Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

pesquise

 

publicações

ossos do ofício

Quadra

Propriedade e produto

Artigo 219 do Processo (I...

Sentença

Lançamento: Comunicação s...

Passado presente (nada va...

Loucomotiva

Impressões de São Paulo -...

Vendo-me

Goelabaixo

Um dia de fúria

Valeu Charles!

O escritor de verdade

Pedindo emprego

29mim.

Carta de despedida

Entrevista - Manoel

Confira também



todas as publicações

subscrever feeds

Terça-feira, 24 de Março de 2015

ossos do ofício

 

atrás da mesa

do canil hospitaleiro

o cão cego guiado pelo dono

perdigueiro colabora

com a rotina adestradora

e sempre em guarda defende

carimbos que abrem portas

formulários infindáveis

assinaturas que materializam

computadores coisificadores

cargos redentores

sorrisos que afagam e afogam

a matilha subordinada

 

no final da lida

volta à sua casinha

e rói o que lhe sobra

os ossos do ofício

 

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 00:18
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 8 de Abril de 2013

Quadra

 

O trabalho espreme o tempo

que não cabe uma quadrinha

de todos o pior contratempo

sufoca toda a minha poesia

 

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 01:52
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Sábado, 22 de Outubro de 2011

Propriedade e produto

 

Nas esquinas da minha pátria

camelôs vendem

o dropes da amargura

por uma módica quantia:

a vida

 

O doce

produto

que se dissolve

na boca

limitasse a

um fechar de olhos

um pacote a prestação

um auto

um instante

 

E o sabor

extra-forte

da bala

não abala

a estrutura

 

Adquirir a própria vida

custa

(meu) caro

 

Clique no assunto: , , , ,
publicado por AB Poeta às 01:39
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 11 de Agosto de 2010

Artigo 219 do Processo (In)Civil

 

§ - Único

 

Quando minha citação ao

Pé do teu ouvido for válida

Tornarei prevento teu juízo

Teu corpo em litispendência

E faremos nossa coisa litigiosa

 

Quem nos julgar por isso será visto

Como incompetente que tem

A inveja como ofício

Decretando a perda de nossos

Direitos indispensáveis

Baseado em prazos decadentes

E atos preclusórios

(fica dito pelo interdito)

 

Pagarei a mora pela demora

Antes que teu olhar prescreva

Juro

 

Clique no assunto: , ,
publicado por AB Poeta às 15:30
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos
Sábado, 31 de Julho de 2010

Sentença

 

No tribunal dos puros presidido pelo ciclope negro

As litispendências são válidas e os prazos ignorados

Argüidos ou não, todos os atos são condenáveis e os fatos são fatídicos

 

As sete Górgonas, petrificando a justiça

Fazem todos virarem Hell

Sentenciando antes mesmo da citação:

 

Culpado!

Querelante e Querelado

Culpado!

Inepto, prescrito, contestado

Culpado!

Revel, incompetente, reconvindo

Culpado!

 

E assim seguem os ordinários:

 

Julgados a revelia e de maneira sumária

Num rito medieval onde só há testemunhas

 

Clique no assunto: , ,
publicado por AB Poeta às 16:42
link do post | comentar | ver comentários (4) | adicionar aos favoritos
Domingo, 4 de Julho de 2010

Lançamento: Comunicação sindical no Brasil: breve resgate e desafios

Sobre a autora: Claudia Costa é jornalista e professora universitária, convive com Comunicação Sindical desde 1987. Já trabalhou no Sindicato dos Médicos e dos Bancários do Rio de Janeiro, no Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP) e participou de inúmeras eleições sindicais pelo país. Também foi assessora de Organização da CUT Nacional e atualmente está na área de Comunicação da Conlutas. Em 2003 fez estágio no jornal sindical Labor Notes, em Detroit (MI -EUA). Sua dissertação de Mestrado é sobre as imprensas da Igreja, das organizações de esquerda e do Sindicatoi dos Metalúrgicos do ABC, no período da retomada das greves, ao final da década de 70.

 

 

 

 

O que diz a autora sobre a sua obra: "Os desafios cotidianos vividos pela comunicação sindical no século XXI são muitos. Entre eles, responder ao neoliberalismo e as suas implicações no mundo do trabalho. Como lidar com as novas tecnologias na área da informação - principalmente a internet - e conduzir as novas disputas políticas no interior do movimento sindical. A comunicação sindical tem diante de si o desafio de responder a essas questões precisando renovar-se e tornar-se atraente num mundo repleto de atrativos e de tantos discursos persuasivos. É um desafio conquistar espaço e credibilidade nos corações e mentes de nosso público quando as ofertas de informações são tantas - na forma e no conteúdo. Para tratar desses desafios do cotidiano, resgato alguns conceitos que influenciaram a maneira de fazer imprensa sindical no início do século XX no Brasil. Resgato também duas experiências importantes nas décadas finais desse século: a do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e a do Sindicado dos Metalúrgicos de São José dos Campos, ambos no Estado de São Paulo."

 

Livro: COMUNICAÇÃO SINDICAL NO BRASIL: breve resgate e desafios

Autora: Claudia Costa

Editora: Sundermann www.editorasundermann.com.br 

1ª edição - R$ 12,00

 

Lançamento: dia 07 de julho de 2010 - a partir das 19hs

Espaço Cultural Alberico Rodrigues www.albericorodrigues.com.br

Praça Benedito Calixto, 159 - Pinheiros - São Paulo/SP

Tels.: 11 3064 3920 e 11 3064 9737

 

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 14:23
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Sábado, 3 de Julho de 2010

Passado presente (nada valeu)

 

Mais Valia...

É o passado mais presente

E o presente mais sem graça

 

Nada é de graça

Nem a desgraçada

Graça divina

 

A Mais Valia

Ainda vale mais

 

E duro será o dia

Em que saberemos que

A Mais Valia

De nada valeu

 

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 13:39
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 21 de Junho de 2010

Loucomotiva

 

Leva o peão

Leva o peão

Leva o peão

Leva o peão

Leva o peão

 

De estação

Em estação

De estação

Em estação

De estação

Em estação

 

Sobe um montão

Desce um montão

Sobe um montão

Desce um montão

Sobe um montão

Desce um montão

 

Bate o cartão

A multidão

Bate o cartão

A multidão

Bate o cartão

A multidão

 

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

 

Piuiiiii

 

Arroz feijão

Arroz feijão

 

Piuiiiii

 

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

Repetição

 

Pra casa não

Ganha o patrão

Pra casa não

Ganha o patrão

Pra casa não

Ganha o patrão

 

E mais café

E menos pão

E mais café

E menos pão

E mais café

E menos pão

 

Reprodução

Reprodução

Reprodução

Reprodução

Reprodução

 

Tudo ilusão

Tudo ilusão

Tudo ilusão

Tudo ilusão

Tudo ilusão

 

Desce o caixão.

 

Clique no assunto: , , , ,
publicado por AB Poeta às 12:23
link do post | comentar | ver comentários (1) | adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Impressões de São Paulo - Liberdade

 

É difícil escolher e falar de um lugar de São Paulo, já que sou paulistano, sempre morei aqui e ando por toda a cidade, ou pelo menos por boa parte dela, desde sempre. Fica então mais fácil começar pelo começo da minha relação com Sampa.


Essa paixão, ou amor, ou dependência, não sei mais qual desses é que sinto, ou se sinto todos ao mesmo tempo... É, acho que é tudo ao mesmo tempo. Aqui tem que ser tudo ao mesmo tempo, senão não vai. Essa relação começou a ficar mais intensa quando entrei para o mercado de trabalho, em 89. Iniciei na vida corporativa como todo garoto da minha época e idade (14) começava, como Office-boy. Foi um ano de muitas mudanças: para mim, que a partir de então teria mais responsabilidades, para o Brasil, que depois de um período de ditadura estava prestes a realizar eleições diretas para presidente, e para o mundo, que assistia a bancarrota de boa parte dos camaradas vermelhos, iniciada com a queda do muro de Berlin.


Bem, mudanças geopolíticas a parte, uma alteração significativa na minha “georotina” era o fato de que eu concluiria o ensino médio num colégio próximo ao centro, mais exatamente na Av. Liberdade. Os amigos da escola de bairro ficariam para o final de semana. Nada mais de, ao término do expediente, correr e pegar o metrô lotado na República, baldear na Sé, ir enlatado até o Carandiru e depois ir pendurado no ônibus até o Jardim Brasil. Tudo isso para, tentar, chegar a tempo de assistir a primeira aula.


A minha rotina alterou-se. Saia do trabalho, um escritório que tratava de imóveis e seguros localizado na 24 de Maio, caminhava tranquilamente por toda extensão da rua sentido Conselheiro Crispiniano, o tempo agora sobrava. Às vezes parava na Galeria do Rock para admirar as capas de discos e estampas de camisetas, que em sua maioria retratava algum rockstar morto por overdose, ou algum outro motivo. As figuras que lá freqüentavam também eram bem curiosas. Punks, metaleiros, góticos e mais uma porção de outras tribos que eu não fazia idéia de como se chamavam ou se denominavam.


Passava pela Praça Ramos de Azevedo que era habitada por figuras quase que circenses: os homens-sanduíche, que divulgavam vagas de emprego, logo a sua frente ficava o mágico que entre tantos números o que melhor executava era tirar luz, feijão e morada de dentro da mínima cartola. Havia também os piratas negociadores de ouro e documentos falsificados... A mais interessante dessas personas era o malabarista: de um lado um aro 20 velho de bicicleta circundado de facas e do outro lado o grande protagonista, vestido com uma calça de capoeirista e sem camisa, exibindo seu físico parcialmente definido (definido mais pela fome do que pela prática de exercícios) e em sua volta a multidão de espectadores curiosos, ansiosos para vê-lo mergulhando através do arco da morte, o que nunca acontecia. Ele ensaiava um salto, recuava, contava uma lorota, ameaçava pular, recuava... E de repente oferecia ao público uma pomadinha milagrosa, feita sei lá do que, que curava de dor de cotovelo a reumatismo. Observando tudo isso, em cada lateral havia um gigante. Na esquerda o erudito e histórico Teatro Municipal, e na direita a impávida e colossal loja de departamentos Mappin, elefante que divertiu muita gente, mas virou zebra e acabou morrendo.


Passado à praça, atravessava a Xavier de Toledo, seguia pelo Viaduto do Chá, onde o show continuava. O homem-bala confesso que não era uma figura querida, era só surrupiar uma bolsa ou carteira para vê-lo voar, e caso precisasse usar o canhão, a experiência tornava-se mais desagradável ainda para o (in)voluntário da platéia. As ciganas, as coloridas cartomantes, com o seu sexto sentido apurado de charlatãs, eram capazes de ler o futuro até nas tampinhas de garrafa, uma maravilha. Os camelôs faziam o papel dos pipoqueiros, vendendo suas bugigangas paraguaias. Os macacos adestrados e de uniforme chegavam todos de carro, estacionavam, desciam e ficavam observando o movimento. Mas é melhor não trata-los como macacos, Virgulino perdeu a cabeça por causa disso. No final do viaduto a visão não era agradável. Pedintes exibindo suas pernas podres passavam o dia ali, com o braço esticado na esperança de um trocado. Era uma ferida sobre a outra: gangrena ou trombose tornando o mendigo enfermo a pior feriada produzida pela sociedade. Havia um que não tinha os olhos, seus braços e dedos eram ossudos, vivia sentado todo torto, era uma figura impactante. Olha-lo era uma mistura de dó, indignação e escárnio. Talvez fosse mais digno que o farrapo se jogasse no vale do diabo, se estatelasse tingindo o chão de sangue e desigualdade. Quem sabe até estrelasse as primeiras páginas do Notícias Populares e alguém sentisse apenas dó dele. Mas ele era tão magrelo que era capaz de nem sangrar muito e não ser percebido. As feridas expostas incomodam e, querendo ou não, nos deixam um pouco frios.


Saia do viaduto, atravessava a Praça do Patriarca, seguia pela Rua Direita e prestava atenção em outras pernas. Na passarela calças pretas apertadas, saias azul-marinho, saltos altos, pernas torneadas, tudo aquilo era um colírio para os meu olhos juvenis. Às vezes parava em alguma loja em que havia uma pilha de fitas K7 em promoção e entre uma fita e outra admirava uma modelo. Na pilha nunca havia algo que prestasse, mas era bom sempre dar uma conferida.


Subia a Quintino Bocaiúva, dava uma olhada nas lojas de instrumentos musicais, chegava no Largo São Francisco e parava no Sebo do Messias. Praticamente eu batia cartão lá, sempre conferindo os vinis. O único lugar onde o cheiro de mofo não atacava minha renite alérgica era no Sebo.


Saia e em fim chegava na Av. Liberdade, me deparando com as últimas personagens da minha jornada. No começo da avenida tem um trecho que apelidei de “paredão das putas”. No final do horário comercial as lojas de Cine & Foto baixavam suas portas, e as meninas iniciavam a profissão. Ficavam enfileiradas ali de 15 a 20 mulheres. A que mais chamava atenção era uma grávida, com o barrigão enorme, na maioria das vezes de vestidinho agarrado de cor azul bebê (Freud explica). Eu passava entre chamadas - psiu, ei gato, ta afim?; oi... vamô lá? - e pensava - mal sabem elas que meu misero salário fica quase todo com a instituição da família Álvares Penteado... o que sobra dá para, no máximo, um hot dog no final do dia.


Chegando ao colégio encontrava os novos amigos, às vezes comia o dito hot dog, às vezes não, às vezes era uma “canoa na chapa”, com catchup e guaraná, às vezes não...


No final da noite era pegar o metrô o ônibus voltar para casa e tentar dormir antes que o dia seguinte chegasse, para acordar pela manhã junto com o galo e me preparar para viver mais um dia de responsabilidades e impressões lúdicas dessa cidade, que apesar dos pesares, ainda muito me encanta.

 

publicado por AB Poeta às 14:51
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Domingo, 1 de Novembro de 2009

Vendo-me

Percorro as ruas paralelas
Do centro, procurando emprego
E me deparo com as donzelas
Que vendem o seu apego


Serei eu assim como elas?
Mesma história com outro enredo
Ou somos apenas sociais mazelas
Estigmas, frutos do desemprego?


De porta em porta, batendo
Sigo adiante, firme e atento
Vendendo minha força, meu corpo
Meu pensamento, meu sonho, meu tempo


Para alguém que há tempos
Desde os tempos dos campos
Senhores de engenho, tiranos
Hoje, capitalistas vorazes, insanos
Para mim, sempre com algum plano


Vendo-me assim, sinto-me um coitado
Sonhador bobo, num mundo pré-programado
Sem opções, onde o certo é o errado
E tudo mais pode ser comprado


Essa indiferença humana me consome
E antes que piore e eu morra de fome
Coloco minha máscara, invento codinome
E carrego uma placa ao peito: Vendo-me


Quem quer me comprar?

 

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 17:35
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos
Domingo, 5 de Julho de 2009

Goelabaixo

Estava sentado em minha mesa de trabalho, praticando meu ofício, como na maioria dos dias. Canetas, papéis, sistemas, minhas leais ferramentas serviam-me fielmente. O quadro negro, com inscrições quase rupestres, diziam-me o que fazer; como num plano militar: vencer o oponente era nosso objetivo. Soldados agitavam-se. Corriam para todos os lados, armados de formulários. O ataque não pode parar. Um vem em minha direção – bom dia – bate em minhas costas e segue. Havia algo errado, os pelotões murmuravam e olhavam-me diferente. Aqueles sorrisos não me agradavam. Continuei entrincheirado atento, com as armas em punho.


Enquanto passava os olhos num memorando, algo me chamou a atenção. Levantei a cabeça para ver o que era e tive uma visão horrenda: uma massa esverdeada, de olhar negro e fixo, vinha babando voraz em minha direção. A papada dele inflava e desinflava cadenciadamente, o que deixava aquela coisa escrota e amorfa mais avolumada. Sua pele parecia gelatinosa, gosmenta, uma carcaça que aparentemente fedia. Fiquei apreensivo. Suas patas ergueram-se em minha direção. Arregalei os olhos de medo, recuei o corpo. Elas agarraram meu pescoço. Seu toque era frio e pastoso. Começou a apertar-me, o que deixou-me sem ar. Abri a boca desesperado, emitindo um ruído de engasgo. O que eu mais temia aconteceu: aquela nojeira inumana começou a entrar na minha boca. Seu gosto era horrível, uma mistura de lama e mofo, um negócio azedo. Numa atitude desesperada, agarrei os braços da cadeira, mas ela não esboçou nenhuma ajuda. Nesse momento pensei em minha casa, o que não adiantou em nada, a sensação sufocante não passava. Fiquei sem reação, esperando que o final daquela cena medonha chegasse logo. Suas patas traseiras batiam em meu rosto, querendo, numa tentativa forçada, descer por minha garganta abaixo. E conseguiu. Tentei vomitar, mas não obtive sucesso. Senti-me um lixo, não podendo fazer nada. Forçosamente engoli aquela merda. Aos poucos fui recuperando o fôlego, cuspi um resto de barro embolorado. O silêncio que se fez na sala durante meu estupro foi cortante. Agora ele está alojado em meu estomago, e não posso fazer nada. Esse troço nunca será digerido e dói-me saber disso. Não conseguirei expeli-lo nem junto com meus excrementos. Para sempre estarei com aquilo.


Triste, voltei minha atenção à tela do computador. Atendi a algumas exigências burocráticas que a máquina pedia, continuei meu trabalho. Já conformado com o inevitável, esbocei um sorriso. Deu a hora do almoço, levantei-me e, junto com meus companheiros, segui para o rancho. A vida tem dessas coisas.

 

Foto: Everton Balardin e Marcelo Zocchio

 

Esse conto será publicado nos Contos Selecionados de Novos Escritores Brasileiros "Além da Imaginação" - da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Clique e veja.

 

Clique no assunto: ,
publicado por AB Poeta às 00:35
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Um dia de fúria

Texto escrito em 14/03/08.

 

Ele era uma pessoa normal, de modos simples como a maioria, mas um dia... o trânsito, desemprego, a desigualdade social, fome, miséria, enchentes, credores, poluição, aquecimento global, animais em extinção, desmatamento da Amazônia, gripe do frango, doença da vaca louca, crise aérea, mensalão, dólar na cueca, assaltos, roubos, assassinatos, furtos, desaparecimentos, seqüestros, cartões corporativos, nacionalização da petrobras na Bolívia, tráfico de drogas, capitalistas insanos, chefes idiotas, metas impossíveis de serem alcançadas, montadoras e montadores, falta de educação, evasão escolar, evasão fiscal, analfabetismo, propinas, lobby, interesseiros, aproveitadores, clientes chatos, colaboradores mais chatos ainda, cólera, dengue, carie, tosses, virose, enfarto, stress, dores de cabeça, de coluna, frieiras, doenças diversas, guerra no Iraque, na palestina, guerra nuclear, guerra fria, quente, morna, requentada no banho-maria, jogo de interesses, futebol corrupto, política corrupta, geopolítica, pessoas corrompidas por nada, prostituidas, mentiras, falsidade, sonhos vendidos, desilusões, desamores, dissabores, desgasto físico, mental, loucura, MPB, new metal, funky carioca, axé, soda cáustica misturada no leite, metanol misturado na pinga, crise do caqui, acidentes de carro, de moto, de trabalho, de percurso, rádio, televisão, big brothers, programas dominicais, segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados, carnavais, feriados, ônibus cheio, metrô cheio, lotação cheia, ruas cheias, saco cheio, impaciência, intolerância, imprudência, burocracia, overdose, overpoint, ovo podre, carne podre, comida vencida, remédio vencido, pão por kilo, gasolina, álcool, diesel, biodiesel, biotecnologia, nanotecnologia, transgênicos, frituras, gordura-trans, Windows, Apple, Linux, chineses, russos, indianos, migrantes, imigrantes, xenófobos, homofóbicos, anti-semitismo, orgulhosos, ideologias, democracia, aristocracia, monarquia, autoritarismo, governo militar, ditadura, dentadura, sem dente nenhum, sem comida pra usar os dentes, sem lenço, sem documento, sem lança, sem loló pra deixa lelé, tédio, rotina, tempo que passa rápido, tempo que demora a passar, mesmice, caretice, moderninhos, mauricinhos, patricinhas, promoções, aumentos, superávit, déficit, dívida pública, dívida privada, PPPs, privatização, estatização, sem terra, sem teto, sem faculdade, sem porra nenhuma, e mais uma série de coisas que não lembro... tudo isso ainda não o fez perder a cabeça.


Mas a gota d'água foi a cerveja quente servida no boteco! Ai ele não suportou!

 

 

 

Corra agora! Em breve num cinema bem perto de você.

Clique no assunto: , , , , ,
publicado por AB Poeta às 04:24
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Valeu Charles!

Texto escrito em 11/03/08.

 

Charles gostaria de agradecê-lo publicamente pela chance que você e o Pedrão me deram quando me aprovaram no teste para embalador. Já faz um tempão né cara (final de 2002), mas sabe como é: não podemos esquecer das origens, nunca! Com certeza nessa época já começava sua tendência para a área em que vai atuar agora, RH. Sou muito grato por isso, um momento de decisão de vocês dois que mudou muita coisa em minha vida, meu caráter, minha visão profissional (essa mudou muito). E como as coisas são: depois de ter “lombado” muita caixa na expedição, e ter percorrido outros departamentos, viemos parar aqui em vendas. E de passagem, como é para tudo e todos na vida. É engraçado essa fama de chato, que pessoas questionadoras como você tem. É gente assim que muda alguma coisa em qualquer lugar. O ruim disso é que as pessoas omissas se beneficiam com essas mudanças, mas não são capazes de perceber quem mudou o que e por que foi mudado... E ainda pior, pensam: MUDAR PARA QUE?

É isso cara, quem cria raiz é planta e quem fica parado é poste!

Valeu brother, bom novo trabalho, já que quem precisa de sorte são os incompetentes, os preguiçosos e os invejosos!

Como você gosta de ler, segue um trecho do Livro do Desassossego - Fernando Pessoa - um livro para pessoas desassossegadas.

Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade...

Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida.

Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

"Sou do tamanho do que vejo!” Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. “Sou do tamanho do que vejo!” Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas que se refletem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objetiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando.


"Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.


Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade largal aos grandes espaços da matéria vazia.


Mas recolho-me e abrando. "Sou do tamanho do que vejo!” E a frase fica-me sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer.

Fernando Pessoa

Clique no assunto: , ,
publicado por AB Poeta às 17:48
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Terça-feira, 9 de Junho de 2009

O escritor de verdade

Quando ele entrou na sala de espera da agência de empregos Great People Of Talent, viu o enorme número de candidatos socialmente vestidos que aguardavam a hora de serem chamados. Acomodou-se do jeito que deu, num dos poucos lugares vagos. O entrevistador, especialista diplomado em Recursos Humanos, pós-graduado em Psicologia Empresarial, doutorado em Analise Comportamental e com MBA em Gestão de Pessoas, interfonou para secretária:

 

- Luzinete, Luzinete! Oh Luzinete! Manda logoentrá o próximo aí que tá chegando a hora dalmoço!


- Sim doutor.

 

A menina pegou um dos currículos que estava na pilha sobre a mesa e chamou.

 

- É... Paulo Capivara. – O rapaz gesticulou com a mão.


- O Sr veio para a vaga de Auxiliar de Comunicação Interna, né?


- Sim, isso mesmo.


- Ok, pode entrar que o Dr Pancrácio está aguardando.

 

Levantou-se, tropicou na ondulação do gasto carpete, ajeitou-se, seguiu em direção à sala de entrevistas. Quando entrou viu um senhor com óculos de armação marrom, gordo, com o papo cobrindo o nó da gasta gravata, várias guimbas no cinzeiro e uma placa de alumínio sobre a mesa que pré anunciava: Dr. Aristeu Pancrácio Teutônico III. Cumprimentou-o com um aperto de mão, lhe disse bom dia, sentou-se na cadeira há frente da mesa, ainda olhando os mais diversos diplomas, honrarias e fotos que estavam pregadas na parede. Segurando a ficha, o doutor iniciou a entrevista:

 

- É... Sr... Paulo Capivara. É você?


- Sim, sou eu.


- Que bom, que bom. Então... veio pra vaga de comunicador ajudante interno?


- Exato, é para ess....


- É... tô vendaqui... no seu curríclo, você... formadem Letras?


- É, isso mesmo, me forme...


- Certo, certo... mas tô vendaqui... sem experiência anterior... Você nunca teve emprego?

 

- Sou escritor, e faço alguns bicos de redator publici...


- Ah, é artista!


- Não, não, sou escritor e...


- Inscritor, artista... é a memá coisa. – anotou em vermelho na ficha:
“inscritor/livros inscritos=”


- Teressante, teressante. É... quantos livrus... você tem inscrito?


- Um publicado e...


- Um! – riscou a anotação anterior “livros inscritos=” e escreveu:
“um livro inscrito”.


- O Sr é artista... mas tem só um livru?


- É!? escrevei um, meu primei...


- Quantos cêêê vendeu?


- Não sei ao certo, acho que de 100 a 150 exemplares...


- Não sabe? Como assim?


- A editora informa meio por cima, e não tenho como controlar porq...


- Tabom, tabom... Inscreveu... mas ninguém leu... então o pau cumeu! – gargalhou estridente, retirou os óculos para enxugar as felizes lágrimas.


- É né... - O candidato sorriu amarelo com o canto da boca, por obrigação, sua vontade real era grampear a língua do decrépito no risque-rabisque e retirar com o extrator de grampos, de forma medieval, os olhos do desgraçado.


- Ai, ai... tabom, tabom... – o entrevistador se recompôs – é... então, Sr... Paulo Carneiro.


- Não é Carneiro, é Capivara.


- Capivara, carneiro, coelho, são tudo roedores mâmifreros. – Disse com um ar sábio. Paulo não esboçou reação alguma.


- Então... Sr... Paulo Capivara, inscreve... é artista... mas ninguém compra seus livru...


- Bem, vendi sim, mas não sei o número exato de...


- A sim, sim... vendeu, vendeu... é verdade... sua mãe, avó... sua tia.... muita gente deve te comprado. – Paulo olhou para um ponto qualquer da sala, soltando o ar pesado contido nos pulmões.


- Então... a vaga é pra auxiliar comunicativo interno, mas... pelo quivejaqui... é... vai ser difícil...
sem experiência anterior comprovada, é... a empresa talvez nunqué alguém nesse perfil.


- Bem, estou a disposição, e essa vaga me inte...


- É, mas é talvez né... e talvez nué um sim, mas também nué um não... quem sabe... vou faze assim: vou guarda seu curríclo aqui, e... qualquer novidade aviso, ok.

 

Sem paciência alguma, mas mantendo a pose de candidato interessado, cumprimentou o Dr Pancrácio, agradeceu a oportunidade como se fosse única e seguiu para mais uma agência de empregos.
O Dr, já faminto, guardou a ficha do Paulo na letra “q” da gaveta de pastas suspensas – artista... rãn. Logo após interfonou para a secretária.

 

- Luzinete, Luzinete! Oh, Luzinete! Manda mais um aí que ainda dá tempo.


- Sim doutor.

 

A menina apanhou outro currículo na pilha, chamou.

 

- É... Nelso Ramires – O rapaz levantou-se.


- O Sr veio para a vaga de Auxiliar de Comunicação Interna né?


- Isso, vim para essa vaga.


- Ok, pode entrar que o Dr Pancrácio está esperando.

 

O candidato entrou na sala, cumprimentou o doutor e sentou-se, dando início a entrevista.

 

- É... Nelson Ramires... é você?


- Sim, mas não é Nelson, é NelSO.


- Ok, ok... Nelso, Nelson… é parecido né. – deu um sorrisinho – então... NelSO, a vaga é pra ajudante de comunicação auxiliar interno e... você temteresse né?


- Claro! Estou aqui para...


- Tabom, tabom... preciso dalguém que sabe inscreve BEM... o Sr tem experiência anterior?


- Tenho. Tai na fich...


- É verdade, é verdade... – leu na ficha: Experiências anteriores:
Balconista de Farmácia, 2 anos – Escriturário, 3 anos - Escrivão de Polícia, 8 meses.


- Ah, taqui... taqui. Enscrivão! Purque saiu da polícia?


- Muito violento, não agüentava mais, escrevia muitas barbari...


- Tabom, tabom... a vaga é sua. Votincaminha pra empresa. Vi quitem muita bagagem, tanto lê quantu inscrevê, bom isso! Vai ali, vai ali... fala com a Luzinete... vai te fala o procedimento.

 

Feliz, saiu o agraciado com o emprego novo. Os ponteiros já cravados no doze indicavam o merecido descanso. O Dr Pancrácio guardou a ficha do Nelso na letra “z” do arquivo, recostou-se na enorme e almofadada poltrona, acendeu um cigarro e interfonou.

 

- Luzinete, Luzinete! Oh, Luzinete! Pede pra mim um bife à cubana e uma caracú queu tô faminto.


- Sim doutor, vou providenciar. – Desligou o interfone.

 

- Ah... até quenfim me apareceu um inscritor de verdade! – De olhos fechados, tragou o cigarro.

 

 

Publicado também no blog do João Luiz do Couto

 

Clique no assunto: , ,
publicado por AB Poeta às 20:46
link do post | comentar | ver comentários (12) | adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Pedindo emprego

Bom dia caro amigo!
É por meio deste
Que eu a ti escreveste
Sem gesto ambíguo

 

Que te peço encarecido
Encaminhe meu currículo
Que se encontra anexo
Para seu chefe querido

 

Que é uma pessoa de bem
Trabalhador, inteligente
Humilde e contente
No oficio vai além

 

Você é meu chará
Sabe da minha situação
E não vai me deixar na mão
Sei que o entregará

 

Esse favor é de irmão
E espero que de certo
Pois no trabalho sou correto
Não causo decepção

 

Valeu meu caro amigo
Pela ajuda oferecida
Por ajudar na corrida
Rezo a Deus para estar contigo

 

Depois, na faculdade passaremos
No boteco beberemos
Problemas: esqueceremos
E às mulheres brindaremos e louvaremos (e outras cositas mas, se possível)

 

A minha imaginação
Já me chama a atenção
E em respeito a ela
Termino aqui minha redação.

 

Tenha um bom dia!

 

Clique aqui, faça do download do meu currículo e me ajude a sair da fila do desemprego.

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 15:24
link do post | comentar | ver comentários (2) | adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

29mim.

Acho que foi no final de 2002, na metade do segundo semestre, alguma coisa assim. Nessa época eu trabalhava de ajudante geral numa metalúrgica, pintando chave-fusível, acho que vocês nem fazem idéia do que seja isso, mas tudo bem. Fazia o turno da noite, e mais duas horas extras, todos os dias (noites). Entrava às vinte horas e saia às sete da manhã do outro dia. Trabalhar a noite é horrível. Alias, trabalhar já não é lá a coisa mais agradável do mundo, durante a noite então, é pior. Às vezes passamos por isso, aceitamos qualquer emprego só para não ficar em casa sem fazer nada... Fazer nada... Tão relativo.


Num dos finais de semana, havia combinado com um pessoal de irmos até um bar que tocava música ao vivo (rock’n’roll, claro) para fazer o que pessoas jovens fazem. Cheguei do trabalho no sábado de manhã, e como não conseguia nunca dormir de imediato (acho até que o período em que trabalhei nessa empresa foi o que menos dormi em toda minha vida) sentei na cadeira-de-balanço que havia no quintal de casa, com uma caneca de café quente e puro na mão, e acendi um cigarro (nessa época eu ainda tinha esse maldito vício). Fazia isso quase todos os dias. Ficava lá, pensando em nada, no vai-e-vem da cadeira, tragando e tomando, esperando a boa vontade do deus do sono (Hipnos) me contemplar com tal graça. Nesse dia, não sei o por que, não me esforcei muito para tentar dormir. Já eram quase onze da manhã, decidi ir para rua ver se encontrava alguém para bater um papo e, lógico, tomar uma cerveja. É, meus horários eram todos desregulados.


Voltei a tarde e, como já estava tudo combinado para a noite, fui tirar um cochilo. Lá prumas oito da noite minha mãe e minha irmã entram no meu quarto gritando “ganhamos!, ganhamos!”, acordei assustado, sem entender nada... Pela primeira vez em toda minha vida vi minha mãe pular! Mãe não pula, não faz essas coisas, fiquei espantado! E sem entender nada, ainda. Daí veio à notícia que todos os seres humanos (todos mesmo!) esperam ouvir um dia: ganhamos vinte e cinco milhões de reais na mega-sena! Claro que não acreditei, de primeira, mas para confirmar liguei num número de telefone que fornece o resultado do jogo e, para minha felicidade, era verdade! Nós estávamos milionários! E não foi só isso, fizemos à sena e a quina, primeiro e segundo prêmio, e tudo isso em apenas dois jogos. Pela primeira vez amei uma gravação de secretária-eletrônica. Liguei várias vezes. Ligamos a TV, na tentativa de ver o resultado para confirmar de vez que nós éramos os mais novos milionários do mundo, mas faltava 29mim para o jornal começar. Ficamos na espera. Nossas cabeças estavam a mil-por-hora. Imagine, você dorme um puta dum piãozinho duma porcaria de metalúrgica, e acorda um milionário! Começamos a fazer milhares de planos: casas, carros, viagens, montar um negócio... O que? Montar um negócio? Esse eu eliminei na hora! Trabalhei (ainda trabalho) a vida inteira, e quando ganho vinte e cinco milhões vou me encrencar montando uma empresa? Para que? A encheção de saco é a mesma, a única diferença é que você é o dono. Ta certo que é uma diferença considerável, mas, fala a verdade, você com uma grana dessas, podendo viver de renda, viajar o mundo todo, estudar o que quisesse, você abriria uma empresa? Deus me livre! Acho que fomos tão bem educados a trabalhar que, mesmo com a vida ganha, só pensamos nisso: trabalho, trabalho, trabalho... Nesse conflito de classes, empregado e patrão, todos se tornam escravos, e sem perceber, de um sistema capitalista que nos desumaniza e que nos ensina que o bom é ser das duas uma: ou empregado ou patrão; ou numa versão 2.0: empreendedor e colaborador; que merda, todos somos escravos do trabalho.


Trabalhar eu não iria “nem a pau”. Eu seria, no máximo, um artista plástico, um violonista excêntrico, poeta, filósofo, escritor meia-boca (tipo Paulo Coelho), seria qualquer coisa, mas desde que não fosse algo ligado a uma forma de trabalho mais trivial, dessas, que aprendemos a amar em quanto não a temos e nem a somos.


Meu pai foi o único que não gostou de ficar rico. Disse que os bancos passariam o dia atrás dele, tentando vender essas porcarias de serviços que custam muito e não ajudam em, quase, nada. O pior é que ele não deve ter percebido que isso já acontece, e já que isso já acontece, não é melhor que aconteça isso com nós na condição de milionários? Claro!


Bem, depois de muitas, mais muitas viagens milionárias, o jornal, em fim, começou. Todos fomos para frente da TV, até o cachorro. Parecia jogo do Brasil em final de copa do mundo. Por fim os números, e para desilusão geral da família, os números ditos não batiam com os nossos... Como não? Ficamos todos sem entender nada. Eu queria uma explicação, afinal, deixei de ser milionário mais rápido do que me tornei. Ligamos novamente para o telefone que fornece o resultado, e, para complicar ainda mais, os números batiam com os dos nossos jogos. Ai, para poder entender o que estava acontecendo, reconstitui toda a história. Minha mãe havia jogado o resultado do concurso anterior e, quando ligamos para conferir, ainda não haviam trocado a gravação... Então: ela fez o jogo, que era a repetição do resultado do último concurso, esperou durante a semana para obter o resultado do atual, ligou antes da gravação ser alterada, e ficamos todos achando que estávamos ricos! Perfeito! Mais real do que tudo isso só se realmente tivéssemos ganhado. Acho que nem preciso dizer que fiquei possesso.


Não fiquei rico, mas a sensação de estar, de ser, é indescritível. O pior é que havia recebido meu (misero) salário aquele dia e, como a noitada já estava confirmada, e eu pensando que estava milionário, eu ia detonar no rock’n’roll, ia torrar todo meu suado dinheirinho. Já estava até pensando como iria pedir demissão, assim do nada, sem dar bandeira de que fiquei milionário.


Imagine o seguinte: todas as possibilidades, desejos, realizações que o dinheiro pode proporcionar, eu tive em minhas mãos! Pelo menos por 29mim.

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 19:29
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Carta de despedida

Boa tarde a todos! 

 

Como é do conhecimento da maioria das pessoas dai, deixei de fazer parte do quadro de funcionários da empresa. Quero agradecer a todos por terem me ajudado durante o período em que fiz parte dessa grande família.
Desculpem-me se fui rude, grosso, briguento ou qualquer outra coisa do tipo. Sou assim mesmo, visceral! Visto a camisa do time em que estou jogando. Se alguma coisa atrapalha o andamento do meu trabalho, e o meu (nosso) trabalho é o que dá Vida a empresa, ai meu amigo, é melhor sair da frente. Ou você tem um ótimo discurso fudamentado e muito bem argumentado, ou... Não me atrapalhe! Pareço um pouco arrogante, mas se pararmos para pensar, não é o sistema, os métodos, os procedimentos, as máquinas que fazem com que a empresa ande, são as pessoas. O material humano (no maior sentido que a palavra humano possa ter). O intelecto. Um basta à burocracia . Viva o dinamismo, a agilidade! A empresa é somente: um nome que possui um número (CNPJ), que é reconhecido por toda a sociedade, perante a um contrato, e que tem uma localidade, vende produtos ou serviços, ou muitas vezes os dois, mas que sem as pessoas, esse ser chamado empresa, que foi inventado, não dá um passo a frente. Alias, não se move um fio de cabelo que seja!
Valeu pessoal da expedição! Flávio, que no começo ficou meio receoso para me contratar, mas graças ao Pedro e o Charles, que me avaliaram quando fiz o teste para embalador, e convenceram-no, as coisas (impressões) tomaram um rumo bem diferente. Obrigado Flávio pela confiança. Aos outros lideres, Lorival, Marques, David, Ronni, valeu pela força. O pessoal da antiga, Fabão, Baiano, Nivaldo, Zé Antonio, U2, Ronaldinho, Johannes (acho que é assim que se escreve) Geir, André (Príncipe), Jefferson, Hildebrando, Tião, Marcelino, Rafael, Mingalzinho, e mais outros que não me lembro agora, muito obrigado mesmo. Pessoal da garantia, Rose, Raimundo, Raimunda, Rinaldo, Leandro, o pessoal novo que está ai, mas não lembro o nome também, (os outros eu já citei) muito obrigado.
Cida, muito obrigado, você foi (é) uma pessoa que me ajudou muito ai dentro, acreditou muito no meu trabalho. Particularmente, você acreditou mais em mim do que eu mesmo. Sou muito grato!
Ao pessoal da cobrança (na época), Cris, Fabio, Luciana, Paulo, Oto, que me incentivaram todo o tempo em que estive trabalhando por lá.
Valeu todo o pessoal de Compras, SAC, Financeiro (ai Dudu tranqueira!), Política Comercial, Informática, Contabilidade, RH, muito obrigado a todos por me aturarem, porque, realmente, eu pesava na de vocês atrás de respostas para as minhas inquietudes profissionais.
Obrigado Cinthya, você também me ajudou muito.
As meninas do Restaurante, Marli, Solange, Mazé, Cida, Lurdes, o brigado pelo modo gentil e atencioso com que vocês me tratavam.
Pessoal da Exportação muito obrigado por me incentivarem a criar, a porem lenha nas minhas idéias. Maria José, Aline, Vannn, vocês são mulheres maravilhosas! Seu Jairo muito obrigado pela força (o Sr. também não é nada bobo, cercado de mulheres lindas!).
Obrigado Netto pela oportunidade na área comercial, Eduardo, Donizette, valeu, aprendi muito com vocês. Marilda, Viviane obrigado pelo carinho e atenção.
Galera do dominó, graças a vocês hoje eu me considero um atleta, e de peso, valeu!
Marcelo Molinari, Seu Jairo, Ronaldinho, Cristiano, Fabio Junio, Mauricio, Gerlucio, este ano o Peixe é TRI!!!!!
Oswaldinho e Davi, “demorô” para banda de vocês detonar! É só uma questão de tempo, e não a nada que ele não construa! Putz, lembra quando montamos a banda, eu vocês e a Raí... Então, a empresa não sabe a festa que perdeu.
Aos PCUenses, está no estatuto que demissão também é motivo para comemorar. Então Excelentíssimo Senhor Presidente Paulo, logo agendaremos uma caixinha. Valeu Paulão, acho que só de ter organizado o PCU, você já tem um lugar no Céu. E com OpenBar!
Edna, Idamar e Wagnão, muito obrigado, principalmente pelas risadas. Acho que a digitação é o dpto mais bem humorado da empresa. Pelo menos pra mim.
Pessoal de Ferragens (bando de tranqueiras) Milena, Cleiton (vulgo Cleitóris), Solange Maria, Janaina, Katita, Vanessão, Dani, Fabio Dábliu (W), Marcelo, O cara novo (não lembro o nome, pra variar), Jeremias, Solange Marchiotti, Mauricio, Angelica, Flávia, Paulo Galan, muito obrigado a todos pelos incentivos e, principalmente, por rirem das minhas piadas, estórias, histórias e mais um monte de maluquices que saíram da minha cabeça. Inclusive, tem um ditado que diz: Perco o amigo, mas não perco a piada. Acho que hoje ele foi reescrito: Perco o emprego, mas não perco a idéia! Sei que todos vocês sentirão saudades da minha torta, mas não fiquem tristes, mando uma de presente, para recordar os bons tempos. Valeu Willian, foi um ótimo aprendizado ter trabalho com você. Valeu pelas conversas sobre profissão, mercado, administração, sociologia, logística, marketing e mais uma infinidade de assuntos. Só as pessoas informadas estão à frente do tempo, parabéns você é um excelente profissional.
Muito obrigado aos meus companheiros (camaradas) amados do departamento, que aturaram a minha pessoa, minhas piadas, meus xingamentos, minhas crises nervosas e que adoravam a minha torta. E principalmente a de carne.
Valeu Nelsão pelos papos-furados, esses são os melhores de serem conversados. Você é um cara muito gente boa, não vale nada, mas é gente boa, continue assim.
Papito! O melhor vendedor da empresa! Roeu um osso “du inferno” no começo, mas no decorrer do tempo você mostrou o vendedor que é! Não tenho dúvida, da empresa você é o melhor. Depois de conhecê-lo passei até a acreditar que existe Uruguayo gente-fina. Fabiola.... (um suspiro) Ai ai... (Mais uma vez) Fabiola... A menina doce... Você é uma mulher inteligentíssima, uma profissional excelente e que sabe o que quer. Você não amarela diante de desafios, parabéns! Sentirei muitas saudades desse seu sorriso... Thatiana e Vanessa, trabalhamos pouco tempo juntos, mas foi muito bom, ri muito! Vocês estão chegando agora, mas não desanimem, tudo vai dar certo!
Leandro, sei que mudou de área, mas afinal, o tempo no dpto de vendas ainda é maior. Você é um cara extremante inteligente, uma excelente pessoa, alias, nunca conheci nenhum economista tão bom em língua portuguesa quanto você! Parabéns!
Saio daí sem medo e levando comigo a experiência, a gratidão e a amizade. Se esqueci de alguém, me desculpe, afinal foram cinco anos e quatro meses de empresa, e em diversas áreas. Vi muita gente passar...

 

10/04/08

 

...Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobra-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

 

Trecho de “O operário em construção” – Vinícius de Moraes

 

Clique e leia na integra.

Clique no assunto: , , , ,
publicado por AB Poeta às 20:26
link do post | comentar | ver comentários (7) | adicionar aos favoritos

Entrevista - Manoel

São nove horas da manhã do dia vinte do quinto mês, dirijo-me até sua residência, conforme havíamos combinado no dia anterior, por telefone, eu poderia a qualquer hora entrevistá-lo. Preferi pela manhã, pois sabia que estava trabalhando em mais uma obra - sua obra - então nada mais justo do que não incomodá-lo muito e realizar logo este trabalho.
Manoel, um senhor de sessenta e cinco anos, casado, quatro filhos, um neto e em plena atividade profissional. Fui recebido em sua casa, que me mostrou com orgulho, pois trabalhava em sua mais nova obra: O Sobrado; os tetos dos seis cômodos estavam no chão, e logo receberão uma laje e mais cômodos sobre ela, e, quem sabe, mais uma laje. Um sobradinho de três lugares, no fundo da casa, acomoda a família, que atualmente são em quatro. A filha casada mudou-se para Salvador, por motivos profissionais do marido, e levou junto o irmão mais novo, recém saído da faculdade, e que estava desempregado. Os dois, irmão e marido, trabalham na mesma empresa, que é do ramo das telecomunicações.
Aos dezoito anos, em 1961, Manoel desembarca em São Paulo, vindo de Pernambuco, numa cansativa viagem de ônibus que durou onze dias. Um comentário seu dá uma idéia do que foi essa “odisséia”: “...só vim conhecer asfalto em São Paulo. Antes, estrada, só de terra”. Em sua terra natal trabalhava na roça, com a família, como a maioria dos migrantes. Chegou sem emprego, com a cara e a coragem saiu em busca, já que estava na “terra das oportunidades”. Seu primeiro emprego formal foi numa construtora civil (o que explica sua atual função), onde ficou por três anos. Trabalhou em mais duas construtoras, numa por dez meses e noutra por três. Não disse o motivo de sua saída, de nenhuma delas.

Iniciou a vida acadêmica em Pernambuco, mas veio terminar, o que chama de “primário antigo” (que, na época, durava quatro anos), em São Paulo, pelo SESI (Serviço Social da Industria), em 1965/66. Em 1967 trabalhou na prefeitura de São Paulo como segurança, mas, nessa época já com três filhas, o baixo salário o fez desistir do funcionalismo público; ”...não sobrava dinheiro para nada. Nem pra uma camisa. Ou cumia ou vistia.”, disse. Mesmo assim ficou nesse emprego até 1976. Ao sair, quando entregou sua carta de demissão, ninguém acreditou, disseram-no que estava ficando “louco”. Mesmo assim foi firme em sua decisão.

O funcionalismo público, no Brasil, sempre foi visto com “bons olhos” (acho que o mais cabível seria “olhos grandes”), já que ninguém nunca é demitido; situação que é muito cômoda.

Sem emprego, e já com mais um filho a caminho, abriu uma empresa – 1977 - tendo o cunhado como sócio. Trabalhavam no ramo da construção civil, mas não deu muito certo. Três anos depois a empresa foi fechada. Partiu então para a vida autônoma, junto com irmão. Começaram a trabalhar como “pedreiro” (nome dado ao trabalhador da construção civil), oferecendo seus serviços a pessoas conhecidas, o que deu mais que certo! Não tinha uma região especifica de trabalho, aceitava todos que dessem um bom retorno financeiro. Até em outra cidade, caso fosse rentável. O que mais me chamou a atenção foi a resposta dada quando questionado sobre a capitação dos clientes (sempre pessoa física): “...nunca bati em nenhuma porta. Sempre fui procurado pelas pessoas.”. Realmente a melhor publicidade ainda é o “boca-a-boca”.

Sua média salarial depende muito da quantidade e do “tamanho” do serviço que aparece, mas mesmo assim disse que é entre um a dois mil reais/mês.

Sempre trabalhou da seguinte forma: vai até o local e faz uma avaliação, dá o preço da mão-de-obra e um prazo mais ou menos de quando fica pronto, pois sempre há imprevistos, tipo: o tempo (chuvas), quando o material acaba, etc... Sempre indica os fornecedores, mas a escolha final fica a cargo do contratante. Nunca foi assediado por nenhum fornecedor, os indicados por ele são conhecidos de muito tempo.

A concorrência também é muito grande nesse segmento. Muitas vezes é questionado o “por que” do preço, e ainda tem que ouvir que “fulano de tal” faz mais barato. Não se incomoda muito, muitas vezes acaba sendo o contratado, por já ter uma certa notoriedade. Isso gera confiança.

Hoje, está aposentado, pagou o INSS (Instituto Nacional de Seguro Social) por conta própria , e recebe em torno de dois salários mínimos/mês. Com a aposentadoria garantida, e todos os filhos formados e empregados, não “pega” muitos serviços como antes. Inclusive dispensou muitos por causa da construção que está realizando em sua casa.

Perguntei se estava satisfeito, respondeu com um sorriso leve e de maneira modesta: “é... da pra levar”. Terminei a entrevista, que durou cerca de meia hora, e ouvi um “já!” que saiu com certo espanto. Talvez ele tenha gostado de olhar para traz e ver a construção de sua história. Mas há verdade era que eu não queria mais incomodar um “artista” ansioso em ver a sua grande obra concluída.

 

* Entrevista realizada para fins acadêmicos em 20/05/08. A finalidade desse trabalho era traçar um perfil socio-econômico dos trabalhadores informais, nesse caso, os da construção civil, mais conhecidos como "pedreiros".

Clique no assunto: , , ,
publicado por AB Poeta às 18:23
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Follow ABPoeta on Twitter
Instagram

Compre meus livros


Livros por demanda



Poesias declamadas


Clique no assunto

todas as tags