeta às 22:04
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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Galeria Photo Art Barata

Segundo Walter Benjamin (1892-1940), pensador da escola de Frankfurt, o processo de industrialização da cultura, desencadeado pelo advento da revolução industrial, possibilitou que a arte, antes em poder de meia dúzia de autocratas contempladores do ócio, passasse por um processo de democratização. O que antes era único passou a ser reproduzido em série, possibilitando que diversas pessoas de classes sociais diferentes tivessem acesso as mais diversas formas de arte. Benjamin cita a fotografia como exemplo. Partindo de um único negativo, a foto pode ser diversas vezes reproduzida. Mesmo contestadas, pois mesmo a arte sendo reproduzida, a peça original não perderia sua característica de peça única, suas teorias foram fundamentais para um novo conceito que surgia, o conceito de indústria cultural.


Numa brincadeira entre amigos surgiu um dos conceitos que abalaria a concepção de obra de arte: o Ready Made. O artista plástico Marcel Duchamp (1887-1968) passou a incorporar elementos do dia-a-dia em suas obras, transportando objetos industrializados, não concebidos antes como arte, descontextualizando-os assim, e expondo-os como obras já prontas, sem aplicar sobre esses objetos nenhuma técnica artística. A mais famosa dentre elas é A Fonte, que é simplesmente um urinol branco e esmaltado comprado numa loja de materiais para construção. Correntes artísticas posteriores, como Dadaísmo, foram fortemente influenciadas por esse conceito.


Na metade do século XX, surge nos EUA e Inglaterra um outro movimento que modificaria a forma de se pensar a arte, surge então a Pop Art. Alguns artistas, entre eles Andy Warhol (1928-87), passaram a estudar símbolos e produtos das propagandas, principalmente os produtos americanos, e passaram a utilizá-los como temas de suas obras. Em cores vibrantes e berrantes, imagens de objetos, produtos ou ícones da cultura popular ocidental de massa, eram reproduzidas em tamanhos consideravelmente grandes, transformando o real em hiper-real. Utilizando dessas imagens ultra-pop, a Pop Art aproximou as artes da massa, transformando o que, antes era brega e considerado de mau gosto, em algo refinado.
Em 1987 os irmãos Thomas e John Knoll começaram a desenvolver um dos softwares mais utilizados no mundo para o tratamento e edição de imagens, o Photoshop, que teve sua primeira versão lançada pela Adobe Systems no início da década de 90. Dentre todas as ferramentas que esse aplicativo tem para oferecer, uma que se destaca é a Filter. Com ela é possível aplicar técnicas de pintura sobre qualquer imagem. Afrescos, mosaicos, pinturas a óleo, vitrais, etc., são produzidos sem esforço algum e, melhor ainda, podem ser facilmente mesclados criando assim uma “nova” técnica.


A tecnologia possibilitou uma democratização de algumas técnicas artísticas, e, graças a isso, eu inauguro aqui, incentivado pela minha amiga pretensão, que é quem me faz produzir este, a corrente artística Photo Art Barata.


O nome dessa nova corrente se deu desta maneira: Photo = nome do aplicativo que possibilita a criação desse tipo de arte; Art = palavra da lingua inglesa que significa Arte; Barata = de baixo preço. Com um custo baixíssimo você pode produzir um afresco, imprimi-lo num papel da boa qualidade, emoldura-lo e vende-lo!


Com apenas um clique, as grandes técnicas da arte estão agora a sua disposição.


Assim como eu, seja você também um Photo Artista Barato.

 

Segue abaixo algumas obras de minha autoria, e que inauguram a primeira galeria (virtual) da Photo Art Barata:

 

Frequentando-se

 

Mosaico Du Quem?

 

Stage The Hell

 

A mais paulista avenida: construida por migrantes, comandada por imigrantes.

 

Trash Food Army

 

O Elixir

 

Mata Boi

 

Posto Nº5

 

AllBlack Nite

 

Fly By Night

 

Body Doll

 

TatooDuBeem

 

Downloads:

Livro:Walter Benjamin - A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica

+Benjamin

Obras:

Marcel Duchamp

Andy Warhol

 

Clique - Mais Photo Art Barata

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Domingo, 14 de Dezembro de 2008

Mais um ou menos um?

 

I

 

Contagem maluca. O tempo, o de vida, é contado progressivamente, mas o corpo, que é quem suporta (acumula) toda essa carga temporal, vive uma vida regressiva. Envelhecer é amadurecer gradativamente para a morte.
Todo velho é uma criança velha. Como para criança tudo é novo, tudo na velhice do velho é novo. A criança, esse ser puro, que os pais insistem em tratar como uma miniatura de adulto, aprende (chamam esse aprendizado de “educação”) a ser velho, e o velho, na sua velhice, tem que aprender a ser velho de novo. Mas o estranho é que, apesar de tudo isso, nunca aprendemos a envelhecer. Talvez por isso destratamos os dois, velhos e crianças. São iguais, precisam dos mesmos cuidados. Todo cuidado é pouco, e o pouco cuidado que se tem, não é nada.

 

II

 

Ao final de cada dia, na fila da chapeira para bater o cartão, sempre eu ouvia alguém dizer “é, mais um dia”, e eu sempre dizia “é, MENOS um dia”. Deste instante para traz, já era, não volta. Talvez esta frase “mais um dia” seja uma forma de aliviar o fardo diário dessa vida rotineira que aprendemos a chamar de cotidiano; proferir essa frase é uma forma de deixar a vida mais leve, fazer com que passe mais leve. Sutil.
Será que se todos tivessem a consciência de que cada dia vivido (ou sobrevivido) é “menos um” e não “mais um”, as coisas tomariam um rumo diferente? Essa contagem progressiva não passa de uma regra social. E essa regra nos ensina a tratar cada dia vivido, quando chegado ao seu final, como se fosse uma vitória... Vitória do que? Foi apenas mais um dia sucumbido as regras, sem muitos prazeres, realizações, sem muito de diferente. E ainda se agradece a Deus por isso. Mas ai, para aliviar ainda mais, vem o grande super-herói, o grande defensor de todos: o “sonho”. Ter um “sonho” é ter um objetivo, e, a cada “mais um dia” esse “sonho-objetivo” fica mais perto de ser realizado. É uma pena que a ilusória contagem progressiva é na verdade regressiva, e o tal “sonho” nasceu para nunca ser. Serve apenas de muleta.

 

III

 

Já ia me esquecendo: Feliz aniversário!

 

Downloads:

IRA! - Envelheço na cidade

Raul Seixas - Quando você crescer

Lulu Santos - Já é!

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publicado por AB Poeta às 02:39
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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Quando Nietzsche Chorou - Irvin D. Yalom

Ambientado em Viena do final do século XIX, o romance Quando Nietzsche Chorou, o primeiro do psicoterapeuta Dr. Irvin D. Yalom, conta de maneira ficcional, com personagens que realmente existiram, mas que, alguns deles, nunca se encontraram na vida real, o nascimento da psicanálise.


O fisiologista austríaco, o Dr. Josef Breuer (1842–1925), empolgado com a cura da paciente Anna O., através de um novo método de tratamento, a “terapia através da conversa”, aceita tratar o depressivo suicida amigo da jovem e belíssima russa Lou Salomé (1861–1937), o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). O filosofo já havia tentado anteriormente tratamento com dezenas de médicos, de toda a Europa, mas sua crise existencial parece ser uma barreira intransponível. O que acontece durante esse tratamento é uma relação na qual médico e paciente se confundem, pois o Dr. Breuer encontra na filosofia de Nietzsche respostas para seus conflitos internos, suas obsessivas fantasias sexuais com sua ex-paciente recém curada. Ele relata todo o tratamento para seu discípulo, o então jovem médico, e futuro pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939).


Literatura e ficção se fundem nesse romance cheio de personagens reais que transformaram e mudaram os rumos da humanidade.

 

 

YALOM, Irvin D..Quando Nietzsche chorou. Ediouro publicações. 24º edição. Rio de Janeiro.

 

Baixe para ler: Quando Nietzsche Chorou - Irvin D. Yalom

 

* Em 2007 o livro ganhou uma versão em filme: Quando Nietzsche Chorou (EUA, 2007) - Direção de Pinchas Perry.

 

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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Programa Roda Viva - Patch Adams

Esta entrevista foi ao ar dia 05/11/07, pela TV Cultura no programa Roda Viva.

 

 

Quanto assisti fiquei impressionado com suas idéias, ou melhor, atitudes, com relação à tentativa de fazer do mundo um lugar, pelo menos um pouco, melhor.

 

 

Recomendo que assistam também, é muito difícil, para não deizer quase impossível, ver alguém na TV falando de uma forma tão clara e direta sobre todas as coisas que estão erradas.

 

O Dr. Patch é uns dos últimos revolucionários do bem que habitam este planeta!

 

Veja um trecho.

 


Entrevista completa - YouTube:

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Partido Cervejeiro Universal

O Trabalho

 

 

O trabalho, numa visão histórica, sempre foi ligado a algo ruim. Até mesmo na bíblia; quando Adão e Eva comeram do fruto proibido foram expulsos do paraíso e condenados a trabalhar. Eva se ferrou duas vezes, pois, além do trabalho manual, também coube a ela (mulher) o trabalho de parto.


A palavra trabalho vem da palavra, originária do vocábulo latino, tripalium, que era o nome de um aparelho de tortura, formado por três paus, utilizado para amarar os condenados. Como herança dessa origem, ela é sempre associada ao sofrimento, pena ou labuta.
Na Grécia antiga toda a atividade manual era desvalorizada, e feita pelos escravos. Somente as atividades teóricas (contemplação das idéias) eram consideras dignas.


São Tomás de Aquino, na idade média, tentou desvincular esse estigma do trabalho manual, dizendo que todos os trabalhos se equivalem, mas como sua filosofia tem como base a visão grega, tende a valorizar as atividades contemplativas. Alguns textos medievais consideravam a “arte mecânica” uma arte inferior.


A ascensão da burguesia, na idade moderna, muda totalmente à concepção do trabalho. Com o domínio sobre as “artes mecânicas” e as grandes navegações, e a exploração de ambas, a sociedade passa por grandes transformações econômicas, determinantes para a passagem do feudalismo para o capitalismo. Surgem os primeiros barracões manufatureiros (primeiras fabricas), e os trabalhadores, que antes produziam por conta própria em suas casas, agora, para sobreviver, são obrigados a venderem a única coisa que lhes sobraram: sua força de trabalho. O fruto provindo do trabalho já não pertence mais ao trabalhador. Toda a produção e lucro pertencem ao empresário. Com a produção crescendo rapidamente, a divisão do trabalho em horários pré-estabelecidos, e o desenvolvimentos dos grandes centros urbanos, surge uma nova classe social: (nós) o proletário.


A Reforma Protestante (século XVI), a Revolução Francesa e Revolução Industrial (século XVIII), contribuíram para fixar essa nova ordem social, e, principalmente, para mudar toda visão histórica que se tinha sobre o trabalho.
Até quando isso?

 

O Tempo

 

Já era! Não somos mais os donos do tempo. O Tempo, essa idéia “abstrata”, que antes era marcada apenas pelo nascer e o por do sol, ou pelas colheitas, agora é mensurado pelo relógio. Primeiro o pensador disse: “o tempo é o senhor da razão”; ai veio os revolucionários industriais burgueses, se apoderam do relógio, esse marcador de tempo, e disseram: “não não! Tempo é dinheiro”.

 

De quem é o tempo?

 

Romanos, Julio César, Augusto, gregorianos, Carlos IX, Papa Gregório XIII, era cristã. 365 dias, 6hs e alguns minutos.

 

De quem é o tempo?

 

- Corre o coelho, olhando o relógio: “to atrasado, to atrasado”, sempre.


- A rainha mandona manda: “que sirvam o chá... E cortem-lhe a cabeça!”, sempre, também.

 

Ninguém é decapitado, mas sempre se perde a cabeça.

 

De quem é o tempo?

 

Newton, Einstein... Tempo + Espaço = espaço-tempo. Quanto mais próximo de um objeto, maior será a distorção no espaço-tempo. Isso faz com que o tempo passe mais devagar, para quem está próximo desse objeto, pois a força da gravidade será maior nesse ponto do espaço-tempo. Mas se você for arremessado para longe, numa velocidade próxima a da luz, aí não, aí ele fica mais lento. Dilatação temporal... Isto é absoluto: o tempo não é mais absoluto!

 

De quem é o tempo?

 

Taylor, Fayol, Ford.

 

De quem é o tempo?

 

Acorda, café-da-manhã, ônibus, trabalho, almoço, trabalho (muitos copos de café nesse meio tempo), ônibus, escola, dorme, cinco dias (com alguns happy-hours e outras cositas mas  no meio) , acorda, feira, mercado, shopping, afazeres domésticos, estudos, filmes, baladas, dorme, acorda, missa, macarrão, frango, futebol, Faustão, fantástico, dorme...

 

De quem é o tempo?

 

O tempo, hoje, pertence as grandes indústrias, companhias, multinacionais, etc... E o seu relógio serve somente para lembrá-lo disso.

 

O Lazer

 

Sempre após o expediente um grupo de pessoas se reúnem num bar. Já que foram libertos das amarras empregatícias, aproveitavam seu tempo de lazer tomando uma gelada. Isso é absolutamente normal, numa sociedade industrializada como a de hoje; pessoas que tem coisas em comum se reunindo no mesmo local. Isso acontece, não porque existe uma força divina que os une, e sim porque existe um habito de consumo em comum. A sociedade industrial produziu um ser que se reconhece, se junta, se une através do consumo. O lazer alienado produz esses grupos. E, fala a verdade, depois de um dia inteiro entregue ao trabalho, tomar uma cerveja não é nada mais do que justo.


Ler um livro, aprender a tocar algum instrumento musical, plantar uma árvore, escrever, pintar um quadro, assistir a um filme em DVD, que não seja um blockbuster, caminhar, fazer um artesanato, cozinhar, etc., todas essas práticas foram, praticamente, erradicadas da vida (tempo livre) da maioria das pessoas.


Graças a grande indústria do lazer, se você não estiver consumindo, qualquer coisa, você acredita que não há mais nada para se fazer. O consumo, junto com o “tempo livre”, construiu algo mágico, algo que faz com que você tenha a sensação de que o seu tempo está sendo muito bem aproveitado. Ta ai, uma grande característica do homem do século XX: o lazer alienado.

 

O Partido

 

Essa alienação do lazer até que não é tão ruim. Em meados de 2006, um grupo de pessoas, de tanto se reunirem no mesmo local, para fazer a mesma coisa: discutir sobre os mais variados assuntos e apreciar a boa e velha cerveja, decidiram montar um partido, intitulado Partido Cervejeiro Universal, o famoso P.C.U.


A coisa ficou tão organizada que foram feitas camisetas com o logo do partido, foi escolhida uma sede (Toka’s Bar), feito um vídeo musical e um estatuto com os deveres, direitos e obrigações dos filiados. Também elegemos um presidente e seu vice.


A democracia dentro do partido foi exercida de forma sublime. Todo o estatuto foi escrito com todos os filiados dando sua opinião e sugestão, independente do cargo que ocupava na empresa ou o nível de amizade com qualquer integrante do partido. Foi de causar inveja até a ágora ateniense.

 

Segue estatuto:

 

PARTIDO CERVEJEIRO UNIVERSAL – ESTATUTO

 

Capítulo I - Do Partido e seus objetivos:

 

Artigo 1º) O P.C.U. tem como objetivo principal agregar apreciadores de : cerveja, samba e churrasco.

 

Capítulo II - Dos filiados:

 

Artigo 1º) Será admitido como membro do P.C.U. qualquer pessoa que compartilhe dos nossos ideais independente de ser funcionário da Universal;

 

Artigo 2º) Face ao exposto acima, fica proibida a entrada de : abstênicos, vegetarianos e outros malas;

 

Artigo 3º) Os afiliados a partir de 2007 terão direito a uma grande recepção na nossa sede (Toka´s), ocasião em que o novo integrante pagará 01 caixa de cerveja para entrar no Partido;

 

Artigo 4º) O P.C.U. repudia os Sanguessugas de boteco (aquelas pessoas que adoram beber mas são escorregadias na hora de pagar); qualquer ato neste sentido será punido severamente pelo Partido.


Capítulo III - Das obrigações:

 

Artigo 1º) Todo o filiado tem a obrigação de pagar 01 Caixa de Cerveja no mês do seu aniversário, ficando a seu critério a data de escolha da comemoração, desde que seja em uma sexta-feira;

 

Artigo 2º) Isso também se aplica as seguintes Comemorações : promoção, formatura, casamento, separação, férias, nascimento de filhos, prêmios de bingo, bicho, loterias, etc.;

 

Artigo 3º) Não serão aceitas desculpas quanto a situação financeira do filiado, pois para um membro do P.C.U. mais importante do que ter dinheiro é ter crédito.

 

Capítulo IV - Das reuniões:


Artigo 1º) Nossas reuniões serão realizadas todas as sextas feiras a partir das 17:45 na nossa sede social (Toka’s I) ou durante a semana se houver necessidade de alguma reunião extra-ordinária;

 

Artigo 2º) Uma vez por mês realizaremos na nossa quadra de esportes um churrasco de confraternização;

 

Artigo 3º) Quando da realização dos churrascos, o pagamento da contribuição deverá ser efetuado até as 15hs para melhor organização do evento;

 

Artigo 4º) Todo o conteúdo das conversas e acontecimentos das reuniões dizem respeito somente aos integrantes do Partido, sendo não permitido a sua proliferação fora da Sede;

 

Artigo 5º) É expressamente proibido falar de serviço nas reuniões por mais de 30 minutos;

 

Artigo 6º) Também fica proibido o consumo de sub-cervejas como : Kaiser, Bavária, Schin, etc. e no caso de cervejas sem teor alcoólico se faz necessário uma justificativa do integrante, sujeita á análise;

 

Artigo 7º) Em toda reunião do Partido será colocado um engradado vazio que irá sendo preenchido com as garrafas vazias. Cada integrante do Partido na sua saída deverá retirar as garrafas que julgar de acordo com o seu consumo;

 

Artigo 8º) Todo membro do Partido poderá convidar : parentes, amigos, namorados (as), filhos (as) , etc. desde que garantam a consumação dos mesmos.

 

São Paulo, 27 de Outubro de 2006.
 

Logos

 

Esse foi o primeiro, mas queriamos algo melhor, exclusivo.

 

 

Então o Fabinho (ex-partidário) desenhou esses dois.

 

 

Chegamos finalmente a esse, que está estampado em nossas camisetas.

 

Logo atual

 

 

Também foi feito um vídeo, totalmente no improviso, com duas de nossas partidárias (Juju e Dani, as duas vice do partido), numa festa da empresa. A letra, até onde sei, a da nossa saudosa vice Juju.

 

 

Também, claro, temos uma comunidade no Orkut. Clique aqui e participe.

 

A melhor coisa de tudo isso é o exemplo que fica de que quando um grupo de pessoas quer se organizar, se unir, elas conseguem e, algumas vezes, vão muito mais além. Não faltam grandes exemplos: Greenpeace, ATST-Faculdade (SP), ONG's, etc....


Até quando o consumo irá nos unir?

 


 

 

1º Encontro anual PCU - 28/11/2008

 

 

 

 

Baixe para ouvir:

Casa de Bamba - Martinho da Vila

Demônios da Garoa - Saudosa Maloca

 

Referência Bibliográfica:

 

Baixe para ler:

Filosofando - Introdução a filosofia

Uma breve história do tempo - Stephen Hawking

 

 

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Ligadas pelo desejo (de consumo)

Coisa. Para mim a (ou o) Coisa sempre foi um super-herói, aquele, dos Quatro Fantásticos. Pelo menos era esse o nome deles, quando eu era criança. Hoje, acho, que os Quatro viraram Quarteto. E herói sempre foi para mim uma referência: Pai Herói, a novela da Rede Globo. André Cajarana, era o nome da personagem interpretada por Tony Ramos, que, segundo meus pais, foi a fonte de inspiração para a origem do meu nome. É ai que a coisa começa a ficar estranha. Bem, segundo os meus registros, nasci em São Paulo, bairro da Aclimação, no sexto dia do primeiro mês do ano de mil novecentos e setenta e cinco (século passado). A novela referida foi ao ar no ano de mil novecentos e setenta e nove! Nove? Isso mesmo, nove (Nº 9; para não ter dúvida). Caso meus pais não possuam uma máquina de viajar no tempo, não sei como explicar esse desencontro de datas. O pior é que nem eles sabem o por que desse desencontro. Talvez o tal Cajarana tenha provocado algum impacto na vida deles dois, sei lá... Também, mais de trinta anos vendo novelas é normal que já não saibam o que vem antes do que. Por falar em novela, faz tempo que não acompanho nada na televisão. Principalmente as novelas. Todas iguais.


Vendo TV outro dia, me chamou atenção uma reportagem sobre uma cantora brasileira radicada em Cuba, que não lembro o nome agora (e nem depois também), mas lembro que ela falava sobre música cubana, mostrou um DVD e fez um comentário. Quis adquiri-lo na hora, pois já tinha visto aquele num Sebo aqui próximo. Sabe come é, estou desempregado, tempo ocioso é farto (dinheiro + ócio = consumo), corri para loja. Procurei, mas não estava mais lá. Alguém já havia comprado. Mas ai, sabe como é, a besta-fera do consumo entra em cena! Não tinha o que eu queria, mas havia vários outros que eu queria, mas não sabia que estavam lá. O que era para ser uma compra de, no máximo, doze reais, virou uma de quarenta e cinco. Dois DVDs e dois livros. Cultura nunca é demais, segundo meu senso moral. Sem problemas também, logo estarei empregado, esse dinheiro não vai fazer falta agora.


Produto adquirido, mesmo não sendo o desejado, volto ansioso para ver algum dos filmes. Durante essa volta uma imagem me chamou atenção: um senhor, desses que aprendemos a chamar de catador-de-papelão, com roupas humildes, chinelos velhos e óculos escuros da... Coco Chanel!? Tudo bem, é falsificado, mas e daí! A sensação de beleza, importância, de fazer parte de algo não era falsa, era bem real. Quem diria em Gabrielle, que sua criação um dia estaria no rosto de um trabalhador negro como as lentes, de um dito país subdesenvolvido. A pirataria é a redemocratização da cultura, pois falso é o produto em si, não o sentimento com relação a ele, ou que ele proporciona.


Realidade. A realidade é só um recorte. Nem lembrava mais como a rua era movimentada assim. Também, só passava por aqui pela manhã, para chegar ao trabalho. Será que todo esse povo mora aqui? Ou só trabalham aqui? Ou estão passeando aqui? Eu moro, eles, não sei. Quantos ônibus lotados. Não sei se existe, na língua portuguesa, o coletivo de solidão, mas uma definição contemporânea de coletivo para esse substantivo seria: transporte público. Fico imaginando, milhões de pessoas indo e vindo, sem trocarem uma palavra! Quantos pensamentos passam por essas cabeças. Quantos sonhos, desejos, etc... Parecem zumbis; são apenas corpos, a mente, essa, ta longe... O Coletivo é uma espécie de mosaico de realidades, cada um com a sua. Arthur tem razão, a existência em si é um tédio, um vazio (chega logo ao seu destino ônibus...). Esse vazio justifica um outro pensamento filosófico (só não lembro o autor) que diz: o homem é o único animal que nega ser o que é; pretensiosamente completo: o homem é o único animal que nega ser o que é, e que só se reconhece no consumo, sua maior característica; anda, se alimenta, fala, pensa, etc., mas o que realmente o diferencia, até dos da mesma espécie, é o consumo, e é nesse último que ele se realiza.


A realidade não é em si a matéria, o trabalho e nem o outro, são as sensações que deles provem, entendida de forma subjetiva; como os padrões e entendimentos sociais se renovam, a realidade também é renovável. Como já dizia aquela letra do Raul: “que o mel é doce, é coisa que me nego afirmar, mas que parece doce, isso eu afirmo plenamente”.
Chega de observações do mundo exterior, vou ao que interessa, ver um dos filmes. O Escolhido foi um que mostra a vida do artista plástico estadunidense Jackson Pollock. O outro é um filme chamado Amnésia, muito interessante, mas como já havia visto, esse fica para outro dia.


Terminado o filme, vem a ansiedade. A ânsia de falá-lo a alguém é grande... Enquanto não encontro ninguém, fico com a angustia de ter consumido algo, mas como ninguém ainda esta sabendo disso, não considero ainda o consumo consumado.

 

 

Para entender melhor, algumas definições definidas por mim:

 

Desempregado: Estigma ruim; classificação dada à pessoa que não tem emprego.

Empregado: Estigma do Bem; classificação dada à pessoa que tem uma ocupação com registro em carteira de trabalho, e que dedica todo seu tempo à ascensão de outra da mesma espécie.
Catador-de-papelão: Estigma; classificação dada ao trabalhador que coleta materiais recicláveis pelas ruas, praças, avenidas, etc; filantropia.
Gabrielle Bonheur “Coco” Chanel (1883 – 1971), idealizadora.

Trabalhador: Estigma bom; classificação dada à pessoa que aplica sua ação (força) em algo, a fim de obter algum retorno financeiro; ocupação sem registro em carteira de trabalho; autônomo.
Pirataria: Ato de copiar e comercializar algum produto sem autorização de seus idealizadores; tendência neoliberal.
Redemocratização da cultura:Segundo Walter Benjamin e Siegfreid Kracauer (pensadores da escola de Frankfurt) as sociedades capitalistas avançadas criaram, sem querer, condições para uma democratização da cultura (processo de industrialização da cultura). A pirataria surge como renovação desse processo, pois mesmo com a cultura industrializada muitos ainda não tem acesso; acesso esse que é proporcionado através da pirataria.
Arthur Schopenhauer (1788 – 1860).
Faça, fuce, force– Raul Seixas.
Raul dos Santos Seixas (1945 – 1989).
Pollock(EUA, 2002).
Amnésia(EUA, 2000).

 

11/06/08 

 

Texto acadêmico que fala sobre reificação, fetichismo, realidade, hiper-realidade, alienação e outras cositas filosóficas mas.
 

Baixe para ler:

O vazio da existência - Arthur Schopenhauer

Filosofando. Introdução à filosofia - Maria Lucia de Arruda Aranha

 

Para ouvir:

Raul Seixas - Faça, Force, Fuce

publicado por AB Poeta às 18:49
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