Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Sábado, 17 de Novembro de 2012

Educação

 

I

 

Prove que isso prova!

Dê uma prova de que a prova

prova alguma coisa

 

A prova

ano após ano

prova após prova

prova o que não me aprova

como ser humano

 

II

 

O pátio está cheio

e uma bandeira foi hasteada

 

Famintas crianças correm

perdidas

atrás das grades

curriculares 

 

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publicado por AB Poeta às 13:48
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

Pão com manteiga

 

- Sai da frente, caramba! – apressado, pensou sobre uma senhora que atrapalhava a passagem na escada rolante. Sem paciência alguma, driblou a “vovó” e saiu da estação. Na Praça da Sé deu de cara com um senhor vendendo a sorte:

 

 – Vaca, galo, porco; vaca, galo, porco, olha o bilhete premiado! – o rapaz se aproximou e perguntou.

 

- É, por favor, aonde fica o Poupa Tempo?

 

- É logo ali, só atravessar a rua. – apontou com a mão.

 

- Obrigado. – Saiu com passos rápidos.

 

Chegando, ficou irritado ao ver o número enorme de pessoas no local, e com o excesso de informações sinalizadas nas placas, que mais atrapalhavam do que ajudavam. Foi ao balcão de informações:

 

- É, com licença, bom dia.

 

- Bom dia! O que posso estar fazendo para ajudar o senhor? – disse a moça.

 

- Como faço para renovar minha habilitação, para onde me dirijo aqui?

 

- É muito fácil – disse a garota com um sorriso maravilhoso nos lábios - o senhor segue pelo corredor A, vai ao posto B e retira a senha, preenche o formulário C, pega a guia D e paga no banco E, depois faz o exame médico no posto F, volta para o posto A e aguarda a sua senha ser chamada no painel G referente ao balcão H. É muito rápido e simples.

 

- Ok! Vou lá então. Muito obrigado. - respondeu pensando: puta que pariu, é hoje que não saio daqui. - Foi até o primeiro local indicado.

 

Depois de todo o procedimento feito, sua senha foi chamada, no balcão entregou o comprovante para a atendente:

 

- Hummm... o senhor fez o CFC?

 

- CFC? Não. O que é isso?

 

- É o curso de formação de condutores. Todas as habilitações emitidas de 1999 para trás terão que estar fazendo o CFC.

 

- Caramba... E como faço isso.

 

- O senhor vai até o Detran, no Ibirapuera, e pode fazer lá, depois volta até aqui e retira a habilitação.

 

- Ir até o Detran! Isso vai levar mais de um dia, não tenho todo esse tempo disponível!

 

- Ou então... o senhor pode estar fazendo numa auto-escola, que tem logo ali, do outro lado da rua.

 

- Certo. Obrigado.

 

Saindo do Poupa Tempo viu um cara de chinelo e bermudão falando sobre exames relacionados à carteira de motorista:

 

- Opa grande, aonde é que faço esses exames?

 

- Opa chefia, é logo ali, leva meu cartão aqui ó, é rapidinho lá.

 

- E quanto custa esse “exame”?

 

- Cem conto dotô, é o mais barato aqui da região.

 

- Certo! Obrigado. - foi até o local indicado no cartão.

 

Chegando, estranhou o local, era nitidamente uma garagem adaptada para escritório, feito com algumas divisórias. Haviam três “salas”: na primeira, falou com o proprietário do negócio e acertou o pagamento. A segunda estava vazia. Na terceira fez o teste:

 

- O senhor, por favor, desliga o celular, esvazia os bolsos e coloca tudo sobre esta mesa. Depois sente-se nesta cadeira, com as mãos sobre os joelhos. A câmera estará lhe filmando o tempo todo. – o rapaz ficou assustado com tamanhos cuidados tomados por parte do contratado.

 

Após todo o ritual feito, o contratado respondeu às questões da prova para o contratante e disse – aguarde aqui uns 20mim, eu já volto. O rapaz obedeceu apreensivo, já que estava só, numa sala esquisita e sendo filmado. Pensou tudo quanto era desgraça – vão me pegar aqui, estou ferrado! Vou aparecer no Fantástico, Datena, no Ratinho... – até que o cara voltou:

 

- Pronto! Aqui está seu certificado.

 

- Já! Que bom! Rápido né.

 

- Rapidinho!

 

Correndo voltou para retirar o documento:

 

- Aqui está o certificado – a atendente conferiu, anexou ao resto da papelada e entregou a habilitação.

 

- Obrigado! – respondeu.

 

Ao sair, correndo, para voltar ao trabalho, já no horário da tarde, olhou para o documento e pensou – caramba, deveria ter trocado essa foto.

 

Esse texto foi feito para a oficina Escrevivendo, e teve como tema "corrupção".

 

publicado por AB Poeta às 02:50
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

O (des)Caso Uniban(do)

 

O corpo discente não achando decente
Para o ambiente o vestido ardente
Da adolescente atraente
Agiu bruscamente e brutalmente
Deixando a situação inconveniente
Incontrolável, caos aparente.
Antes que alguém a violente
Solicitaram a polícia: “por favor se apresente”
A diligência chegou rapidamente
Levando-a dali velozmente
“vamos sair, antes que alguém lhe arrebente.”


O corpo docente analisando o incidente
Achou melhor ser condescendente
Com a massa acrania e valente
Expulsando a menina apressadamente
Dizendo: “se vestes vulgarmente,
A culpa agora, você que agüente”


A Sra. imprensa, que não discute candidamente
E trata um assunto importante vãmente
Também tem culpa no ocorrente
Difundindo a notícia inadequadamente.


Nós da Universidade, apesar do antecedente
Somos um exemplo, falando moralmente
De instituição, e orgulhosamente
Tomamos a decisão, cuidadosamente
De expulsa-la, por se trajar visivelmente
Fora dos padrões, e estamos crentes
Que foi justa e tomada sabiamente
Porque buscamos um ensino, religiosamente
Correto, e agimos disciplinadamente
E temos que ser sempre complacentes

Pois quem tem que educar tanta gente
Sabe que a razão sempre será do cliente.

 

 

publicado por AB Poeta às 11:16
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Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

E-mail: Hoje não haverá aula

Boa tarde pessoal!

Fiquei sabendo por uma doce boca que pairavam no ar rumores de que hoje não haveria aula, que a professora Elizabeth Casoy (irmã do Boris) não compareceria junto a instituição entitulada FMU, para cumprir com suas obrigações de educadora, frente a antitese professoriana chamada aluno.

Para desvendar esse mistério, proferido por doce boca, resolvi ligar para tal instuição e acabar, destroçar, esganar de vez essa dúvida, que aflige minha leve alma aprendiz.

Liguei lá e falei com a senhora (ou senhorita, não sei ao certo) Marlene, que trabalha na sala dos professores, adjunto a secretaria de nosso publicitário e propagandista curso. Ela confirmou esta informação: hoje, dia vinte e oito do quinto mês, dois mil e nove anos depois de Cristo, não haverá aula, a professora com nome de rainha inglesa, por motivos não revelados, não comparecerá à faculdade hoje. Os trabalhos (manual de identidade visual e esboços) terão que ser entregues na próxima quinta-feira, daqui a sete dias, contando a partir do dia de hoje.

Sobre os trabalhos que faltam finalizar, podemos nos comunicar por e-mail, como sempre, pois não irei comparecer à faculdade nos dias subsequentes ao de hoje.

Vejo vocês na segunda, com o coração cheio de saudades... saudades dessas pessoas que, assim como eu, pagam um determinado valor em moeda brasileira vigente, para fazer parte de um todo, de uma classe de futuros profissionais conhecedores da arte de comunicar!

Até.

 

Ass: André Al

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publicado por AB Poeta às 19:36
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Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Qual é o valor da educação?

Será que a educação tem preço? A educação acadêmica, essa tem, e não custa pouco. Hoje todos sabem que educar o filho numa escola do estado é uma tarefa dificílima. Descaso do governo, professores despreparados, infra-estrutura precária, algumas com merenda outras não, à distância de casa, violência, drogas lícitas e ilícitas... uma série de problemas sociais que depreciam o valor que é educar-se. Hoje não se valoriza mais o estudo em si, só tirar o diploma já ta valendo. Para nossos adolescentes, jovens, adultos jovens, o que vale mesmo é ter um calçado da moda, uma camisa descolada, uma “correntona” no pescoço, uma “caranga” potente, uma motoca, qualquer coisa que faça com que o outro enxergue nele um valor econômico (status), que mostre que ele tenha um potencial financeiro. Econômico e poder, poder e possibilidade... palavras que caminham juntas nessa distorção de valores da nossa atual sociedade capitalista.


A maioria das pessoas concordam com uma coisa: educação vem de berço, começa dentro de casa. Você pode ter dois jovens em situações financeiras bem diferentes, mas ambos bem educados; ou pode ter um pobre educado e um riquinho sem educação, ou um rico educado e um pobre não... O que conta mesmo são os valores morais ensinados pelos familiares. Meu pai me ensinou uma coisa que carrego comigo e procuro passar à frente, com muito orgulho: nunca faça um favor esperando outro em troca. Faça porque você quer fazer. Porque é bom fazer! Num mundo capitalista e interesseiro, como o nosso, esse pensamento hoje é quase que “coisa de monge”. A grande maioria faz um favor já pensando na possibilidade de pedir algo em troca. E esse ensinamento paterno que eu tive, tem um que de filosófico. Quando você faz um favor à alguém você pratica (acredito eu) uma boa ação junto ao próximo. E quando você o faz sem esperar nada em troca, nunca há a decepção da não retribuição. O primeiro passo para decepcionar-se com alguém é esperar, logo após lhe fazer um favor, que essa lhe retribua um outro. Favor e esperança podem resultar numa mistura amarga, desgosta. É preferível trata-las de forma heterogênea. (Dica de leitura: A Felicidade Desesperadamente – André Comte Sponville)


Transporte público é um lugar complicado. Hoje a intolerância das pessoas é algo visível. Ninguém tem mais paciência para nada. Qualquer esbarrão num coletivo já é motivo pra cara feia. Uma coisa que me irrita muito, são aquelas pessoas que colocam uma gigantesca mochila nas costas e ficam paradas no corredor como se fossem as únicas a habitarem a joça do ônibus! Tem uma galerinha que não tem noção nenhuma de espaço físico, de viver em coletividade. Isso é puro reflexo do padrão individualista que estamos vivendo, que estamos moldando e alimentando cada vez mais. Aconteceu uma coisa outro dia que, num primeiro momento, me deixou feliz, mas depois parei para pensar e vi que realmente os valores estão distorcidos. Estava eu dentro do bom, companheiro inseparável, e velho “bumba” (ônibus) – Pça João Mendes – dirigindo-me do trabalho para a faculdade. Sentei no melhor local que existe para se ir lendo: aquele banco de um lugar só, antes da catraca; ali ninguém me incomodaria com cotoveladas, bolsas enormes, som no último... Sentei e já saquei o livreto! Alguns pontos mais a frente subiu uma mulher puxando pela mão sua filhinha, deveria ter uns quatro ou cinco anos a menina, a mãe parou e fitou o fundo do ônibus tentando ver se havia algum lugar desocupado. Sem ter nenhum acento livre, ficou parada ao meu lado, segurando a pequenina pela mão. Eu, com o que acredito que seja o mínimo de educação, levantei e ofereci meu lugar para sentarem-se. Olhou mais uma vez a procura de uma vaga, e acabou aceitando a oferta. Fui em pé, na boa, ouvindo meu mp3 (perigo: sintoma individualista), viajando em meio aos meus devaneios psicopatológicos humanos cotidianos de sempre. E seguiu-se o destino. Chegou num determinado ponto do caminho, ela levantou-se, nitidamente havia chegado o local onde desceria, mas antes veio em minha direção e , de forma grata, disse – muito obrigada por me deixar sentar em seu lugar... olha, eu deixei sua passagem paga... muito obrigada! – fiquei meio sem entender, mas muito agradecido, falei que não era preciso e tudo mais. Logo à frente o coletivo parou e elas desceram. Agora vamos tentar entender o que aconteceu: uma mãe com sua filha sobe num ônibus e, vendo que não há lugares vagos, um rapaz sede o seu a elas. A mãe fica agradecida, e como forma de retribuir a gentileza, paga à passagem do cavalheiro. Com toda certeza ela ficou muito sensibilizada com aquele gesto, mas chegar a pagar a minha passagem... Da para perceber que gentileza, cavalheirismo e, principalmente, educação, estão virando práticas raras de se ver. Se todas as vezes que alguém agir com educação (ou com honestidade) tivermos que retribuir de maneira financeira, como se gentileza fosse um ato digno de premiação, putz, ai já era, os valores humanos foram para o brejo. Claro que aquela mulher tomou essa atitude de coração, fez por gratidão, mas ai é que mora o perigo: ela sentiu-se na obrigação de retribuir, e retribuir não é obrigação, obrigação é agir com compaixão, ser empático e, no mínimo, educado com o outro (acredito eu).


Depois disso tudo, continuei minha viagem durante a viagem, até que, eis que, surge a personagem final: o cobrador! Depois que a senhora desceu, o indivíduo olhou para mim com uma cara tipo “se deu bem nessa em”, respondi com um gesto qualquer com a cabeça e voltei minha atenção à paisagem lá fora, tomada audivelmente pela minha trilha sonora de bolso. Bem, chagava próxima a minha hora de desembarcar, então fui passar a catraca. O cobrador não olhava para mim, ou fingia que não me via, sei lá, se fez de loco... Falei para ele – por favor, passa o bilhete, a moça deixou minha passagem paga, não deixou? – ai veio o inesperado, responde ele – já sim, mas passa o seu ai, passa seu bilhete ai – caraca! Não acreditei na insinuação do cara. Ele queria se dar bem nessa! Queria ficar com os exorbitantes dois reais e trinta centavos que a mulher deixou. Ta certo que cada um tem a sua realidade, e que essa quantia tem um peso em cada bolso, mas pela cara dele... não era um necessitado, e sim um praticante inveterado da lei de Gerson.


Educar não custa caro: para educar alguém basta dar carinho, atenção, afeto, amor, dedicar tempo a esse, coisas assim, nessa linha, que não custam dinheiro, mas que também, nessa nossa sociedade capitalista, do jeitinho brasileiro, do se dar bem a qualquer custo, do ascender social, essas coisas não valem nada. Ta na hora de para pra pensar: Qual é o valor da educação?

 

"Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?"

 

 

Gerson, o "canhotinha de ouro", jogador de futebol campeão do mundo com a fantástica seleção de 70. O atleta foi garoto propaganda dos Cigarros Vila Rica (1976), onde proferia a celebre frase acima, que se tornou pilar da Lei de Gerson.

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publicado por AB Poeta às 15:54
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Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Legalização do aborto

Um dos assuntos mais polêmicos, e que é pouco discutido pela sociedade, é a questão sobre a legalização do aborto no Brasil. Em países ditos desenvolvidos essa questão já está em outros patamares. Nos EUA, por exemplo, o aborto é uma prática legalizada, o que não deixa de ser polêmico também, já que seus fervorosos opositores, na sua maioria religiosos, não deixam o assunto dado como encerrado.


Essa questão deixa exposta a grande diferença que há entre liberdade e democracia. Essas duas palavras meio que são entendidas como derivadas, mas na realidade, quando aplicadas, seus efeitos são geralmente contrários. A mulher que estiver grávida e desejar fazer um aborto, no Brasil, ela não o pode, pois existem leis que a proíbem de tomar tal atitude. Entende-se então que essa mulher não tem total direito sobre seu próprio corpo, não é “livre” para tomar decisões que afetam diretamente seu estado físico, sua vida social e particular. E o que gerou essa proibição? Uma lei que foi elaborada partindo de princípios democráticos! Mas, espera ai: a democracia é o regime que garante liberdade para seus regidos, mas essa mulher que quer abortar não tem liberdade para agir sobre seu corpo. Contraditório não? Não! A democracia faz valer a “vontade da maioria”, e quando você vota, você abre mão de sua liberdade, de seu direito individual e privado, para fazer valer a vontade da maioria. E como a vontade do povão, que é a maioria (mas ainda não percebeu isso), é a não legalização do aborto, então... Liberdade e democracia são idéias quase antagônicas. São paralelas: só se cruzam num distante e inatingível infinito.


Um grande problema, e acredito que seja o mais grave e longinquamente insolúvel deles, é que nossa sociedade não tem base cultural, nem informação suficiente para discutir essa questão. A maioria da população é semi-alfabetizada (estou sendo otimista), mal conseguem entender um misero parágrafo e articular uma frase com sujeito e predicado. Somos uma nação semi-alfabetizada do Gari ao Presidente da República, o que torna ainda mais distante qualquer tipo de entendimento sobre essa ou qualquer outra questão.


Algumas semanas atrás a questão da legalização do aborto foi levantada em sala de aula, o que gerou certa discussão. Metade acha que o aborto não deve ser legalizado, outra metade acha que não, que tem que legalizar. No meio do sim e do não apareceu somente eu com esta opinião: acredito que o homem (sexo masculino) não tem o direito de opinar sobre a questão do aborto, acredito que seja um assunto que tem que ser resolvido totalmente pelas mulheres. Fui questionado, por acreditar que não tenho o direito de opinar. Disseram-me até que estava tirando o corpo fora, correndo do assunto. Mas não é nada disso. Vou tentar esclarecer o por que dessa minha visão não opinatória sobre o aborto.


Vamos imaginar a seguinte situação: um cara qualquer sai com três mulheres, uma de cada vezes, e acaba engravidando-as. Esse cara será pai de três filhos ao mesmo tempo, e a única coisa que a lei o obrigará a fazer é pagar uma pensão alimentícia para seus futuros filhos. Suponhamos que esse futuro pai ganhe dois salários mínimos por mês e colabore na criação dessas crianças com um terço do salário. Todo mês ta lá: sua contribuição esta depositadinha, certinha, e esse nosso amigo livre de qualquer obrigação além pensão, e bem longe de ser preso. A lei está feita, seguida e cumprida! Mas me respondam: com essa quantia que é paga como pensão dá para criar um filho? Claro que não. E todo o peso da criação, responsabilidade, vai ficar a cargo de quem? Da mãe, claro! A lei obriga o pai a pagar a pensão, mas não o obriga a criar o filho, a dar amor ao filho, a dar atenção ao filho. Não o obriga nem a sequer a olhar para o filho. E qual é o peso social, a estigma, que um homem desse carrega? Nenhuma! No máximo vão chamá-lo de pai ausente, e mais nada...


A mulher carrega toda a estigma de ser mãe solteira, carrega todo o peso da criação, da formação, da educação da criança. Além de, claro, ter que dar amor, atenção, carinho, afeto, estar presente, coisas que a legislação não a obriga fazer, mas que as invisíveis leis sociais, que são as piores, cobram-na de maneira desumana.


Existem casos de mães que entregam (abandonam) seus filhos em orfanatos, igrejas, associações, e outras acabam indo muito além disso (acho que não preciso entrar em detalhes). Não defendo isso, mas pensem na estigma que uma mulher dessa carrega. Uma mãe que toma essa atitude será marginalizada para o resto de sua vida. Mesmo se for atrás do filho depois, arrependida. A sociedade não absolve uma mãe dessa, ela esta para sempre condenada a ser uma “desgraçada”... Mas e o pai? Cadê ele? Ninguém o cobra de nada? Não! A sociedade é tão machista que joga toda a carga ruim nas costas da mulher. A mãe solteira, por mais amor que dê ao filho, sempre será vista pela sociedade como uma “mãe solteira”, no sentido mais pejorativo possível da palavra.


Partindo dessa visão, acredito que o homem não tem nenhum direito de opinar sobre a questão da legalização do aborto, esse assunto tem que ser discutido, de forma séria, única e total pelas mulheres. São elas que tem que tomar as rédeas dessa discussão.


Outro lado ruim dessa questão é que muitas mulheres, que não tem condições de pagar para fazer um aborto mais seguro, em clinicas clandestinas, morrem de complicações (hemorragias) após abortarem. Um estudo realizado pela Federação Internacional de Planejamento Familiar mostra que setenta mil mulheres morrem por ano decorrentes de complicações pós-aborto, e todas em paises onde a pratica não é legalizada. No Brasil 63,8% das mortes maternais são registradas no nordeste e 9,5% dessas são de complicações pós-aborto.


O jornalista Gilberto Dimenstein, no livro Cidadão de Papel, mostra o relato da advogada Ana Vasconcelos, que realizou um trabalho social junto a meninas prostitutas no nordeste. Segue abaixo o estarrecedor relato:

 

MENINAS PROSTITUTAS

 

Quando começou a cuidar de meninas prostitutas em Recife, a advogada Ana Vasconcelos ficou intrigada ao ouvir uma expressão desconhecida e usada como sinônimo de aborto. De fato, é uma palavra estranha: "pezada".


Ela acompanhava uma descontraída conversa entre duas meninas. Uma delas contou que há dias tinha feito um aborto e, enfim, estava livre da gravidez que lhe tirava clientes da rua:


- Como tirou? - quis saber a menina que ouvia o relato.
- Foi com "pezada" - respondeu.
Ana se aproximou, curiosa. E perguntou:
- O que é "pezada"?


A advogada ficou estarrecida com a explicação. "Pezada" era levar um chute forte na barriga. Era um meio, segundo a menina, fácil e certeiro de fazer aborto. E, ainda por cima, barato - não necessitava de médico. Bastava a ajuda de alguém que se dispusesse a dar uma "pezada", o que não era difícil.


- Passei algumas noites sem dormir direito quando me contaram essa história de "pezada" - relembra Ana Vasconcelos, que, em Recife, trabalha há vários anos com meninas prostitutas, tentando recuperá-las para o mercado de trabalho.


Ela fez pelo menos três descobertas sobre o aborto estilo "pezada". Com os médicos que atendem em prontos-socorros públicos, soube que uma grande quantidade de meninas que se submetia a chutes no estômago era internada com infecções e hemorragias. Soube também com outras meninas que esse método era difundido entre prostitutas do Recife por ser barato.


A descoberta que mais a espantou, entretanto, foi como muitas delas se submeteram á "pezada". Ela entrevistou prostitutas e acabou descobrindo que os policiais do Recife provocavam muitos abortos com "pezadas", quando, por acaso, brigavam com meninas prostitutas grávidas.

 

A guerra dos meninos, Gilberto Dimenstein


Depois de ler tudo isso, você (homem) ainda acha que tem o direito de opinar sobre a questão da legalização do aborto no Brasil?
Nem ciência nem religião, essa questão tem ser posta a mesa e resolvida por vocês mulheres. Diante de vocês, sinto-me na obrigação de agir da única maneira que acredito que seja útil: ficando de boca calada!

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publicado por AB Poeta às 19:05
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Poliglotas semi-alfabetizados

Qual será o primeiro idioma que aprendemos a falar? Bem, se a primeira palavra que grunhimos quando criança for “gugu-dádá”, então não falamos nenhum. A não ser que “gugu-dádá” seja uma palavra originária de algum país por ai. Caso a primeira palavra seja “papai” ou “mamãe”, já começamos proferindo o bom e velho português. Mas se você foi uma criança dessas que não saia da frente da TV, a chance de ter começado já falando alguma palavra estrangeira, tipo Mc Donald’s, Volkswagen..., é muito grande, já que somos bombardeados pelos mais variados veículos de comunicação com palavras provindas de todo o mundo. Isso pode ser um reflexo de nossa origem, um povo multi-étnico, um catadão do mundo inteiro ao qual deram o nome de Brasil... Ou não, simplesmente aceitamos essa invasão léxica na boa.


Quando ingressamos na vida colegial, a proximidade com outro idioma aumenta, por que as aulas de língua inglesa fazem parte da grade curricular de qualquer escola de segundo grau brasileira. Apesar de estarmos cercados de países que falam Espanhol, a distância cultural se mantém gigante, e o máximo que aprendemos do idioma de nossos hermanos é através das letras de músicas de artistas como Menudo, Julio Iglesisas, Rick Martin... Que merda né! Para piorar ainda mais tem alguns artistas latinos, tipo Cristina Aguilera, Shakira, que colaboram para aumentar a hegemonia da língua inglesa (americana, pois na verdade ninguém quer ser inglês). Ah! Já ia me esquecendo de colocar a banda tupiniquim Sepultura nessa lista dos colaboradores.


Hoje, neste nosso mundo globalizado, muitas empresas exigem de seus candidatos, no mínimo, que o indivíduo fale, nem que seja de forma intermediária (um pouquinho mais que meia-boca), a língua inglesa. Vi um caso uma vez de uma empresa que perguntava para o candidato se ele também sabia gírias em inglês... Acho que o indivíduo que formulou essa pergunta nunca ouviu falar em regionalidade, ou pensa que as gírias são comuns em qualquer parte do país.

 

Com as multinacionais se instalando por aqui, a procura por pessoas que falem outra língua, além do manjado Inglês, é muito grande. Cursos de Mandarim, Francês, Alemão, Italiano, Russo, e sei lá mais o que, pipocam por toda parte. E pessoas em busca deles aumentam de forma proporcional. Legal isto, ver que o pião-de-luxo demonstra interesse em melhorar seu currículo afim de arrumar uma boquinha numa multinacional. Mas e o português, nossa língua pátria, como fica? O interesse em aprender o próprio idioma é minúsculo, chega a ser ridículo o número de pessoas a procura por um curso de português. Fica com o que aprendeu no colégio e já era. E isso é um problema grave, porque reflete direto na vida profissional. Algumas empresas chegam a contratar consultorias para fazer reciclagem no “portuga” de seus funcionários, pois a escrita errada prejudica muito a comunicação interna. Entender um simples e-mail mal redigido está se tornado uma dura tarefa. 

 

Queixas de candidatos que apresentam um currículo impecável e na hora de fazer uma entrevista deslizam na linguagem e escrita são muito freqüentes. Universitários formados, e até pós-graduados, também têm grandes dificuldades em se comunicar de maneira correta.
O interessante (cômico se não fosse trágico) de tudo isso é que hoje a maioria dessas pessoas (candidatos, universitários, pós-graduados...) tem em seu currículo algum curso de língua estrangeira. Alguns até com mais de um. O pior disso é que, além do português limitado, também não falam de maneira correta o outro idioma que dizem que falam.


O Brasil está se tornando uma nação de poliglotas semi-alfabetizados. Terrível.

 

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publicado por AB Poeta às 02:11
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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A pena mágica

 

Num mundo não tão distante, e nem tão ficcional, onde quem tem menos nas mãos pode vir a ser Rei, os conduzidos levavam suas existências guiando-se pelas luzes. A divina, essa sim iluminadora, não ajudava a populaça, pois ela era vista somente pelos virtuosos. As luzes utilizadas para conduzi-los eram as dos letreiros de lojas, de bares, dos cinemas, das propagandas, luz da TV... Mas no decorrer dos últimos anos um problema surgira: durante o dia a luz do Sol, que sempre causou problemas ao senado real, e que de uns tempos para cá vem ficando cada vez mais intensa, ofuscava as luzes dos letreiros e afins, atrapalhando, e muito, a condução das coisas. Sem essa luz para pautarem seus caminhos, os conduzidos logo ficariam a mercê das palavras contidas nas fachadas, e assim aprenderiam seus significados simbólicos, semânticos e elucidativos, e essa possibilidade de raciocínio sem controle produziu certo desespero na corte. A averiguação de falta de tal referência condutora durante a vigília deixou os autocratas preocupadíssimos, pois entenderam isso como uma ameaça à vida farta e luxuriosa dos cortesãos. Sem demora reuniram-se à procura de uma solução rápida e, de preferência, não tão custosa para o erário:


- Os luminosos durante a luz do dia não iluminam mais nada! E assim não guiam ninguém. Então como conduzir a plebe durante o dia, já que eles se guiam por estas luzes, as dos letreiros? Será que não é melhor recorrermos às...


- NÃO! Às palavras não! Para essas nem pensar! Elas, essas malditas, juntam-se e formam coisas terríveis... Formam FRASES!


- FRASES! ELAS FORMAM FRASES! Nossa, então o que faremos? Como evitar tal catástrofe! Não podemos deixar os conduzidos zumbizando por ai, sem luz guia e muito menos deixá-los expostos às frases formadas pelas palavras!


- Concordo plenamente. Temos que fazer algo a respeito. E de preferência sem recorrer às... Às... Não tenho nem coragem de repetir esse repugnante nome.

- Concordo, mas vamos fazer o que então?


- Já sei! Vamos utilizar a luz do fogo! Utilizá-la-emos porque, mesmo à luz do dia, elas, as chamas, são visíveis. E podemos apagá-las durante a noite, pois a luz da TV já os guia nesse período, e particularmente acho que ela faz isso muitíssimo bem.


- É uma boa idéia, mas já utilizamos as chamas para assar os pedaços de cadáveres de animais que caçamos, para alimentarmo-nos. Pode haver confusão. Os conduzidos podem não entender essa mudança e confundir as utilidades. Podem não distinguir os contextos...

 

- É verdade. Se isso ocorresse seria o caos do caos.

 

- Desgraçados são estes tais de conduzidos! Não fazem nada se não tiverem alguém que os mandem fazer! Que os ensinem a fazer! Não limpam nem o próprio cú direito se não forem corretamente adestrados.

 

- Concordo!

 

- Também concordo!

 

- Bom mesmo são os animais, que já nascem sabendo o que tem que ser feito. Já sabem para que vieram ao mundo. Equilibram-se coletivamente, cada qual com sua pré-determinada função existencial, de maneira perfeita.

 

- Concordo plenamente! Por exemplo: o João-de-barro: já nasce sabendo que tem que edificar a própria casa, e faz isso muito bem, com técnica e sem a ajuda de ninguém em... Sem dar um “piu” se quer.

 

- E insetos como as abelhas: constroem, dentro das colméias, milhares de hexágonos, simetricamente perfeitos, depois vomitam mel dentro, e tudo isso é comandado simbolicamente apenas por uma rainha; são mais de oitenta mil súditos operando ao mesmo tempo... Fascinante!

 

- É uma pena que não podemos transformar os conduzidos em animais, seria bem mais fácil, e útil, para nós.

 

- Já imaginaram que maravilha seria: não precisar mandar mais nenhum conduzido à Cia. Alfabetizadora... Economizaríamos milhares de moedas.

 

- É, mas pelo jeito a solução será gastar mais moedas com a Cia. Alfabetizadora, para letra-los e, conseqüentemente, guiar os conduzidos com a ajuda das... É, dessas ai mesmo que vocês estão pensando. Também não tenho coragem de dizer esse maléfico nome.

 

- É, não há outra solução... Acho que vamos ter que letra-los...

 

- É... Então vamos comunicar ao Rei, para que o decreto solucionador seja logo assinado, e livrarmo-nos rapidamente desse problema.

 

Naquela calorosa tarde o Rei já havia assinado uma série de vários outros decretos, o que o deixara com a mente cansada, exausto de tanto pensar, e sabendo a corte disso, caminharam todos receosos, com medo de alguma reação ríspida da parte de vossa majestade. Como não encontraram nenhuma outra solução, e o problema teria que ser resolvido o mais rápido possível, seguiram temerosos ao derradeiro encontro.


Quando adentraram na sala do Rei, ele estava sentado pensativo, com o olhar fixo no nada, imóvel e com um semblante não tão amistoso, apoiando o cotovelo esquerdo no respectivo braço do trono, com o punho cerrado e mantendo o queixo sobre, e a outra mão estava espalmada sobre a coxa direita...

 

- Com licença vossa majestade. – Disseram todos com a voz um tanto tremula. O Rei não esboçou nenhuma reação.

 

- É... Com licença, vossa majestade. – repetiram – se for incomodo voltamos outra hora...

Lentamente o Rei recostou-se, com a coluna ereta e o queixo erguido, repousou seus braços nos braços do trono, passando um ar de soberania e prepotência para com os nobres da corte, e disse:

 

- Sim. O que querem... O que os trazem aqui?

 

- É, desculpe-nos, vossa majestade, pelo incomodo...

 

- E por um acaso vocês sabem fazer outra COISA! Além de me causarem incomodo.

 

- É que... Que... Temos um problema e... Não conseguimos resolve-lo... - O Rei pôs-se a rir, levemente sarcástico...

 

- Grande novidade! Digam logo o que querem! Qual é o problema?

 

- É que... - Um outro palaciano interveio e disparou a dizer sem pausa...

 

- São as luzes que guiam os conduzidos durante a luz do dia por causa do sol rei astro os letreiros não iluminam nada consequentemente assim não guiam os conduzidos deixando essa tarefa apenas para a TV à noite e a luz do fogo não pode ser utilizada por que os conduzidos podem não entender e será o caos do caos e...

 

- CALE-SE! - urrou o Rei - Você é louco ou o que? Perdeu as estribeiras! Quer apodrecer na masmorra! Eu já sei o que está acontecendo!

 

- Sabes?! – Alguns murmuraram.

 

- Claro que sei! Tenho diversos informantes. Ou achas que deixaria a ordem do meu reino nas mãos de vocês! Áulicos idiotas!

 

- Se vossa majestade já sabe, então, por favor, diga-nos o que fazer.

 

- Sim, claro. Já pensei, pensei, pensei, e tive uma grande idéia. Vamos utilizar as palavras!

 

- Oh! – Disseram todos os cortesões, em uníssono – às palavras! Mas não é custoso e, pior, perigoso, recorrer às palavras? E se elas dominarem os conduzidos? Se isso ocorrer, podem eles virarem-se contra nós! E a Cia. Alfabetizadora? Teremos que erguer aos montes, e isso será muito custoso. Gastaremos muitas moedas!

 

- Vejo que letrar-se é mesmo privilégio de poucos. Eu não disse “recorrer às” e sim “utiliza-las”.

 

- Mas, como assim utiliza-las, vossa majestade. Perdoe nossa singela ignorância.

 

- É muito simples: precisamos somente simplifica-las. Torna-las menos complexas e mais práticas... Para nós, claro! – Quase todos riram a meio tom de maneira maliciosa.

 

- Ah! Entendi, e só mudarmos as regras do jogo! Oh, meu Rei, sua idéia é simplesmente genial. Mas... Vamos mudar isso como?

 

- Simples: assinarei um decreto mudando as regras, removendo sinais e acrescentando símbolos. Reordenarei tudo. Fazendo isso todos entenderão, pelo menos um pouco, as palavras, e assim esses ai, os conduzidos, podem guiar-se “sozinhos”, sem custo algum para os cofres e, melhor, não representarão nenhum tipo de ameaça a nós. – Todos riram em tons diferentes de satisfação.

 

- Viram como é fácil de resolver nossos problemas! Tragam-me agora papiro e pena tinteira. - Sentaram-se todos a távola, com a majestade na cabeceira, e foi assinado o decreto.

 

- Obrigado vossa majestade! Sem vossa inteligência não sei o que seria de nós.

 

- Eu sei disso! Agora, mandem chamar o poeta. Mandem-no registrar em poesia todo esse acontecimento histórico, que ficará para a eternidade...

 

- Sim, vossa alteza, seu desejo é mais que uma ordem.

 

- É... E vocês queriam investir na Cia. de Alfabetizadora... São uns dementes mesmo! – Após proferir, o Rei sentou-se soberano ao trono.

 

Rapidamente chamaram o poeta, que ao saber do ocorrido sentiu-se ferido, pois sua paixão, além de já ter virado um ofício, havia sido lesada. O que ele levou tanto tempo para aprender, debruçado dias e noites sobre sábias escrituras, já não valia mais de nada. Transcreveu o fato em poema, como era de vontade do Rei.

 

- A vontade do Rei é a nossa vontade também... E triste, de pé sobre o púlpito da ágora, recitou poeta:

 

A luz que guiava-nos, um dia
Sumira, sem dar explicação
Deixando conduzidos a deriva
Perdidos, atrás de solução

 

A chama acesa ilumina
Mas não com precisão
A TV, só à noite essa
Ajuda na condução

 

De dia o Sol brilha muito
Ofuscando a visão
E deixa as palavras expostas
Ameaçando cortesãos

 

O Rei, vendo aquilo
Agiu com precaução
E disse: Tragam-me papiro e pena
Vou acabar com a sofreguidão:

 

 

Assinar um decreto irei
Mudando a legislação
E as palavras, que antes ninguém lia
Não trarão mais aversão!

 

E assim foi feito
O Rei, que tem bom coração
Com uma simples assinatura
Alfabetizou toda a nação!

 

- Vida longa ao Rei!

 

- VIVA!

 

Após a leitura, o Rei foi aplaudido.
 

 

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publicado por AB Poeta às 00:45
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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Desejar o bem sem olhar a quem

Acho que todos nós aprendemos isto desde criança: nunca deseje aos outros o que você não quer que lhe aconteça. Ou, pelo menos, algo parecido com isso... Ou nessa mesma linha. Mas uma coisa é certa: o bem é algo a ser ensinado; a virtude é algo a ser ensinada. E muitas vezes quem nos ensina isso é a experiência.


Segundo psicanalistas (Jung é pai desta teoria), todos nós carregamos em nosso inconsciente um arquétipo chamado sombra, que é responsável pelos nossos atos (pensamentos) violentos e, socialmente, inaceitáveis. A sombra é o lado “primitivo” do homem, que foi gradativamente, durante todo seu processo de “evolução”, sendo reprimida no inconsciente através dum processo social de “educação” (adestramento) que sofremos durante todo o decorrer de nossa história. De vez em quando ela da às caras. Nos momentos em que explodimos numa fúria cega, é ela, nossa amiguinha, que bota lenha na fogueira. O Self, arquétipo responsável pelo “equilíbrio” do inconsciente, é quem da uma “segurada de onda”, canalizando essa violenta energia para outros arquétipos, aliviando-nos, e afundando no sub, cada vez mais, a sombra.


Somos naturalmente violentos, mas, ainda bem, que inventamos o Bem, que nunca é absoluto, mas que faz com que pensamos que há algo sublime a alcançar, e isso nos ajuda a esquecer que temos esse tipo “ruim” de natureza. Mas, tudo bem, não é para falar sobre isso que escrevi este, e sim para contar uma história que vivi e que tem tudo a ver com o título deste acima.


Amigo secreto, essa brincadeira (pé no saco) que se faz, geralmente, em final de ano, onde um grupo de pessoas escreve seus nomes em pedacinhos de papel e depois sorteiam os papelotes (no bom sentido) entre si, não participei de muitas, mas fiz parte de uma que me deu uma boa lição.


Participei duma dessas brincadeiras na época de colégio. O combinado foi que, ao invés de comprarmos presentes mais tradicionais, como roupas, discos (na época), essas coisas assim, presentear-nos-íamos com chocolate. Poderia ser em barra, caixa de bombom, etc.. Não me recordo do nome na menina que tirei no sorteio, mas lembro que beleza não era sua maior virtude... Para ela, comprei uma barra dessas grandonas, recheada com pedacinhos de amendoim. Não lembro o nome, nem marca, de tal guloseima, recordo somente que vinha numa embalagem de papel de cor amarela e tinha um nome curto escrito em vermelho. Cursava no horário vespertino, e entrava na aula próximo ás 13hs. Sai naquela tarde, visualmente corriqueira: ônibus passando, os botecos abertos, grupos de pré-adolescentes uniformizados com avental branco, seguindo em direção a instituição de ensino estatal... Tarde que era diferenciada somente por ter como data o final da brincadeira. Segui pela rua e, ao dobrar a esquina, encontrei com um amigo meu de sala (amigo próximo meu até hoje), e logo iniciamos uma conversa sobre o acontecimento que estava por vir. Perguntou-me se já havia comprado o presente para meu secreto amigo, respondi que sim, o que era, mas não revelei seu nome. Ele comentou que ainda não havia comprado seu presente, e que passaria, antes da aula, no mercadinho que ficava (ainda fica) na esquina posterior a do colégio. Fomos juntos. Chegando lá havia muitas opções de presente, o que gerou certa dúvida do que comprar. Pediu minha ajuda (opinião), e acabou decidindo por uma entre duas caixas de bombons. Uma das caixas continha um número maior de unidades, acho que trinta, ou algo perto disso, mas por isso tinha preço mais alto. A outra, a escolhida, tinha um número menor de unidades, dezesseis bombons, mas o principal atrativo, segundo meu ponto de vista, era que o preço acompanhava essa redução quantitativa.

 

Então perguntou para mim:

 

- E ai André, qual das duas você acha que devo comprar?


- A mais barata, claro! – Respondi “na lata”.

 

- Mas a outra não está tão mais cara assim. E, pela quantidade de bombons que vem na caixa, acho que o preço compensa. – Disse com visível empatia pelo amigo que seria futuramente presenteado.

 

- Tanto faz. O que importa é que você entregará o presente. E, melhor ainda, vai lhe sobrar uma grana! E o cara, esse, nem vai saber mesmo... – Respondi com total indiferença.

 

- Ah, então vai essa mesmo. – Seguimos para o colégio.

 

Chegamos à sala, todos já eufóricos para saber quem foi quem que tirou quem, quem que ganhou o que, quem ganhou o que de quem... E assim foi até a professora chegar e dar início ao final do jogo misterioso. No começo é sempre o mesmo suspense: um vai até a frente da sala e começa a descrever seu amigo secreto, até descobrirem quem é, e nesse espaço de tempo todo mundo fica, é fulano, é cicrano... E, quase nunca, ninguém acerta. Chegou à vez desse meu amigo, e minha ansiedade aumentou, pois como eu instantes antes havia ajudado a decidir na escolha do presente, queria saber quem era o indivíduo a ser contemplado. Ele começou a descrevê-lo, dando risada. Ai a classe ria junto, e eu ria junto com a classe. Descrevia... Dava risada... A classe ria... E eu, ria junto com a classe... Com a caixa na mão, chegada à hora de falar o nome do agraciado, olhou para mim e riu...
Adivinhem quem ele tirou!

 


 

Downloads:

 

IRA! - XV Anos

 

Álbum completo:

 

IRA! - Vivendo e não aprendendo

 

Para ler:

 

André Comte-Sponville - O pequeno tratado das grandes virtudes

publicado por AB Poeta às 22:04
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