Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Retrato

É engraçado como não esqueci, mas ao mesmo tempo esqueci uma paixão antiga que tive. O que chamamos de primeiro amor então, nunca saiu da lembrança, mas também não ficou para a vida. Em algum lugar do saudosismo, esses sentimentos, muitos deles juvenis, habitam e só são solicitados hoje em rodas amigas de bate-papo “das antiga”, ou às vezes aparecem em momentos de solidão fazendo papel de anti-heróis; vêm e me dão um sorriso que ponho cara de imediato, talvez uma lágrima no canto do olho brilhoso o acompanhe, e uma sensação de ternura ocupa e repousa no corpo nesse momento, mas depois acaba o revival e a lembrança volta para o arquivo semi-morto da mente e meu corpo volta a ser a carne humana que sou, ou que me transformei.

 

Revirando as bagunças que guardo na parte alta do guarda-roupa - parece até uma representação física da memória: a parte alta do guarda roupa – encontrei a caixa que embalou meu primeiro par de sapatos de couro preto, praticamente marco início da minha vida adulta. Hoje essa mesma caixa, toda remendada e sem muito de sua cor original, guarda uma porção de papeis que nem sei se valem algo ou se servem para alguma coisa, alguns documentos amarelados e fotos de uma época que só a saudade é capaz de lembrar.

 

É impossível não sorrir diante das fotos da turma: gente que tinha mais apelidos do que nomes, vontades do que dinheiro e um tipo de alegria que só se tem quando se é novo. Festas, festas, festas e mais festinhas, tudo era motivo para festa. E foi numa dessas, na de quinze anos da Juliana, que tirei este retrato: eu de braço dado à princesa da festa, e meu amigo Jorge, conhecido também como “cabeção”, com a princesa que eu queria ter. Nós quatro, lado a lado, formando casais que não me interessavam.

 

Eu era apaixonado pela Mara. Nada era mais divino do que vê-la dançando naquela noite: tudo se rendia aos seus pés bailarinos, cadenciados harmoniosos por Richard Strauss, a coadjuvante lua jogava luz sobre a pele sedosa do seu vestido que refletia paz e iluminava a pobreza dos olhos murchos de embriaguez que lhe cercavam e que se encantavam com seu sorriso singelo alvo ornado vermelho amor, e os movimentos de suas mãos de Fada levemente adocicavam o duro ar e deixava tudo que não era Ela desbotado. O ambiente virou um relicário de bijuterias tendo Ela como a única jóia de valor; pérola de pétala púrpura e pura. Eu observava, rodopiando desajeitado com minha pseudo-protagonista, toda essa sinfonia da natureza que acontecia como encanto, um presente divino para um bando de mortais que insistiam em viver. Foi assim, eu admirando-a, durante a valsa e pelo resto da noite, até que no final ela saiu com seu par, e eu, a par de tudo, nem aí para o meu par. Não comi um doce dessa festa.

 

Não sei o que impedia de declarar minha paixão à Mara. Quando a via sentia até dor-de-barriga; sentia minhas vísceras retorcendo, o coração disparava, a mão suava e eu me acovardava. Era muito forte. Amor e medo, juntos. Não éramos amigos próximos e não contei aos meus amigos sobre o que sentia por ela. Tínhamos muitas amizades em comum, e meu medo era que a notícia da minha paixão corresse pelas bocas mundo afora. Guardei segredo. Depois ela começou a namorar e passei a guardar esse segredo até de mim mesmo. Se não era para tê-la, preferia nem vê-la, nem lembrá-la, nem nada... Passou alguns meses e fiquei sabendo que se mudou.

 

Essa paixão me perseguiu durante algum tempo. Lembro do dia em que eu o Duda e o Xisto decidimos acabar com nossa “invencibilidade”. Fomos ao Ninfa’s American Bar, que ficava na “boca-do-lixo”, atrás de prazer e vida nova. Entramos e ficamos numa mesa quadrada, pedimos cerveja e observamos as garotas de topless que dançavam num palco retangular comprido de uns sessenta centímetros de altura. Na vitrina da carne, que encantava nossos jovenis olhares, enxerguei uma que se não era parecida, fez-se igual à Mara: branquinha, dorso de sardas, gotas de chocolate, longos e negros cabelos que emolduravam um rosto simétrico, curvas feitas para se perder. Negociei o programa e fomos. Imaginei minha musa durante todo o ato. Em um momento, eu vidrado na menina sussurrei em seu ouvido - te amo... – e fui para beijá-la, mas ela desviou e seguiu em seu papel mecânico e acabamos. Depois fomos embora e nunca mais voltei lá e nem em local parecido.

 

Na última reunião de pais e mestres no colégio em que minha filha do meio estuda, tive uma surpresa: uma mulher veio até mim, me chamou pelo nome, olhei-a como quem olha normal para alguém, cumprimentei-a e conversamos; era Mara. Não tive nenhuma reação de surpresa, só educação. Perguntou-me se não lembrava dela, respondi que um pouco, falei sobre Jorge e ela confirmou que foi namorada dele, até que se mudou para outra cidade. Disse que se casou com um de lá, tem três filhos e voltou para morar na casa que seus pais deixaram de herança, e também porque para seu marido as oportunidades de trabalho eram melhores por aqui. Veio à reunião de seu filho caçula, que por coincidência estuda junto com minha filha. Falamos mais um pouco e nos despedimos.

 

Aquela mãe de aluno não era a Mara. Não poderia ser. Não havia um traço que lembrasse aquela menina da adolescência. Mesmo depois de conversarmos, não era ela. Se fosse, estava soterrada sob aquele corpo pálido gotejado de ferrugem... estava sob a tintura opaca dos cabelos não tão longos e das roupas de senhora que não sonha com amor, estava sob a dissimetria do resto. O tempo matou Mara. Foi a única vez que conversamos e não enxerguei a menina que me encantava em canto algum das palavras, dos gestos ou de qualquer outra coisa que aquela mulher expressava. Mara é a menina do retrato. A menina da festa de quinze anos, dos pés bailarinos, jóia única do relicário e da lembrança que achei ter esquecido:

 

- Pai, o senhor achou?

 

- Ah, sim. Está no fundo do guarda-roupa, vou pegá-lo.

 

Ele guardou a foto na caixa com outras, levantou da cama onde estava sentado e pegou no guarda-roupa um brinquedo antigo: um carrinho ambulância que havia sido seu e que guardou para dar ao seu filho, quando tivesse uma idade em que saberia que ele teria cuidado com o presente. Entregou ao menino, que correu para mostrar à mãe:

 

- Eba! Olha mãe...

 

Olhou feliz o menino correndo pelo corredor, e o eco da alegria infantil o fez sorrir e brilhar os olhos. Depois voltou e guardou a caixa no fundo da parte alta do guarda-roupa. Fechou a porta. Foi atrás do menino, queria ser o primeiro a ser socorrido pela ambulância do seu filho.

 

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Domingo, 24 de Outubro de 2010

Amor Estranho Amor

 

(fragmentos de divagações sobre o Amor)

 

O amor é um cão dos diabos, segundo Bukowski. Diria que o amor é um cão Do Diabo: um sorriso amigo, um abano de rabo, um latido que soa “seja bem vindo”, tudo isso ao portão depois de um dia dos diabos. Quem não acreditaria que isso é amor? O amor é isso: algo irracional: só um cãozinho é capaz de amar verdadeiramente. Apanha, é xingado, gritam com ele, colocam-lhe coleira e apesar de tudo ele ainda ama o seu dono. Quando procuramos alguém, procuramos um cão, ou pelo menos o olhar vidrado que o animal tem, sem preconceitos e sem receios. Olha com a língua de fora, baba e pula no colo... procuramos no outro o que ainda há de animal no humano. Mas quando você menos espera, o amor cão te morde, corre e vai mexer em outro lixo, te passa raiva e não há injeção que cure essa doença. O amor é um cão Do Diabo: indomesticável, imprevisível e que abana o rabo enquanto lhe interessa.

 

Dizem que o amor é cego, uns acham que sim, outros que não, mas acho que ele é os dois: quando se ama, nosso olhar se mistura aos desejos, às reações provocadas pelos toques na pele e as projeções de futuro parecem que se concretizam e abre-se um caminho novo que leva a algo sonhado; os olhos da cara se fecham e viram um olhar único, uma espécie de terceira visão com sexto sentido que lhe sopra ao ouvido: isso é amor... ame. E você ama porque não há nada a fazer a não ser amar. Aprendemos que o amor é uma jóia rara que poucos a têm e que temos que procurá-la durante a vida até o dia de encontrá-la e fincarmos nossa bandeira: conquistei! (é mais fácil subir o Everest do que amar). A visão única do amor cega e não enxergamos a sola quando ela se aproxima e nos rodeia de sombra. Só percebemos quando pisados: escutamos um estralo, a espinha dorsal se quebra, vemos nosso interior amarelo-pus exposto, mexemos as antenas a procura de sinais-resposta; vem a pá e nos joga no cesto, fecha-se a tampa, a barata morre, o amor gangrena e se vai com o tempo.

 

O amor é egoísta, e a conjugação do verbo nos diz isso desde o primário: Eu venho antes de Tu, que vem antes de Ele (a primeira pessoa é sempre singular); a segunda é Nós, que vem antes de Vós, ou seja: nos dois vem antes de você. Eles então... coitados, os últimos a conjugarem qualquer dos verbos.

 

Plantar: essa é a grande metáfora do amor: plantar hoje para colher o amanhã. Plantamos a rosa e ela nasce, vem com espinhos que tocamos com cuidado; até que ela murcha e morre. O amor morre, nos avisam isso por essa metáfora. Plantamos grãos num campo vasto e vazio que verdeja até colorir tudo, a colheita é feita e se não nos dá lucro, trocamos de semente: o amor é um agro-negócio!

 

O amor é uma utopia. Crer na utopia é o grande erro necessário de tudo. A utopia é necessária para seguir em frente, mas ela nunca poderá ser alcançada. No dia em que for, morre tudo: sonho, vontade, amanhã, utopia, amor (uma bela alegoria: monte num burrinho e pendure uma cenoura por uma linha em uma varinha, coloque à sua frente e o sentido da vida está pronto!: nasce mais uma utopia, mais uma amanhã, mais um amor).

 

O amor é um Ninho em um estranho, achamos esse estranho que deixa de ser estranho e vira Ninho... acaba o amor... viramos um estranho no ninho. O amor é um estranho que não conhecemos e projetamos esse amor nesse outro: somos um retro-projetor de imagens bonitas procurando um pano branco para torná-las visíveis e darmos movimentos a elas, até que a luz acaba e esvazia o pano novamente, fecham-se as portas e sobram somente as pipocas no chão: o coração metafórico é uma sala de cinema vazia que espera o amor projetar cenas na tela. Nada representa mais o amor do que o cinema.

 

O amor é um gostar ou um não-gostar: não interessa quem é, se você gostar vai amar e ponto. E quando esse amor acabar, vai passar a não-gostar e ponto também. Não existe prós ou contras que se coloque numa balança e evite o final do amor, ele finda e fim. Qualquer tentativa de prolongamento será como maquiar um cadáver: ele ficará lindo, porém frio... morto.

 

O amor é uma invenção pior do que a bomba atômica: existem japoneses que amam os americanos, e existem japoneses que não amam o Japão: vai entender. Entender para quê? E entender o quê? Amor é amor e dane-se, não é utopia e nem mais nada. O amor é algo hoje: só existe o Hoje, o resto é tempo que não vem e que já passou... O instante agora é onde o amor cria vida, e a vida nos cria, nos empurra, entre Amor Estranho Amor, até que a morte nos separe.

 

No fundo no fundo o amor é o grande “dane-se” da vida: nessa vida em que a gente só se dana, ame! E depois diga ao resto: dane-se!

 

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Domingo, 17 de Outubro de 2010

Langor

 

Quieta, e feliz, em meu canto

Indiferente aos olhares de dó

Que me acompanham

 

Na estante sei que está a foto

Do instante nosso

Acima dos livros e das fadas

 

Do fim te desejo o começo

Da dor te sugiro a força:

A Vida começa todos os dias...

 

 

 

 

Baseado no poema de:

Etelvina Kazuko Massuda (Ethel)

 

Langor

 

Me veem

frágil, dolorida e langorosa

Em mim,

só felicidade.

Nosso amor

superou todos os

Contos de Fadas.

Imenso, pois

retratado,

congelado na eternidade

E desejar

ao meu amado,

após a separação,

após a superação da dor,

ir ao encontro de um

novo amor.

 

 

 

LANGUIDEZ. Estado do desejo amoroso, experiência da sua falta, fora de qualquer querer-possuir. – do livro Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes.

 

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Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

Tal

 

I

 

Um léxico oco

 

Parece que tenho a palavra

na boca

Digo, digo, digo

mas não consigo dizer a tal palavra certa

(nem sei se há palavras certas)

 

Algo assim

tal como você é

Desse jeito assim

(Não sei...)

 

II

 

Os adjetivos estão gastos

Escritores perdem tempo repetindo-os

na tentativa de reescrevê-los

Inútil

 

III

 

Quero

Tê-la assim

Assim agora

Agora assim como você é

 

Se não há palavras para descrevê-la

é porque transcendeu a idéia de beleza

 

Talvez esse tal tempo que passa

um dia escreva uma só tal palavra

que seja assim

tal como você é

 

 

"TAL. Instado sem cessar a definir o objeto amado, e sofrendo com as incertezas dessa definição, o sujeito amoroso sonha com uma sabedoria que lhe faria apreender o outro tal como é, exonerado de todo adjetivo."

Fragmentos de um discurso amoroso - Roland Barthes

 

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publicado por AB Poeta às 18:51
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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

A Poesia

            

            A arte de versar; despertar o sentimento belo... poesia. A definição a ela dada, trancafiada no dicionário, serve só para alimentar os leigos. Vinho envelhecido sem rótulo, ela, traçando paralelos, redefine, mas nunca define nada; nem ela mesma. Rediz o dito, desdiz o redito, edita, mas nunca dita. Dito isso, a poesia mais do que sentimentos, ou a arte de evocá-los, ela é um sentido que se soma aos outros sentidos, e que se manifesta em poucos; um híbrido nascido da percepção e da expressão. Entre Amor e Humor, a poesia é Rumor.

 

            Os Profetas, cartomantes, quiromantes, adivinhos, ou seja lá como forem denominados os que tentam prever o futuro, todos se dizem dotados de um sexto sentido. Invencionismos a parte, na poesia não existe charlatão, ou se é poeta ou não se é. Sem meio termo. O morno, na poesia, vomita-se. E quem afirma o poeta é a poesia, e não o inverso.

 

            Metrificada, rimada, versada, nascida da música, o que gera uma tremenda ironia: um poeta sempre será um músico, mas um músico pode nunca ser um poeta. O músico toca um instrumento e o poeta com a poesia simplesmente toca. Pensando bem, acho que a poesia nasceu antes da música... muito antes até. As pinturas rupestres, que aprendemos a chamar de “desenhos”, talvez sejam poemas, as primeiras epopéias grafadas da história. Quem é que vai saber se eram (são) ou não? Ninguém. A ciência apenas deduz que são desenhos que representam o cotidiano, dedução que não quer dizer nada. Apenas arquivam essas informações no “P” de pictóricos, e p(r)onto. O pior é que nós nunca saberemos se a “poesia rupestre” está em prosa ou verso. É, os “homens das cavernas” são os primeiros poetas da humanidade, e a sua poesia vem sobrevivendo ao tempo.

 

            A poesia marca o tempo em toda a sua dimensão.

 

            O médico e o monstro, é assim a relação do poeta com a palavra. Mumificada pelos acadêmicos, exaltada pelos fanáticos eruditos, subvertida pelo provincianismo, empanada pelas mídias de massa, a palavra sofre suas variações, mas é na mesa de cirurgia do poeta que ela cria vida. Mutilada, recortada, colada, costurada, repensada e reproduzida, a palavra se cria em meio aos choques e se ergue em forma de poesia, e se torna criatura maior do que o seu criador. Fernando Pessoa, um Dr. Frankenstein que produziu vários monstros, misturado com Dr. Jekyll, que não conseguia conter seus arquétipos e se transformava no gigantesco Dr. Hyde, Pessoa foi tão minimizado pelas suas crias que sua existência humana é praticamente nenhuma; Ricardo, Alberto, Álvaro, será que já não esbarramos com eles por ai?

            Nem as almas que suplicam por misericórdia vagam tanto atemporal pelo espaço quando a poesia.

 

            A poesia transcende.

 

            Nos gestos graciosos da dança, em pinceladas (a)simétricas, no equilíbrio da natureza, no marasmo do campo, no caos urbano, na carne, na guerra, a poesia caminha em silêncio pelos seus corredores sinuosos e mostra sua cara ao poeta em lampejos de inspiração, e utiliza-o como um caminho para tomar forma, criar imagem, som, sabor, saber. Sem saber, o poeta é só um instrumento que a poesia usa para se apresentar. A poesia é o mais poderoso arquétipo do inconsciente coletivo. O verbo é o princípio, a poesia um fim, e o poeta um meio.

 

            Quando a sensação de vazio lhe atacar, e a guerra você versus você começar, escreva, pois é só a poesia querendo um dedo prosa.

 

publicado por AB Poeta às 20:55
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

Pão com manteiga

 

- Sai da frente, caramba! – apressado, pensou sobre uma senhora que atrapalhava a passagem na escada rolante. Sem paciência alguma, driblou a “vovó” e saiu da estação. Na Praça da Sé deu de cara com um senhor vendendo a sorte:

 

 – Vaca, galo, porco; vaca, galo, porco, olha o bilhete premiado! – o rapaz se aproximou e perguntou.

 

- É, por favor, aonde fica o Poupa Tempo?

 

- É logo ali, só atravessar a rua. – apontou com a mão.

 

- Obrigado. – Saiu com passos rápidos.

 

Chegando, ficou irritado ao ver o número enorme de pessoas no local, e com o excesso de informações sinalizadas nas placas, que mais atrapalhavam do que ajudavam. Foi ao balcão de informações:

 

- É, com licença, bom dia.

 

- Bom dia! O que posso estar fazendo para ajudar o senhor? – disse a moça.

 

- Como faço para renovar minha habilitação, para onde me dirijo aqui?

 

- É muito fácil – disse a garota com um sorriso maravilhoso nos lábios - o senhor segue pelo corredor A, vai ao posto B e retira a senha, preenche o formulário C, pega a guia D e paga no banco E, depois faz o exame médico no posto F, volta para o posto A e aguarda a sua senha ser chamada no painel G referente ao balcão H. É muito rápido e simples.

 

- Ok! Vou lá então. Muito obrigado. - respondeu pensando: puta que pariu, é hoje que não saio daqui. - Foi até o primeiro local indicado.

 

Depois de todo o procedimento feito, sua senha foi chamada, no balcão entregou o comprovante para a atendente:

 

- Hummm... o senhor fez o CFC?

 

- CFC? Não. O que é isso?

 

- É o curso de formação de condutores. Todas as habilitações emitidas de 1999 para trás terão que estar fazendo o CFC.

 

- Caramba... E como faço isso.

 

- O senhor vai até o Detran, no Ibirapuera, e pode fazer lá, depois volta até aqui e retira a habilitação.

 

- Ir até o Detran! Isso vai levar mais de um dia, não tenho todo esse tempo disponível!

 

- Ou então... o senhor pode estar fazendo numa auto-escola, que tem logo ali, do outro lado da rua.

 

- Certo. Obrigado.

 

Saindo do Poupa Tempo viu um cara de chinelo e bermudão falando sobre exames relacionados à carteira de motorista:

 

- Opa grande, aonde é que faço esses exames?

 

- Opa chefia, é logo ali, leva meu cartão aqui ó, é rapidinho lá.

 

- E quanto custa esse “exame”?

 

- Cem conto dotô, é o mais barato aqui da região.

 

- Certo! Obrigado. - foi até o local indicado no cartão.

 

Chegando, estranhou o local, era nitidamente uma garagem adaptada para escritório, feito com algumas divisórias. Haviam três “salas”: na primeira, falou com o proprietário do negócio e acertou o pagamento. A segunda estava vazia. Na terceira fez o teste:

 

- O senhor, por favor, desliga o celular, esvazia os bolsos e coloca tudo sobre esta mesa. Depois sente-se nesta cadeira, com as mãos sobre os joelhos. A câmera estará lhe filmando o tempo todo. – o rapaz ficou assustado com tamanhos cuidados tomados por parte do contratado.

 

Após todo o ritual feito, o contratado respondeu às questões da prova para o contratante e disse – aguarde aqui uns 20mim, eu já volto. O rapaz obedeceu apreensivo, já que estava só, numa sala esquisita e sendo filmado. Pensou tudo quanto era desgraça – vão me pegar aqui, estou ferrado! Vou aparecer no Fantástico, Datena, no Ratinho... – até que o cara voltou:

 

- Pronto! Aqui está seu certificado.

 

- Já! Que bom! Rápido né.

 

- Rapidinho!

 

Correndo voltou para retirar o documento:

 

- Aqui está o certificado – a atendente conferiu, anexou ao resto da papelada e entregou a habilitação.

 

- Obrigado! – respondeu.

 

Ao sair, correndo, para voltar ao trabalho, já no horário da tarde, olhou para o documento e pensou – caramba, deveria ter trocado essa foto.

 

Esse texto foi feito para a oficina Escrevivendo, e teve como tema "corrupção".

 

publicado por AB Poeta às 02:50
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Quarta-feira, 24 de Março de 2010

Crônica de Rubem Alves

 

Este texto foi feito para a oficina Escrevivendo, como exercício de argumentação, baseado na crônica de Rubem Alves “Não vou ver as competições...” que fala sobre as competições olímpicas. A proposta era fazer uma carta para o autor dizendo o que achou do texto (a outra crônica apresentada no curso foi uma do Moacyr Scliar, sobre o mesmo assunto).

 

Segue texto:

 

Bom dia professor Rubem Alves, tudo bem? Espero que esteja.

 

Escrevo para comentar sobre sua crônica, referente às competições olímpicas. Essa tese de que atletas não são longevos achei muito interessante, porém acredito que seu texto a defende de maneira superficial, com argumentações vagas. Por exemplo: com quantos anos morreu a Florence? Eu não sei, e acredito que a maioria de seus leitores também não. Caso ela tenha morrido muito nova, o senhor deveria ter citado a idade, fortaleceria a tese. A comparação com os animais acho que não cabe. Os animais são irracionais, agem por instinto e equilibram-se naturalmente. Já o homem não, não tem função definida, age de acordo com o que acredita ser o melhor para ele, e como cada um acredita num “melhor”... Fica difícil julgar (a luta das nadadoras contra o cronômetro lembrou-me cronistas lutando contra fechamentos de edição).

 

O estresse que o corpo da maratonista suíça sofreu foi realmente chocante, mas será que foi maior do que a sensação gloriosa de cruzar a linha de chegada? No prazer também há dor (os masoquistas que o digam). O topo do pódio é mesmo a celebração do narcisismo, concordo; mas não conheço ser humano algum que não goste de receber elogios, e pódio é o máximo do elogio. Competir é de nossa natureza, todas as civilizações competiram entre si, e as olimpíadas foi uma brilhante invenção, pois se for ver a fundo, ela é a versão pacífica da guerra.

 

Gosto de suas crônicas e espero que escreva outra sobre esse mesmo assunto. Para terminar, também gosto das meninas do vôlei, já a ginástica não é muito minha praia, mas vale ver as meninas. E por falar em menina, Gabrielle Andersen-Scheiss ainda mora na suíça.

 

André Al.

 

publicado por AB Poeta às 10:03
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Impressões de São Paulo - Liberdade

 

É difícil escolher e falar de um lugar de São Paulo, já que sou paulistano, sempre morei aqui e ando por toda a cidade, ou pelo menos por boa parte dela, desde sempre. Fica então mais fácil começar pelo começo da minha relação com Sampa.


Essa paixão, ou amor, ou dependência, não sei mais qual desses é que sinto, ou se sinto todos ao mesmo tempo... É, acho que é tudo ao mesmo tempo. Aqui tem que ser tudo ao mesmo tempo, senão não vai. Essa relação começou a ficar mais intensa quando entrei para o mercado de trabalho, em 89. Iniciei na vida corporativa como todo garoto da minha época e idade (14) começava, como Office-boy. Foi um ano de muitas mudanças: para mim, que a partir de então teria mais responsabilidades, para o Brasil, que depois de um período de ditadura estava prestes a realizar eleições diretas para presidente, e para o mundo, que assistia a bancarrota de boa parte dos camaradas vermelhos, iniciada com a queda do muro de Berlin.


Bem, mudanças geopolíticas a parte, uma alteração significativa na minha “georotina” era o fato de que eu concluiria o ensino médio num colégio próximo ao centro, mais exatamente na Av. Liberdade. Os amigos da escola de bairro ficariam para o final de semana. Nada mais de, ao término do expediente, correr e pegar o metrô lotado na República, baldear na Sé, ir enlatado até o Carandiru e depois ir pendurado no ônibus até o Jardim Brasil. Tudo isso para, tentar, chegar a tempo de assistir a primeira aula.


A minha rotina alterou-se. Saia do trabalho, um escritório que tratava de imóveis e seguros localizado na 24 de Maio, caminhava tranquilamente por toda extensão da rua sentido Conselheiro Crispiniano, o tempo agora sobrava. Às vezes parava na Galeria do Rock para admirar as capas de discos e estampas de camisetas, que em sua maioria retratava algum rockstar morto por overdose, ou algum outro motivo. As figuras que lá freqüentavam também eram bem curiosas. Punks, metaleiros, góticos e mais uma porção de outras tribos que eu não fazia idéia de como se chamavam ou se denominavam.


Passava pela Praça Ramos de Azevedo que era habitada por figuras quase que circenses: os homens-sanduíche, que divulgavam vagas de emprego, logo a sua frente ficava o mágico que entre tantos números o que melhor executava era tirar luz, feijão e morada de dentro da mínima cartola. Havia também os piratas negociadores de ouro e documentos falsificados... A mais interessante dessas personas era o malabarista: de um lado um aro 20 velho de bicicleta circundado de facas e do outro lado o grande protagonista, vestido com uma calça de capoeirista e sem camisa, exibindo seu físico parcialmente definido (definido mais pela fome do que pela prática de exercícios) e em sua volta a multidão de espectadores curiosos, ansiosos para vê-lo mergulhando através do arco da morte, o que nunca acontecia. Ele ensaiava um salto, recuava, contava uma lorota, ameaçava pular, recuava... E de repente oferecia ao público uma pomadinha milagrosa, feita sei lá do que, que curava de dor de cotovelo a reumatismo. Observando tudo isso, em cada lateral havia um gigante. Na esquerda o erudito e histórico Teatro Municipal, e na direita a impávida e colossal loja de departamentos Mappin, elefante que divertiu muita gente, mas virou zebra e acabou morrendo.


Passado à praça, atravessava a Xavier de Toledo, seguia pelo Viaduto do Chá, onde o show continuava. O homem-bala confesso que não era uma figura querida, era só surrupiar uma bolsa ou carteira para vê-lo voar, e caso precisasse usar o canhão, a experiência tornava-se mais desagradável ainda para o (in)voluntário da platéia. As ciganas, as coloridas cartomantes, com o seu sexto sentido apurado de charlatãs, eram capazes de ler o futuro até nas tampinhas de garrafa, uma maravilha. Os camelôs faziam o papel dos pipoqueiros, vendendo suas bugigangas paraguaias. Os macacos adestrados e de uniforme chegavam todos de carro, estacionavam, desciam e ficavam observando o movimento. Mas é melhor não trata-los como macacos, Virgulino perdeu a cabeça por causa disso. No final do viaduto a visão não era agradável. Pedintes exibindo suas pernas podres passavam o dia ali, com o braço esticado na esperança de um trocado. Era uma ferida sobre a outra: gangrena ou trombose tornando o mendigo enfermo a pior feriada produzida pela sociedade. Havia um que não tinha os olhos, seus braços e dedos eram ossudos, vivia sentado todo torto, era uma figura impactante. Olha-lo era uma mistura de dó, indignação e escárnio. Talvez fosse mais digno que o farrapo se jogasse no vale do diabo, se estatelasse tingindo o chão de sangue e desigualdade. Quem sabe até estrelasse as primeiras páginas do Notícias Populares e alguém sentisse apenas dó dele. Mas ele era tão magrelo que era capaz de nem sangrar muito e não ser percebido. As feridas expostas incomodam e, querendo ou não, nos deixam um pouco frios.


Saia do viaduto, atravessava a Praça do Patriarca, seguia pela Rua Direita e prestava atenção em outras pernas. Na passarela calças pretas apertadas, saias azul-marinho, saltos altos, pernas torneadas, tudo aquilo era um colírio para os meu olhos juvenis. Às vezes parava em alguma loja em que havia uma pilha de fitas K7 em promoção e entre uma fita e outra admirava uma modelo. Na pilha nunca havia algo que prestasse, mas era bom sempre dar uma conferida.


Subia a Quintino Bocaiúva, dava uma olhada nas lojas de instrumentos musicais, chegava no Largo São Francisco e parava no Sebo do Messias. Praticamente eu batia cartão lá, sempre conferindo os vinis. O único lugar onde o cheiro de mofo não atacava minha renite alérgica era no Sebo.


Saia e em fim chegava na Av. Liberdade, me deparando com as últimas personagens da minha jornada. No começo da avenida tem um trecho que apelidei de “paredão das putas”. No final do horário comercial as lojas de Cine & Foto baixavam suas portas, e as meninas iniciavam a profissão. Ficavam enfileiradas ali de 15 a 20 mulheres. A que mais chamava atenção era uma grávida, com o barrigão enorme, na maioria das vezes de vestidinho agarrado de cor azul bebê (Freud explica). Eu passava entre chamadas - psiu, ei gato, ta afim?; oi... vamô lá? - e pensava - mal sabem elas que meu misero salário fica quase todo com a instituição da família Álvares Penteado... o que sobra dá para, no máximo, um hot dog no final do dia.


Chegando ao colégio encontrava os novos amigos, às vezes comia o dito hot dog, às vezes não, às vezes era uma “canoa na chapa”, com catchup e guaraná, às vezes não...


No final da noite era pegar o metrô o ônibus voltar para casa e tentar dormir antes que o dia seguinte chegasse, para acordar pela manhã junto com o galo e me preparar para viver mais um dia de responsabilidades e impressões lúdicas dessa cidade, que apesar dos pesares, ainda muito me encanta.

 

publicado por AB Poeta às 14:51
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