Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Ônibus 174 (Documetário)

Mais um dia dos namorados. Tinha tudo para ser um dia normal, ou, pelo menos, somente com a violência rotineira de sempre. É, ela hoje faz parte do cotidiano, infelizmente. Bem, tudo normal, menos para quem pegou, no dia doze de junho de 2000, o ônibus 174 (Central – Gávea) no Rio de Janeiro. Em frente ao Parque Laje, no tão famoso bairro do Jardim Botânico, Sandro Barbosa do Nascimento, ex-menino de rua (ex porque ele cresceu e virou jovem de rua, e não porque sua condição havia mudado) rendeu o ônibus, e o que era para ser “somente” um assalto, virou o famoso caso do Ônibus 174. Foram quatro horas de terror para os reféns, que ficaram na mira de Sandro, e quatro horas de um “Show de horrores”, regado com muito ibope, transmitido ao vivo em rede nacional. O caso acabou de forma mais que trágica. Duas mortes: uma professora, morta pela, mais que nítida, despreparada polícia. E Sandro, um jovem (ou melhor, mais um jovem) brasileiro miserável, morto pelo mesmo assassino: o despreparo, o descaso. Sandro: assaltante do ônibus, mas sem roubar nada; roubado. Assassino sem morte; morto.


No documentário, José Padilha disseca a vida de Sandro, desde sua infância, marcada pelo assassinato da mãe, as prisões por roubo, a chacina da Candelária, familiares, até o seu conturbado último dia. Fica nítido como a violência cresce de forma espiral, um círculo vicioso sem interrupção. O caso ficou muito marcado também pelo despreparo da polícia, que não tomou nenhuma atitude, conforme seus manuais, e pela omissão das autoridades políticas, que não queriam que um atirador explodisse a cabeça do assaltante diante das câmeras. Erraram. O fim foi bem pior. O interesse político reinou mais uma vez. Ninguém quer que sua gestão fique manchada com sangue, produzido por um disparo da polícia, espirrado da cabeça de um marginal. E tudo transmitido via satélite. Isso explica os depoimentos indignados dos policiais, já que treinam muito, mas na hora em que a teoria tem que ser aplicada, a omissão dos superiores os impedem. Dinheiro público gasto para nada. Talvez isso tenha inspirado o diretor a fazer o filme Tropa de Elite (2007).


Para quem quer reconstituir alguma história, assistir ao Ônibus 174 é fundamental. José Padilha, com olhar apurado, mostra como nasce, cresce e morre a violência, ajudada pelo despreparo policial e a negligência das autoridades políticas.

 

 

Assista: Ônibus 174 (Brasil, 2002) – Direção de José Padilha.

 

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publicado por AB Poeta às 04:09
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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Ser e Ter (Documentário)

George Lopez é professor de uma pequena escola na região rural da França, na pequena cidade de Auvergne, onde leciona para uma turma de 13 alunos, de quatro a treze anos, escola de uma turma só. Muito parecida (guardadas suas devidas proporções, claro!) as escolas no interior da região norte/nordeste do Brasil.


Com a câmera parada e sem nenhuma interferência no dia-a-dia da escola, o diretor Nicolas Philibert capta toda a relação humana que se constrói durante o ano letivo. Aos cinqüenta e cinco anos, trinta e cinco deles de profissão, o professor George Lopez, que mantém certa rigidez na sala, conquista o respeito de seus alunos falando de uma forma direta e clara, e sempre sendo atencioso com sua turma.


O documentário levanta a questão do relacionamento na escola, dos professores com os alunos, e entre alunos. É uma realidade bem diferente, já que se trata de uma escola de uma cidade pequena, mas mesmo assim, deixando esse fato de lado, onde foi parar o relacionamento afetivo entre professor e aluno? Ser e Ter é calmo, tranquilo, bucólico e, às vezes, invejável. É um cotidiano simples, distante dos das grandes cidades. É um documentário que mostra que há sim possibilidade de algo melhor, com relação à forma de aplicação do ensino.


A curiosidade das crianças é uma atração a parte. Mesmo com a presença constante da câmera, o documentário não perde sua naturalidade.
Um outro valor apresentado foi à ajuda dos familiares nos deveres escolares. Hoje, devido a essa pressa constante (que nunca acaba e, pior, nunca chega a lugar algum) a família é cada vez mais uma unidade diluída. Todos trabalham, e quando chegam em casa, cada um tem seu canto. O dever-de-casa do filho não é mais feito com o auxílio dos pais, e sim somente com o dos professores. É pena, pois não há tantas (estou sendo otimista) escolas como a retratada no documentário.


Não consegui criar uma relação direta do nome com o filme. Talvez algo entre Ser aquilo e Ter aquilo? Não sei. Mas o olhar final do professor, quando chegou o final do período escolar, em que os alunos saem de férias, foi o que me chamou a atenção: se Sou professor, quando Tenho alunos, o que Sou, quando não os Tenho? Um olhar perdido...

 

Assista: Ser e Ter (França, 2007) – Direção de Nicolas Philibert

 

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publicado por AB Poeta às 21:32
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