Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

MundoMundano e o seu novo mundo

 

Está à venda o 2º livro do MundoMundano. Nessa edição foram publicados dois textos meus!

 

Compre-o!

 Clique aqui e saiba como adquiri-lo.

 

publicado por AB Poeta às 18:55
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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

2º livro do MundoMundano

 

MundoMundano se prepara para lançar seu segundo livro de contos, crônicas, poesias e afins, e eu tenho a honra e felicidade participar dessa segunda edição.

 

Todos estão convidados para a festa de lançamento.

 

 

publicado por AB Poeta às 12:52
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Sábado, 12 de Março de 2011

Carnaminiconto

 

Vestiu a máscara e caiu na folia. Quebrou a cara.

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publicado por AB Poeta às 02:23
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Domingo, 19 de Dezembro de 2010

Retrato

É engraçado como não esqueci, mas ao mesmo tempo esqueci uma paixão antiga que tive. O que chamamos de primeiro amor então, nunca saiu da lembrança, mas também não ficou para a vida. Em algum lugar do saudosismo, esses sentimentos, muitos deles juvenis, habitam e só são solicitados hoje em rodas amigas de bate-papo “das antiga”, ou às vezes aparecem em momentos de solidão fazendo papel de anti-heróis; vêm e me dão um sorriso que ponho cara de imediato, talvez uma lágrima no canto do olho brilhoso o acompanhe, e uma sensação de ternura ocupa e repousa no corpo nesse momento, mas depois acaba o revival e a lembrança volta para o arquivo semi-morto da mente e meu corpo volta a ser a carne humana que sou, ou que me transformei.

 

Revirando as bagunças que guardo na parte alta do guarda-roupa - parece até uma representação física da memória: a parte alta do guarda roupa – encontrei a caixa que embalou meu primeiro par de sapatos de couro preto, praticamente marco início da minha vida adulta. Hoje essa mesma caixa, toda remendada e sem muito de sua cor original, guarda uma porção de papeis que nem sei se valem algo ou se servem para alguma coisa, alguns documentos amarelados e fotos de uma época que só a saudade é capaz de lembrar.

 

É impossível não sorrir diante das fotos da turma: gente que tinha mais apelidos do que nomes, vontades do que dinheiro e um tipo de alegria que só se tem quando se é novo. Festas, festas, festas e mais festinhas, tudo era motivo para festa. E foi numa dessas, na de quinze anos da Juliana, que tirei este retrato: eu de braço dado à princesa da festa, e meu amigo Jorge, conhecido também como “cabeção”, com a princesa que eu queria ter. Nós quatro, lado a lado, formando casais que não me interessavam.

 

Eu era apaixonado pela Mara. Nada era mais divino do que vê-la dançando naquela noite: tudo se rendia aos seus pés bailarinos, cadenciados harmoniosos por Richard Strauss, a coadjuvante lua jogava luz sobre a pele sedosa do seu vestido que refletia paz e iluminava a pobreza dos olhos murchos de embriaguez que lhe cercavam e que se encantavam com seu sorriso singelo alvo ornado vermelho amor, e os movimentos de suas mãos de Fada levemente adocicavam o duro ar e deixava tudo que não era Ela desbotado. O ambiente virou um relicário de bijuterias tendo Ela como a única jóia de valor; pérola de pétala púrpura e pura. Eu observava, rodopiando desajeitado com minha pseudo-protagonista, toda essa sinfonia da natureza que acontecia como encanto, um presente divino para um bando de mortais que insistiam em viver. Foi assim, eu admirando-a, durante a valsa e pelo resto da noite, até que no final ela saiu com seu par, e eu, a par de tudo, nem aí para o meu par. Não comi um doce dessa festa.

 

Não sei o que impedia de declarar minha paixão à Mara. Quando a via sentia até dor-de-barriga; sentia minhas vísceras retorcendo, o coração disparava, a mão suava e eu me acovardava. Era muito forte. Amor e medo, juntos. Não éramos amigos próximos e não contei aos meus amigos sobre o que sentia por ela. Tínhamos muitas amizades em comum, e meu medo era que a notícia da minha paixão corresse pelas bocas mundo afora. Guardei segredo. Depois ela começou a namorar e passei a guardar esse segredo até de mim mesmo. Se não era para tê-la, preferia nem vê-la, nem lembrá-la, nem nada... Passou alguns meses e fiquei sabendo que se mudou.

 

Essa paixão me perseguiu durante algum tempo. Lembro do dia em que eu o Duda e o Xisto decidimos acabar com nossa “invencibilidade”. Fomos ao Ninfa’s American Bar, que ficava na “boca-do-lixo”, atrás de prazer e vida nova. Entramos e ficamos numa mesa quadrada, pedimos cerveja e observamos as garotas de topless que dançavam num palco retangular comprido de uns sessenta centímetros de altura. Na vitrina da carne, que encantava nossos jovenis olhares, enxerguei uma que se não era parecida, fez-se igual à Mara: branquinha, dorso de sardas, gotas de chocolate, longos e negros cabelos que emolduravam um rosto simétrico, curvas feitas para se perder. Negociei o programa e fomos. Imaginei minha musa durante todo o ato. Em um momento, eu vidrado na menina sussurrei em seu ouvido - te amo... – e fui para beijá-la, mas ela desviou e seguiu em seu papel mecânico e acabamos. Depois fomos embora e nunca mais voltei lá e nem em local parecido.

 

Na última reunião de pais e mestres no colégio em que minha filha do meio estuda, tive uma surpresa: uma mulher veio até mim, me chamou pelo nome, olhei-a como quem olha normal para alguém, cumprimentei-a e conversamos; era Mara. Não tive nenhuma reação de surpresa, só educação. Perguntou-me se não lembrava dela, respondi que um pouco, falei sobre Jorge e ela confirmou que foi namorada dele, até que se mudou para outra cidade. Disse que se casou com um de lá, tem três filhos e voltou para morar na casa que seus pais deixaram de herança, e também porque para seu marido as oportunidades de trabalho eram melhores por aqui. Veio à reunião de seu filho caçula, que por coincidência estuda junto com minha filha. Falamos mais um pouco e nos despedimos.

 

Aquela mãe de aluno não era a Mara. Não poderia ser. Não havia um traço que lembrasse aquela menina da adolescência. Mesmo depois de conversarmos, não era ela. Se fosse, estava soterrada sob aquele corpo pálido gotejado de ferrugem... estava sob a tintura opaca dos cabelos não tão longos e das roupas de senhora que não sonha com amor, estava sob a dissimetria do resto. O tempo matou Mara. Foi a única vez que conversamos e não enxerguei a menina que me encantava em canto algum das palavras, dos gestos ou de qualquer outra coisa que aquela mulher expressava. Mara é a menina do retrato. A menina da festa de quinze anos, dos pés bailarinos, jóia única do relicário e da lembrança que achei ter esquecido:

 

- Pai, o senhor achou?

 

- Ah, sim. Está no fundo do guarda-roupa, vou pegá-lo.

 

Ele guardou a foto na caixa com outras, levantou da cama onde estava sentado e pegou no guarda-roupa um brinquedo antigo: um carrinho ambulância que havia sido seu e que guardou para dar ao seu filho, quando tivesse uma idade em que saberia que ele teria cuidado com o presente. Entregou ao menino, que correu para mostrar à mãe:

 

- Eba! Olha mãe...

 

Olhou feliz o menino correndo pelo corredor, e o eco da alegria infantil o fez sorrir e brilhar os olhos. Depois voltou e guardou a caixa no fundo da parte alta do guarda-roupa. Fechou a porta. Foi atrás do menino, queria ser o primeiro a ser socorrido pela ambulância do seu filho.

 

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publicado por AB Poeta às 17:56
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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

Suicínato

 

Quebrei a casca antiga e mofada que me continha

Levantei como nunca, estiquei o corpo

Abri os olhos, livres, e dei de cara com ela

De pé, em minha frente, sorrindo podre

Encarei-a e saquei a arma, enfiei em sua boca

E disse: ri agora, com minha revolta entre os lábios

Filha da puta, ela riu... mas foi pela última vez

Disparei, a bala cravou na parede junto com o passado

Ela caiu sem cor e fria, como sempre foi

Abaixei a arma... senti uma mão em meu ombro

Um toque quente e amigo

Era outra vida me sorrindo

Soprando em meu ouvido: obrigado, por nós

Nos abraçamos e jurei amor a ela

Olhei em seus olhos de esperança

Disse: espero não ter que matá-la um dia

Seguimos em frente

Porque a vida só caminha pra frente...

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publicado por AB Poeta às 23:23
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Domingo, 24 de Outubro de 2010

Disseram-me que isso é sonho...

 

Um bailado de sombras lhe chamou a atenção, provocado por ela que passou em frente à porta do quarto indo do banheiro em direção a outro cômodo. Ele sorriu feliz e bobo, se arrumou na cama, se envolveu no edredom e esperou. Quando ela entrou no quarto, só de camiseta, ele levantou-se enrolado ao abrigo e foi em direção à sua menina, chegou perto e feliz disse doce – Anjo. – ela respondeu sorrindo com covinhas. Ele jogou a coberta sobre os dois, abraçou-a e disse – Só, só isso. Só preciso disso. – ela sorriu com olhos brilhosos e perguntou – Disso o quê? – ele – Disso: um pedacinho de chão para pisar, um de pano para cobrir e um Anjo para abraçar – os lábios se tocaram... sentindo a certeza de terem uma infinidade comum que carregam em algum lugar do íntimo. Seus rostos roçaram carinho e a essa altura as mãos já corriam delicadas malícias pelas peles e pelos vivos de desejos umas das outras; riram juntos, pensando como é espantoso o fato de que a Vida pode ser simples. A noite completou a cena.

 

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publicado por AB Poeta às 23:31
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Terça-feira, 22 de Junho de 2010

Lançamento: Contos Ab Absurdo

 

Meu conto Preciso Morrer será publicado na seleção de Contos Ab Absurdo (fé, misticismo, fanastismo, fantasia) da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Clique aqui, leia o conto e saiba como adquirir o livro.

 

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publicado por AB Poeta às 14:40
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Terça-feira, 25 de Maio de 2010

Lançamento: Contos da madrugada

Mais um conto meu - Frio - foi publicado nas seleções da CBJE - Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Para adquirir o exemplar é só entrar em contato clicando aqui.

 

 

 

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publicado por AB Poeta às 15:31
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010

Pão com manteiga

 

- Sai da frente, caramba! – apressado, pensou sobre uma senhora que atrapalhava a passagem na escada rolante. Sem paciência alguma, driblou a “vovó” e saiu da estação. Na Praça da Sé deu de cara com um senhor vendendo a sorte:

 

 – Vaca, galo, porco; vaca, galo, porco, olha o bilhete premiado! – o rapaz se aproximou e perguntou.

 

- É, por favor, aonde fica o Poupa Tempo?

 

- É logo ali, só atravessar a rua. – apontou com a mão.

 

- Obrigado. – Saiu com passos rápidos.

 

Chegando, ficou irritado ao ver o número enorme de pessoas no local, e com o excesso de informações sinalizadas nas placas, que mais atrapalhavam do que ajudavam. Foi ao balcão de informações:

 

- É, com licença, bom dia.

 

- Bom dia! O que posso estar fazendo para ajudar o senhor? – disse a moça.

 

- Como faço para renovar minha habilitação, para onde me dirijo aqui?

 

- É muito fácil – disse a garota com um sorriso maravilhoso nos lábios - o senhor segue pelo corredor A, vai ao posto B e retira a senha, preenche o formulário C, pega a guia D e paga no banco E, depois faz o exame médico no posto F, volta para o posto A e aguarda a sua senha ser chamada no painel G referente ao balcão H. É muito rápido e simples.

 

- Ok! Vou lá então. Muito obrigado. - respondeu pensando: puta que pariu, é hoje que não saio daqui. - Foi até o primeiro local indicado.

 

Depois de todo o procedimento feito, sua senha foi chamada, no balcão entregou o comprovante para a atendente:

 

- Hummm... o senhor fez o CFC?

 

- CFC? Não. O que é isso?

 

- É o curso de formação de condutores. Todas as habilitações emitidas de 1999 para trás terão que estar fazendo o CFC.

 

- Caramba... E como faço isso.

 

- O senhor vai até o Detran, no Ibirapuera, e pode fazer lá, depois volta até aqui e retira a habilitação.

 

- Ir até o Detran! Isso vai levar mais de um dia, não tenho todo esse tempo disponível!

 

- Ou então... o senhor pode estar fazendo numa auto-escola, que tem logo ali, do outro lado da rua.

 

- Certo. Obrigado.

 

Saindo do Poupa Tempo viu um cara de chinelo e bermudão falando sobre exames relacionados à carteira de motorista:

 

- Opa grande, aonde é que faço esses exames?

 

- Opa chefia, é logo ali, leva meu cartão aqui ó, é rapidinho lá.

 

- E quanto custa esse “exame”?

 

- Cem conto dotô, é o mais barato aqui da região.

 

- Certo! Obrigado. - foi até o local indicado no cartão.

 

Chegando, estranhou o local, era nitidamente uma garagem adaptada para escritório, feito com algumas divisórias. Haviam três “salas”: na primeira, falou com o proprietário do negócio e acertou o pagamento. A segunda estava vazia. Na terceira fez o teste:

 

- O senhor, por favor, desliga o celular, esvazia os bolsos e coloca tudo sobre esta mesa. Depois sente-se nesta cadeira, com as mãos sobre os joelhos. A câmera estará lhe filmando o tempo todo. – o rapaz ficou assustado com tamanhos cuidados tomados por parte do contratado.

 

Após todo o ritual feito, o contratado respondeu às questões da prova para o contratante e disse – aguarde aqui uns 20mim, eu já volto. O rapaz obedeceu apreensivo, já que estava só, numa sala esquisita e sendo filmado. Pensou tudo quanto era desgraça – vão me pegar aqui, estou ferrado! Vou aparecer no Fantástico, Datena, no Ratinho... – até que o cara voltou:

 

- Pronto! Aqui está seu certificado.

 

- Já! Que bom! Rápido né.

 

- Rapidinho!

 

Correndo voltou para retirar o documento:

 

- Aqui está o certificado – a atendente conferiu, anexou ao resto da papelada e entregou a habilitação.

 

- Obrigado! – respondeu.

 

Ao sair, correndo, para voltar ao trabalho, já no horário da tarde, olhou para o documento e pensou – caramba, deveria ter trocado essa foto.

 

Esse texto foi feito para a oficina Escrevivendo, e teve como tema "corrupção".

 

publicado por AB Poeta às 02:50
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Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

Lançamento: O melhor do conto brasileiro

Meu conto Eterna brincadeira foi selecionado para integrar o livro O melhor do conto brasileiro, da CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores).

Saiba como adquirir o livro, clique aqui.

 

 

 

 

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publicado por AB Poeta às 11:58
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Terça-feira, 30 de Março de 2010

12 anos

 

Marquinhos passava todas as tardes, após as aulas, na casa do amigo Thiago, disputando acirradas partidas de futebol, jogadas no moderno vídeo game. Marquinhos sempre perdia, e o amigo zombeteiro – marreco, marreco – ria das derrotas do fraco oponente que, depois de resmungos grunhidos baixinhos, cerrava os beiços. Marquinhos queria vencê-lo, precisava vencê-lo. A vitória passou a ser uma meta.

Certa tarde ao se dirigir à casa de seu algoz esportivo, pensava decidido – de hoje não passa, venço! – seguiu para a sonhada glória. Chegou, cumprimentou o amigo e apressados ao quarto partiram para a partida. Marquinhos já foi logo marcando um – goooool – comemorou. O amigo empatou e em seguida fez mais um – coen, coen – grasnou para o freguês. Marquinhos não se intimidou, determinado a vencer fez mais um e mais um e mais um... E numa fúria goleadora, venceu.

 

Marquinhos largou o controle do vídeo game e saltitou pela casa – venci! venci! – gritava, com alegria pura brilhando nos olhos. Voltou para o quarto, zombou do perdedor. Com fome, foi até a cozinha, abriu a geladeira, viu um enorme queijo branco de Minas, pegou-o e levou até a mesa. Voltou para o quarto, colocou o pé sobre o peito do amigo que estava no chão e puxou a faca que estava cravada. Rápido removeu o sangue com detergente na torneira da pia, enxugou a lâmina na camiseta do colégio e cortou um pedaço grosso de queijo, desfrutou do banquete, sentindo-se campeão.

 

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publicado por AB Poeta às 15:04
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Sexta-feira, 19 de Março de 2010

Lançamento: Contos de Outono

 

 

Meu conto Passarinho foi selecionado para integrar a seleção Contos de Outono, da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Para adquirir o exemplar é só entrar em contato com a editora clicando aqui.

 

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publicado por AB Poeta às 13:33
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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

Lançamento: "Contos de amor e desamor"

 

Mais um conto/crônica meu foi selecionado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores para integrar uma antologia, a "Contos de amor e desamor". O texto é o IV Estações.

 

Para edquirir o exemplar é só entrar em contato com a editora através do site: http://www.camarabrasileira.com/

 

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publicado por AB Poeta às 15:34
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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010

Lançamento: Um traço, UM PONTO, um poema, UM CONTO.

 

Sandra Chamas e Edições Inteligentes convidam para a noite de autógrafos de seu livro Um traço, UM PONTO, Um poema, UM CONTO.

 

Dia 25/02/2010 - Casa Das Rosas

Av. Paulista, 37 - São Paulo/SP

 

 

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publicado por AB Poeta às 16:08
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Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Lançamento: Contos "Além da Imaginação"

 

A Câmara Brasileira de Jovens Escritores (CBJE) promove todos os meses concursos literários de contos, crônicas e poemas para novos escritores brasileiros. Meu conto Goelabaixo foi selecionado e sairá na edição de janeiro no livro de contos “Além da Imaginação”. Para adquirir um exemplar do livro é só entrar em contato com a editora clicando aqui.


Quem quiser participar das próximas seletivas é só conferir as datas através do site.

 

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publicado por AB Poeta às 15:44
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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Mini contos

Estas são três tentativas de escrever mini-contos com, apenas, 140 caracteres. Todos foram postados no meu twitter.

 

I


Manhã sem dores. Fria. Ainda com sono, pos a mão sobre o peito. Desacostumado a sentir-se bem, não sorriu. Ergueu-se, triste, novamente.


II


Um quase nada. Partiu. Quem anda sem destino, não quer estar em lugar nenhum. Um vagar perigoso, a procura de si mesmo.


III


Ao acordar pensou: segunda é uma ilusão... Mesmo ar, mesmo Eu, mesmo tudo. Hoje é o dia que eu quero que seja: sábado. Virou-se e dormiu.

 

 

Sigam-me os bons! http://twitter.com/mundoid

 

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publicado por AB Poeta às 23:52
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Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Museu da Pessoa

 

O Museu da Pessoa foi fundado em 1991 com o intuito de construir uma rede internacional de histórias de vida capaz de contribuir para a mudança social. Esse museu é virtual e você também pode participar contando uma história de vida sua.


Algumas minhas foram publicadas, clique aqui e lei-as.

 

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publicado por AB Poeta às 16:20
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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Eterna brincadeira

Sentado na antiga poltrona da sala, observava saudoso a velha foto. Era ele, com o braço estendido segurando uma flor, e seu pai, agachado abraçando-o sorridente. Na época deveria ter entre cinco ou seis anos, não lembrava exatamente. De fundo, um enorme e vivo jardim colorido, que numa distante e quase esquecida infância foi seu universo de brincadeiras, um mundo de diversões. Não sabia mais quando foi à última vez que esteve ali. As poucas lembranças eram esfareladas, e no decorrer dos corridos anos a casa havia mudado muito, o que não o ajudava a trazer de volta alguns flashs do passado. O antigo e alegre jardim hoje é uma pavimentada e espaçosa garagem, toda coberta, e no lugar das flores e ervas cidreiras há um monte de ferramentas e outras bugigangas empoeiradas, todas esperando que um dia haja uma ocasião em que possam servir para alguma coisa. Debaixo do duro e insipto cimento repousam boas lembranças vespertinas de épocas há muito vividas.

 

Sua vida adulta era asfixiante: doze horas para mais de trabalho, trânsito, os filhos na escola, esposa, contas e mais contas... O lazer programado... Muitas prioridades, responsabilidade sobre responsabilidade. O tempo era escasso. Tê-lo “livre” era coisa rara, virou artigo de luxo. O gesto do garoto no retrato lhe ofereceu um momento nostálgico de íntima alegria infantil. Fechou o antigo álbum e guardou-o na parte baixa da estante, junto ao tricô disforme e inacabado.


Venha, vamos cantar parabéns - chamaram-no para junto da família reunida em volta da mesa. Olhou as velas no bolo, 9 e 1. Apesar de saber a idade que sua avó faria, ficou impressionado com o número. A aniversariante olhava para as pessoas em sua volta, mas não reconhecia mais quase ninguém. Ele achava aquilo curioso: apesar daqueles rostos para ela não serem mais familiares, sempre respeitava as ordens da filha mais velha, e quando era chamada de mãe sempre olhava de volta. Deveria ser o instinto materno, talvez ele nunca desapareça... Algo assim.

 

No começo foi duro para que entendessem o que estava acontecendo. Ela esquecia os nomes de todos, perguntava a mesma coisa uma série de vezes, guardava sapatos na geladeira, temperava o feijão com detergente... Foi um período complicado. Depois da confirmação as coisas ficaram mais claras, porem, não menos sofridas. A doença degenerativa era irreversível, e estava em estágio avançado. O mal genético estaria com ela até o fim. Mesmo acompanhando os acontecimentos de longe, erra difícil aceitar isso. Ele entendia agora o que significava ter medo da morte.


É estranho, sabemos que vamos morrer, todos morrem, mas quando a morte é uma realidade próxima, o medo vira uma presença constante. O que será que se passa na cabeça dela... Fica o dia todo com uma boneca na mão tratando-a como um filho. Banha-a, lava as roupas, fica horas conversando... Está presa num mundo só dela. É perturbador. Não lembro a última vez que ela falou comigo. Não sou visita freqüente, não tenho muito o que lembrar também... Pareço com ela: não me recordo de um monte de coisas que aconteceram dentro dessa casa. Esqueci. Passei aqui muitas tardes, correndo de um lado para o outro, só parava com os gritos de faça mesmos algazarra menino. Tempos que... Acho que troquei as lembranças que vivi aqui por um punhado de informações absorvidas num cotidiano burocrático, de tarefas consecutivas que precisam somente serem passadas à frente. Nesse ambiente caótico, os arquivos é que se encarregam das lembranças. Não me recordo dos gostos das comidas que ela preparava e que formaram meu paladar. Doces de sobremesa e bolos para comer com o café feito no coador de pano, aqueles sabores cuidadosamente feitos pelas matriarcais mãos dedicadas, nunca mais os sentirei. Os cheiros, que enchiam a casa durante o preparo... Aromas únicos de dar água na boca... Nunca mais. Gradativamente fui reeducado pela rapidez dos pratos semi-prontos, e hoje meu olfato se contenta em sentir o odor de cremes e loções. Olho para meus parentes, mas também não lembro da maioria. Quase todos, para ser quase exato. Fora um ou outro mais próximo que ainda converso, os demais trato-os como primos, e mais nada. Não existe proximidade, além disso. De quantas coisas ela já não tem mais consciência: crise mundial, política, aquecimento global... Ela nem faz idéia do que esteja acontecendo com o mundo, catástrofes... Deve ser bom não ter que se preocupar com isso. A morte... Ela também não tem conhecimento sobre o que esta por vir. A tão assustadora morte, de olhar frio, capuz preto e foice na mão, não é ninguém para ela. Nada. Parece irônico. Todos os medos e neuroses que sentimos, em seu mundo de brincadeiras, não existem. Assim como eu, ela também não lembra do jardim, mas diferente de mim ela não tem o desprazer de saber sobre os acontecimentos desumanos que ocorrem a toda hora, e que são jogados na nossa cara durantes os noticiários, narrados com ódio e em tom indigno, e que ressoam demagogo aos ouvidos. Segregações, fobias, intolerância, Hiroshima e Candelária... Nada disso mais... Nem céu nem inferno. O que para ela é real é sua eterna brincadeira. Está segura em seu solitário e rico mundo imaginativo. E eu, tenho que lembrar que não lembro de muitas coisas que um dia foi o meu mundo... Meu mundo de brincadeira feliz e real e que aos poucos foi sendo substituído e esquecido por algo que nem sei mais como chamar. Dizem que essa loucura diária é que é a realidade...


Ele logo voltou a si... Olhou para ela e sorriu. Ela o sorriu delicado de volta. Sentiu um alívio interior por saber que ela de certa forma está segura, longe dos problemas criados pelas megalomanias humanas. Voltou à atenção para a festa e tranqüilo juntou-se ao coro dos esquecidos:


- Paaarabéééns praaa vo-cê...

 

 

Baseado no conto Diagnóstico de Helga Belivacqua

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publicado por AB Poeta às 19:04
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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Passarinho

Avistando as migalhas no chão, rasante pousa o pássaro. Gorjeai, saltita, belisca e come feliz o farelo seco misturado à poeira velha espalhada pelo vento eterno e sem parada. Ao som das buzinas dos carros, longe da era das carroças, canta infantil a pequena inata ave transformando a moribunda visão cotidiana numa brincadeira ao carrossel que gira colorido e sem fim. Ouvindo um canto em resposta, vê ao lado uma loja gigante que vende sonhos e garantias de amizade. Impressionado com a variada fauna contida em tão pouco espaço, aproxima-se do populoso viveiro e um local puxa papo:


- Oi, de onde você vem?


- Como assim? – Não entendeu a pergunta do amigo enjaulado, e sem querer saber muito sobre, respondeu - Se o lugar é um, então não existe “de onde”.


- Venha para cá, fique conosco. Aqui temos comida e água, não precisamos viver correndo atrás de nada!


- Quem não sabe o valor do farelo, condena a alma ao flagelo. – Respondeu.


Antes de afastar-se da loja, deu uma boa olhada em sua volta e pensou – o animal ama somente a si.


Foi até a poça, bebericou, gargarejou, sem titubeio, bateu assas e voou.

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publicado por AB Poeta às 19:43
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Domingo, 23 de Agosto de 2009

A história do Homem de Nada

Quando tudo era nada e a existência se resumia na solidão divina, um conceptivo sopro rompeu o tédio, ressoando em criação, transformando o silêncio em verbo a escuridão em luz e o nada em tudo.


Dentre todas as galáxias originadas há uma um tanto diferente, é a galáxia de nada. Nesse pedacinho de universo de nada existe um astro de nada especial, o planeta de nada. Esse planeta de nada, que também é chamado de mundo de nada, é divido geopoliticamente em continentes, países, estados, cidades, bairros... Todos de nada. E é num desses locais de nada que nasceu a personagem dessa história de nada: o Homem de Nada.

 

Era uma vez o Homem de Nada. O Homem de Nada nasceu num hospital que não tinha nome relevante e ficava num bairro que ninguém nunca ouviu falar, de uma cidade desconhecida, situada num estado de peso econômico que não vale a pena ser citado. O horário ninguém sabia qual era, pois os relógios não marcavam tempo algum. Era um dia de nada de um mês sem comemorações, nenhuma data especial. O Homem de Nada foi abandonado antes de completar vinte e quatro horas de nada de nascido, mas logo foi acolhido por uma família riquíssima de nada, a família de Nada, que foi onde ele recebeu o nobre sobrenome.


Sua interiorana infância de nada foi maravilhosa. Cresceu cercado de livros cheios de estórias e conhecimentos de nada. Quando entrou no colégio de nada, já sabia ler muitas coisas de nada, o que o fez ser o primeiro aluno de nada da classe de nada. A professora de nada vivia lhe fazendo desimportantes perguntas:


- Senhor de Nada.


- Sim professora de nada.


- Me responda: quem descobriu nosso país de nada? – Sem pensar em nada o pequeno menino de nada respondeu.


- Ninguém professora!


- Muito bem! Está vendo classe de nada, vocês tem que ser de nada assim também! – O pequeno de nada abriu um sorriso brilhoso de orelha a orelha espalhando pela sala seu majestoso feliz semblante de nada.


Na adolescência as meninas de nada o adoravam pela sua inteligência de nada, o que o ajudou a ter algumas namoradas de nada. Prestou o vestibular de nada para Ciências de Nada na Faculdade Federal de Nada e foi aprovado em primeiro lugar de nada, o que o fez mudar da pequena cidadezinha de nada e partir para a grande megalópole, a capital de nada. Morou, junto com outros alunos de nada, numa república estudantil de nada onde, entre festas e estudos de nada, passou agitados dias de nada, memoráveis. Ainda cursando nada conseguiu um estagio de nada numa das maiores multinacionais de nada, a Indústria Nothing S/A. Determinado como era na vida acadêmica de nada, assim também foi no trabalho de nada e logo efetivou-se, e em sua carreira profissional de nada galgou muitos cargos de nada. Ascendeu ao nada muito rápido. Através de uma de suas amizades de nada, conheceu uma garota maravilhosa de nada, a Garota de Nada. Logo começaram um namoro de nada, que resultou em um casamento de nada. Quando terminaram a faculdade de nada (a Garota de Nada cursava Psicologia de Nada na Uninada, e diplomaram-se no mesmo ano de nada) mudaram-se para o interior de nada, queriam que seus futuros filhos de nada, que logo vieram em escadinha (Menina de Nada, Menino de Nada e Caçula de Nada), fossem criados longe da violência de nada que na grande cidade de nada tinha com fartura. Abriram um comercio de nada, que gradativamente prosperou. Suas crias de nada logo cresceram e seguiram os mesmos passos de nada do pai de nada, e foram estudar nada em outra cidade de nada numa das melhores instituições acadêmicas de nada. O casal de nada envelhecera sem perceber, e quando menos esperavam já eram avós de nada: nos finais de semana de nada os sete netos de nada enchiam a casa de nada de alegria nenhuma. Era uma grande felicidade de nada. Num dia de nada o Homem de nada, já aposentado de nada, acordou bem cedo e foi até a banca de nada comprar a Gazeta de Nada, voltou para casa de nada encheu sua canequinha de nada preferida com café de nada puro, sintonizou na Rádio de Nada que tocava suas modas de nada que tanto adorava, sentou-se como nunca na cadeira de balanço de nada, abriu o jornal de nada e morreu...


A família de nada juntou-se para o velório de nada no velho casarão de nada. Praticamente todos os moradores de nada da cidadezinha de nada seguiram pelas ruas de nada, cadenciados ao som do bumbo de nada, o florido cortejo de nada. Por fim, o defunto de nada foi sepultado.

 

Até hoje nessa cidadezinha de nada quem vai ao cemitério de nada e escuta o coveiro de nada contar essa história de nada, impressionasse, e fica mais curioso de nada quando lê o epitáfio de nada esculpido no marmoroso jazigo de nada: “Aqui jaz o Homem de Nada: um ser humano que representou tudo o que alguém pode ser na vida.”

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Sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Preciso Morrer

 

A pressão que meu peito sofre já não me põe mais medo, pois sei que o que sinto não é gerado por uma disfunção corpórea, é ardor puro: um aviso do inconsciente de que meu ser não é aquele e nem aquilo que parece, e é também um aviso de que preciso morrer! Minha interminável guerra arquetípica chega a ser injusta são muitos contra um que nem sabe mesmo o que é e, pior, nem se virá a ser algo. Barbeando-me vi que o creme formou um risco em meu pescoço como que se marcasse o local a ser atingido. Fiquei olhando agoniado à espuma escorrendo como se fosse sangue... Alguém ali, bem de frente ao mentiroso espelho ia degola-me sumariamente, mas num ato corajoso repousei confiante a assassina navalha na mórbida e necrotérica pia branca e momentaneamente tranqüilo assisti a um deles findar de forma súbita. Sorrindo pensei “ganhei uma batalha” apesar de saber que o que preciso mesmo é morrer, e logo. Não vejo mais sentido no ato de sentar-se ao vaso porque meus verdadeiros excrementos realmente nunca desceram pela sua goela abaixo. A privada é uma ilusão. Pareço um enfezado filtro: ingiro imundices expilo porcarias e as incômodas e verdadeiras nojeiras cancerígenas ficam alojadas incubadas no âmago remoendo-se e moendo-me para que depois quando regurgitadas façam-me parecer um encabrestado animal ruminante. Não quis passar o desodorante aquilo é uma maldita armadilha sulfúrica que queima-me todas às vezes que a uso, extingui meu natural e marginalizado cheiro, meu corpo é violentamente surrado pelos químicos disfarçados. Cansei de me auto-flagelar. Não podia mais permanecer ali e fiquei apreensivo pela consciência de saber que ao sair do banheiro alguém entocado me apunhalaria pelas costas e mesmo sobrevivendo ao ataque o combate continuaria com outro, outro, outro... Há um exército psíquico a minha espreita e os generais dessas tropas carniceiras alimentam minhas internas pragas ratos baratas um monte de outras pestes que foram todas plantadas regadas cuidadosamente semeadas para que eu me mantenha um infeliz derrotado e neurótico. Tática eficaz e ilícita essa, mas vou vencê-los e para isso preciso morrer, e rápido. Tomei fôlego e corri em direção ao quarto, mas quando meu passo quente tocou no piso frio meu corpo inteiro tremeu baqueado e a reverberação produzida no corredor zuniu aguda em meus ouvidos aturdindo-me, focado ainda segui cambaleante até cair sobre o ríspido carpete da câmara fúnebre, veloz recuperei-me audaz e bravio ergui o rosto avistando a monstruosa montanha de vinil negro que havia a minha frente: um cemitério de vozes mortas; impactado e assustado recuei batendo as costas contra uma muralha de livros velhos e falastrões empoeirados que há anos ignoro; acuado gélido suei vendo com os olhos arregalados as centenas de mãos que saiam de objetos cognitivos agarrarem uma porção de outras mãos que imergiam de minhas entranhas e fui debatendo-me contra elas até chocar-me numa urna vertical imensa e sombria que revelou ao abrir as portas uma série de peles inumanas todas mofadas apodrecidas com os nomes de seus algozes marcados a ferro, elas saltaram e rastejando tentaram subir pelas minhas pernas, me defendi chutando-as para longe, desequilibrado em meio aos pontapés cai sobre cama e senti meu estomago encolher repugnado amargando minha boca só de imaginar quantas autópsias minhas já foram feitas sobre aquela sádica mesa cirúrgica, quantas... Cansei de ser o divino animal terrestre que se nega a ser o que é. Vou morrer e vencer-los e vai ser agora! Sem medo do que poderia vir a acontecer levantei-me e quebrei tudo o que vi pela frente, precisava desmembrá-los desarticulá-los espedaçá-los torná-los amorfos não-cógnitos. Depois de horas espancando-os olhei em minha volta e quando tudo não me lembrava mais nada, agachei-me como um bicho faminto e comecei a comer a salada de farrapos que se formou aos meus pés. Comi até vomitar e quando vomitei comecei a comer de novo e fiz isso até que os restos gástricos misturados a minha saliva formassem uma massa grudenta e densa, quando isso aconteceu, com ela construí meu sepulcro... Acasulado batráquio, morri.


Algum tempo depois foram encontrados no cômodo apenas cacos apodrecidos do que aparentava ser um grande invólucro. Ninguém nunca mais foi visto no local.

 

 

Poema inspirado nesse conto: Se não é que já estou morto.

 

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Domingo, 5 de Julho de 2009

Goelabaixo

Estava sentado em minha mesa de trabalho, praticando meu ofício, como na maioria dos dias. Canetas, papéis, sistemas, minhas leais ferramentas serviam-me fielmente. O quadro negro, com inscrições quase rupestres, diziam-me o que fazer; como num plano militar: vencer o oponente era nosso objetivo. Soldados agitavam-se. Corriam para todos os lados, armados de formulários. O ataque não pode parar. Um vem em minha direção – bom dia – bate em minhas costas e segue. Havia algo errado, os pelotões murmuravam e olhavam-me diferente. Aqueles sorrisos não me agradavam. Continuei entrincheirado atento, com as armas em punho.


Enquanto passava os olhos num memorando, algo me chamou a atenção. Levantei a cabeça para ver o que era e tive uma visão horrenda: uma massa esverdeada, de olhar negro e fixo, vinha babando voraz em minha direção. A papada dele inflava e desinflava cadenciadamente, o que deixava aquela coisa escrota e amorfa mais avolumada. Sua pele parecia gelatinosa, gosmenta, uma carcaça que aparentemente fedia. Fiquei apreensivo. Suas patas ergueram-se em minha direção. Arregalei os olhos de medo, recuei o corpo. Elas agarraram meu pescoço. Seu toque era frio e pastoso. Começou a apertar-me, o que deixou-me sem ar. Abri a boca desesperado, emitindo um ruído de engasgo. O que eu mais temia aconteceu: aquela nojeira inumana começou a entrar na minha boca. Seu gosto era horrível, uma mistura de lama e mofo, um negócio azedo. Numa atitude desesperada, agarrei os braços da cadeira, mas ela não esboçou nenhuma ajuda. Nesse momento pensei em minha casa, o que não adiantou em nada, a sensação sufocante não passava. Fiquei sem reação, esperando que o final daquela cena medonha chegasse logo. Suas patas traseiras batiam em meu rosto, querendo, numa tentativa forçada, descer por minha garganta abaixo. E conseguiu. Tentei vomitar, mas não obtive sucesso. Senti-me um lixo, não podendo fazer nada. Forçosamente engoli aquela merda. Aos poucos fui recuperando o fôlego, cuspi um resto de barro embolorado. O silêncio que se fez na sala durante meu estupro foi cortante. Agora ele está alojado em meu estomago, e não posso fazer nada. Esse troço nunca será digerido e dói-me saber disso. Não conseguirei expeli-lo nem junto com meus excrementos. Para sempre estarei com aquilo.


Triste, voltei minha atenção à tela do computador. Atendi a algumas exigências burocráticas que a máquina pedia, continuei meu trabalho. Já conformado com o inevitável, esbocei um sorriso. Deu a hora do almoço, levantei-me e, junto com meus companheiros, segui para o rancho. A vida tem dessas coisas.

 

Foto: Everton Balardin e Marcelo Zocchio

 

Esse conto será publicado nos Contos Selecionados de Novos Escritores Brasileiros "Além da Imaginação" - da Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Clique e veja.

 

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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Vitória - Parte II

"Queria só a felicidade da simples companhia sua ao sofá, vendo um filme qualquer... A espera pelo, no final da tarde, tocar de sua mão num comum passeio, me sufoca... O tempo inventado é meu presente inimigo: protela nosso consumir de olhares, adia a morte da sede minha pelo beijo teu... A ti dou-me, amor."

 

Carta de Vitória à Carlos.

 

Parte I

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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Um dia de fúria

Texto escrito em 14/03/08.

 

Ele era uma pessoa normal, de modos simples como a maioria, mas um dia... o trânsito, desemprego, a desigualdade social, fome, miséria, enchentes, credores, poluição, aquecimento global, animais em extinção, desmatamento da Amazônia, gripe do frango, doença da vaca louca, crise aérea, mensalão, dólar na cueca, assaltos, roubos, assassinatos, furtos, desaparecimentos, seqüestros, cartões corporativos, nacionalização da petrobras na Bolívia, tráfico de drogas, capitalistas insanos, chefes idiotas, metas impossíveis de serem alcançadas, montadoras e montadores, falta de educação, evasão escolar, evasão fiscal, analfabetismo, propinas, lobby, interesseiros, aproveitadores, clientes chatos, colaboradores mais chatos ainda, cólera, dengue, carie, tosses, virose, enfarto, stress, dores de cabeça, de coluna, frieiras, doenças diversas, guerra no Iraque, na palestina, guerra nuclear, guerra fria, quente, morna, requentada no banho-maria, jogo de interesses, futebol corrupto, política corrupta, geopolítica, pessoas corrompidas por nada, prostituidas, mentiras, falsidade, sonhos vendidos, desilusões, desamores, dissabores, desgasto físico, mental, loucura, MPB, new metal, funky carioca, axé, soda cáustica misturada no leite, metanol misturado na pinga, crise do caqui, acidentes de carro, de moto, de trabalho, de percurso, rádio, televisão, big brothers, programas dominicais, segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados, carnavais, feriados, ônibus cheio, metrô cheio, lotação cheia, ruas cheias, saco cheio, impaciência, intolerância, imprudência, burocracia, overdose, overpoint, ovo podre, carne podre, comida vencida, remédio vencido, pão por kilo, gasolina, álcool, diesel, biodiesel, biotecnologia, nanotecnologia, transgênicos, frituras, gordura-trans, Windows, Apple, Linux, chineses, russos, indianos, migrantes, imigrantes, xenófobos, homofóbicos, anti-semitismo, orgulhosos, ideologias, democracia, aristocracia, monarquia, autoritarismo, governo militar, ditadura, dentadura, sem dente nenhum, sem comida pra usar os dentes, sem lenço, sem documento, sem lança, sem loló pra deixa lelé, tédio, rotina, tempo que passa rápido, tempo que demora a passar, mesmice, caretice, moderninhos, mauricinhos, patricinhas, promoções, aumentos, superávit, déficit, dívida pública, dívida privada, PPPs, privatização, estatização, sem terra, sem teto, sem faculdade, sem porra nenhuma, e mais uma série de coisas que não lembro... tudo isso ainda não o fez perder a cabeça.


Mas a gota d'água foi a cerveja quente servida no boteco! Ai ele não suportou!

 

 

 

Corra agora! Em breve num cinema bem perto de você.

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Terça-feira, 9 de Junho de 2009

O escritor de verdade

Quando ele entrou na sala de espera da agência de empregos Great People Of Talent, viu o enorme número de candidatos socialmente vestidos que aguardavam a hora de serem chamados. Acomodou-se do jeito que deu, num dos poucos lugares vagos. O entrevistador, especialista diplomado em Recursos Humanos, pós-graduado em Psicologia Empresarial, doutorado em Analise Comportamental e com MBA em Gestão de Pessoas, interfonou para secretária:

 

- Luzinete, Luzinete! Oh Luzinete! Manda logoentrá o próximo aí que tá chegando a hora dalmoço!


- Sim doutor.

 

A menina pegou um dos currículos que estava na pilha sobre a mesa e chamou.

 

- É... Paulo Capivara. – O rapaz gesticulou com a mão.


- O Sr veio para a vaga de Auxiliar de Comunicação Interna, né?


- Sim, isso mesmo.


- Ok, pode entrar que o Dr Pancrácio está aguardando.

 

Levantou-se, tropicou na ondulação do gasto carpete, ajeitou-se, seguiu em direção à sala de entrevistas. Quando entrou viu um senhor com óculos de armação marrom, gordo, com o papo cobrindo o nó da gasta gravata, várias guimbas no cinzeiro e uma placa de alumínio sobre a mesa que pré anunciava: Dr. Aristeu Pancrácio Teutônico III. Cumprimentou-o com um aperto de mão, lhe disse bom dia, sentou-se na cadeira há frente da mesa, ainda olhando os mais diversos diplomas, honrarias e fotos que estavam pregadas na parede. Segurando a ficha, o doutor iniciou a entrevista:

 

- É... Sr... Paulo Capivara. É você?


- Sim, sou eu.


- Que bom, que bom. Então... veio pra vaga de comunicador ajudante interno?


- Exato, é para ess....


- É... tô vendaqui... no seu curríclo, você... formadem Letras?


- É, isso mesmo, me forme...


- Certo, certo... mas tô vendaqui... sem experiência anterior... Você nunca teve emprego?

 

- Sou escritor, e faço alguns bicos de redator publici...


- Ah, é artista!


- Não, não, sou escritor e...


- Inscritor, artista... é a memá coisa. – anotou em vermelho na ficha:
“inscritor/livros inscritos=”


- Teressante, teressante. É... quantos livrus... você tem inscrito?


- Um publicado e...


- Um! – riscou a anotação anterior “livros inscritos=” e escreveu:
“um livro inscrito”.


- O Sr é artista... mas tem só um livru?


- É!? escrevei um, meu primei...


- Quantos cêêê vendeu?


- Não sei ao certo, acho que de 100 a 150 exemplares...


- Não sabe? Como assim?


- A editora informa meio por cima, e não tenho como controlar porq...


- Tabom, tabom... Inscreveu... mas ninguém leu... então o pau cumeu! – gargalhou estridente, retirou os óculos para enxugar as felizes lágrimas.


- É né... - O candidato sorriu amarelo com o canto da boca, por obrigação, sua vontade real era grampear a língua do decrépito no risque-rabisque e retirar com o extrator de grampos, de forma medieval, os olhos do desgraçado.


- Ai, ai... tabom, tabom... – o entrevistador se recompôs – é... então, Sr... Paulo Carneiro.


- Não é Carneiro, é Capivara.


- Capivara, carneiro, coelho, são tudo roedores mâmifreros. – Disse com um ar sábio. Paulo não esboçou reação alguma.


- Então... Sr... Paulo Capivara, inscreve... é artista... mas ninguém compra seus livru...


- Bem, vendi sim, mas não sei o número exato de...


- A sim, sim... vendeu, vendeu... é verdade... sua mãe, avó... sua tia.... muita gente deve te comprado. – Paulo olhou para um ponto qualquer da sala, soltando o ar pesado contido nos pulmões.


- Então... a vaga é pra auxiliar comunicativo interno, mas... pelo quivejaqui... é... vai ser difícil...
sem experiência anterior comprovada, é... a empresa talvez nunqué alguém nesse perfil.


- Bem, estou a disposição, e essa vaga me inte...


- É, mas é talvez né... e talvez nué um sim, mas também nué um não... quem sabe... vou faze assim: vou guarda seu curríclo aqui, e... qualquer novidade aviso, ok.

 

Sem paciência alguma, mas mantendo a pose de candidato interessado, cumprimentou o Dr Pancrácio, agradeceu a oportunidade como se fosse única e seguiu para mais uma agência de empregos.
O Dr, já faminto, guardou a ficha do Paulo na letra “q” da gaveta de pastas suspensas – artista... rãn. Logo após interfonou para a secretária.

 

- Luzinete, Luzinete! Oh, Luzinete! Manda mais um aí que ainda dá tempo.


- Sim doutor.

 

A menina apanhou outro currículo na pilha, chamou.

 

- É... Nelso Ramires – O rapaz levantou-se.


- O Sr veio para a vaga de Auxiliar de Comunicação Interna né?


- Isso, vim para essa vaga.


- Ok, pode entrar que o Dr Pancrácio está esperando.

 

O candidato entrou na sala, cumprimentou o doutor e sentou-se, dando início a entrevista.

 

- É... Nelson Ramires... é você?


- Sim, mas não é Nelson, é NelSO.


- Ok, ok... Nelso, Nelson… é parecido né. – deu um sorrisinho – então... NelSO, a vaga é pra ajudante de comunicação auxiliar interno e... você temteresse né?


- Claro! Estou aqui para...


- Tabom, tabom... preciso dalguém que sabe inscreve BEM... o Sr tem experiência anterior?


- Tenho. Tai na fich...


- É verdade, é verdade... – leu na ficha: Experiências anteriores:
Balconista de Farmácia, 2 anos – Escriturário, 3 anos - Escrivão de Polícia, 8 meses.


- Ah, taqui... taqui. Enscrivão! Purque saiu da polícia?


- Muito violento, não agüentava mais, escrevia muitas barbari...


- Tabom, tabom... a vaga é sua. Votincaminha pra empresa. Vi quitem muita bagagem, tanto lê quantu inscrevê, bom isso! Vai ali, vai ali... fala com a Luzinete... vai te fala o procedimento.

 

Feliz, saiu o agraciado com o emprego novo. Os ponteiros já cravados no doze indicavam o merecido descanso. O Dr Pancrácio guardou a ficha do Nelso na letra “z” do arquivo, recostou-se na enorme e almofadada poltrona, acendeu um cigarro e interfonou.

 

- Luzinete, Luzinete! Oh, Luzinete! Pede pra mim um bife à cubana e uma caracú queu tô faminto.


- Sim doutor, vou providenciar. – Desligou o interfone.

 

- Ah... até quenfim me apareceu um inscritor de verdade! – De olhos fechados, tragou o cigarro.

 

 

Publicado também no blog do João Luiz do Couto

 

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Domingo, 7 de Junho de 2009

Pedro (ou A Procissão)

Pedro antes de se levantar da cama de caixotes e espuma, ficava deitado de bruços para o ar, com a coberta até a altura do peito, passando a mão por entre os finos raios de sol, que entravam sem pedir licença, pelas frestas e orifícios do velho amianto. As vezes se virava para o lado e ficava contornado com o dedo o desenho de uma árvore que havia na madeira. Ficava ali... As vezes fazia isso emitindo algum som. Em dias de chuva era diferente, saltava rápido da cama, para desmonta-lá. Depois ficava parado num canto onde não pingasse. Quando a chuva era muito forte, além da ação de desmontagem, ficava num canto onde não pingasse tanto.


Numa manhã levantou-se mais cedo do que de costume. Sem querer, pisou numa bala que estava no chão, mas não deu bola. Havia combinado com um amigo de ir ao centro da cidade. Comeu o que tinha como café e saiu. Desceu rápido pela ladeira. O movimento dos chinelos levantava a poeira da rua batida e seca, deixando seus velozes pés com um tom avermelhado. Foi até o local marcado e esperou o colega, que logo chegou. Andaram mais um pouco até o ponto, sinalizaram para o coletivo, subiram. Apostaram uma pequena e disputada corrida, para ver quem passaria primeiro por baixo da catraca. Pedro perdeu. Os olhares passageiros e aversos admiravam a habilidade dos garotos – nossa, parecem ratos. Atravessaram o corredor de ombros encolhidos e atenções apreensivas, sentaram-se nos últimos bancos.


No centro da cidade iam sempre ao mesmo lugar. Encontravam outros garotos na praça, passavam o dia lá. Não tinham muito que fazer. Descontraíam-se quando alguém escorregava no lodo morto encruado no fundo do chafariz. Todos riam. O infeliz mergulhador emergia, cuspia a água densa, e sorria meio ao engasgo. Era uma festa.


Os saquinhos plásticos com a cola endurecida não os serviam mais. A fome dava sinal de vida – rir deve dá fome. Tinham a brincadeira já combinada. Um vinha correndo por um lado, trombava, e o outro, pelo lado oposto, passava e apanhava a bolsa: pronto, os roncos das barrigas estavam com as horas contadas. No boteco pediram algumas coxinhas que estavam adormecidas na estufa amarelada, e uma coca de litro. Depois compraram algumas fichas, jogaram horas na máquina de videogame. O comerciante detestava aquelas presenças molambentas. Bêbados, pedintes sujismundos, moleques, espantavam os bons fregueses –
um dia essa matilha acaba e não sobrarão nem as pulgas.


A tarde caía morna. Voltaram para o bairro. Ao chegarem encontraram um pessoal parado na esquina de sempre. Juntaram-se a eles. Adoravam aquilo: ficavam ouvindo as histórias dos caras mais velhos, cheias de aventuras. Benê era o que mais falava. Seus gestos prendiam a atenção dos mais novos. As roupas, o brilhoso relógio, o nome na camisa – o bom é ser assim.

 

- E ai Pedrão, aquela parada lá, ta contigo né?
- Ta sim, ta sim. Ta moqueada.
- Firmeza! Depois eu pego lá.
- Opa, de boa Benê, ta na “responsa”.

 

Benê era um cara respeitado, todos gostavam dele. Uma vez foi parar na Febem, mas ficou pouco tempo. Fugiu com outros garotos durante uma rebelião. Agora estava mais ligeiro, não podia vacilar – se eu der bobeira me prendem, fico guardado uma cara. Fita agora é só a certa. Depois de muito papo, o pessoal dispersou, cada um seguiu seu caminho. Pedro foi para casa.


Subiu a ladeira escurecida pensativo. Chegou em casa, mas não havia ninguém ainda. Não havia nada. Sentou-se em silêncio, ainda pensativo. Enfiou a mão entre a madeira e o caixote com espumas, pela lateral da cama, e apanhou o embrulho que o amigo Benê pediu para que guardasse. Apoiou-o no colo, tirou de dentro um objeto preto-fosco, novo e frio. Tentou ler o que estava escrito no cano – C – O – L –T – 3 – 5 - 7 – não entendia o que significa aquilo, mas mesmo assim achava o nome bonito. Levantou-se e ficou apontando para um espelho velho, mirava na testa do reflexo embaçado – pá, pá, pá – fez com a boca. Sentiu-se poderoso. Estufou o peito e sorriu largo. Apanhou a bala suja do chão e abasteceu o tambor. Estava decidido, a casa que fitou dias atrás, no bairro próximo, seria hoje. Tirou do bolso um resto de dinheiro que sobrou da divertida tarde e colocou-o sobre o criado mudo, perto dum terço, junto a uma pequena caixinha de bijuterias. Ajeitou a cintura e saiu.


O plano estava na cabeça. Morava pouca gente na casa, e pelo que percebeu, não havia cachorro para dedurá-lo. Na maioria das vezes jantavam no mesmo horário. Seria fácil: renderia todos, pegaria dinheiro, outros objetos de valor e sairia. Rápido e limpo. Dificilmente seria pego – a culpa sempre cai na favela, e o primeiro que a polícia pegar vai segurar essa bronca – pensou.


Entrou caminhando, numa passada rápida e muda, pelo meio da rua onde ficava a casa. Passou uma vez pela frente, fitou por entre o portão, não viu nada de anormal, seguiu até o final da rua e voltou. Pular foi fácil, apoiou-se nas barras, subiu pelo muro, caiu como um gato no chão. Agachado, olhou pela janela da sala, que tinha uma fina cortina branca fechada. Tinha um vulto, alguém via TV. Havia uma porta ao lado, mas preferiu não entrar por lá, render um só seria perigoso. Arriscou a porta que dava acesso ao corredor lateral, e deu sorte, estava destrancada. Com o caminho livre, continuou com seu andar de pato. Havia alguém no banheiro. Pela pequena janela saia uma fumaça quente e úmida, misturada a luz. No cômodo seguinte, o rádio em volume baixo dizia algo, continuou seu caminho. Levantou vagarosamente a cabeça, olhou pela janela da cozinha, nada. No pequenino quintal do fundo, nada também. Era a deixa, vai ser agora.


Quando entrou pela porta, um pequeno amarronzado cão, de latido fino, veio com tudo em sua direção. Coitado. Com um chute certeiro, foi arremessado na parede. A pancada produziu um som oco. Caiu imóvel. Um homem avolumado levantou do sofá e veio correndo ver o que estava acontecendo - quem é você moleque? O que quer? Sai daqui ou – sem hesitar, sacou e esticou o braço – pá... pá. O primeiro pegou na barriga. O segundo no pescoço. O pesado corpo caiu, com os olhos estatelados, cuspindo sangue e produzindo um som de animal abatido morrendo. Pedro nunca tinha ouvido nada parecido. Uma mulher saiu do banheiro, de roupão e toalha na cabeça. Quando viu a cena, desesperou-se.

 

- Que é isso! Senhor do céu...
- Cala boca dona, e dá o dinheiro!
- Que você fez... meu marido....
- Vai, fala logo, cadê a porra da grana!

 

Ela, já sem nenhum controle, chorava de maneira histérica. Sem paciência, derrubou-a no chão, chutou-a na cara – cala boca! – não adiantou. Debruçou e puxou a toalha que protegia seus longos cabelos, olhou-a nos olhos, cobriu seu rosto alvo... . O belo corpo tépido silenciou. Começou a vasculhar a casa, que não era muito grande. Foi até um dos quartos e ouviu um soluço baixinho e ininterrupto, que vinha de trás da porta. O garoto em choque escondido era pura lágrima. Pegou-o pela gola do pijama e sacudiu-o – tem grana ai filho da puta – nada, nenhuma reação diferente, só pranto. Pedro empurrou-o contra a parede, encarou-o por um momento, olhou-o de cima a baixo, afastou-se um pouco – . Empurrou a porta de volta. Apanhou todo o dinheiro que encontrou e, junto com outros objetos que acreditava ter valor, colou dentro duma mochila. A ação estava no fim, era hora de ir. Mas antes, lavou o rosto na pia, tirou a surrada roupa e vestiu um abrigo escolar azul escuro, que estava no quarto. O par de tênis também. Viu que as chaves da casa estavam na fechadura da sala. Abriu a porta, testou as chaves no portão, pôs a mochila nas costas, estava terminado.


Saiu pela rua vazia, na calma noite de junho. Chegando na esquina, algo lhe chamou a atenção. Um enxame de luzes quentes em movimento, vinha em sua direção, ficou observando. Olhou admirado para a enfeitada imagem de barro, tingida colorida, que passou na sua frente, e o enorme número de gente que a seguia. Entrou por entre as pessoas, misturando-se as devotas carolas.

 

- Oi anjinho, tudo bem.
- Oi.
- Ainda de uniforme? – Pedro apenas olhou de volta.
- Não está rezando? Com quem você veio?

 

Quieto, saiu de lado e caminhou próximo a procissão, pela beira da rua. A senhora de véu acompanhou o menino com o olhar, mas logo voltou sua atenção ao culto e prosseguiu a reza. Pedro virou na primeira esquina, foi embora. O enorme cortejo continuou seu caminho pelo bairro, seguindo seu mártir. Os lamentos continuaram sendo murmurados. Os fiéis com os corações vibrantes e cheios de fé seguiram seu destino, felizes, pois sabem que todos estão seguros, amparados pela tutela de Deus.

 

Pra ouvir download:

Ira! - Rubro Zorro  (do álbum Psicoacústica 1988)

 

Pra ver:

Video Clip: Ira! - Rubro Zorro - Baseado no filme "O bandido da luz vermelha" (Brasil, 1968) - Direção de Rogério Sganzerla

 

 

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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Os últimos cinco minutos de um condenado

Este texto foi fetio para fins acadêmicos. Nós: Ana Carolina, André Alves, Bia Peterman, Cinthia Pauli, Eliana Rodrigues, Leandro Altieri e Renado Eudes, conversamos sobre o ruma que a estória tomaria e a Ana se encarregou de escreve-lo.

 

Segue texto:

 

Os útimos cinco minutos de um condenado

 

Fazia frio. Dia cinzento. Uma sensação horrível me abateu naquela hora. Os guardas vindo em direção a minha cela, como se nada tivesse para acontecer; aliás, para eles nada iria acontecer e nem mudar, era apenas mais um.

Estou caminhando pelo corredor, nunca pensei que chegaria esse momento, morrer dessa forma, sei que sou culpado. Mas se tivesse outra chance, não teria matado minha esposa e seu amante de uma forma tão cruel. Deveria apenas ter batido, sei lá, ou falado um monte de coisas que agora me vem em mente. Deveria ter deixado os dois irem embora, mas não, o ódio tomou conta de mim, foi muito mais forte do que eu.

 

Eu poderia estar livre vivendo com alguém, com meus filhos... e ela vivendo a vida dela. Sinto muito ter deixado essa visão de pai para eles.

Agora não há mais tempo, já chegou a hora, todos me olham de uma forma como nunca imaginei que um dia iriam me olhar: com ódio, com nojo e contando os últimos minutos para minha execução.

 

Nossa! Estão me amarrando a cadeira, já sinto o suor escorrer pelas costas. Só me arrependo pelos meus filhos, Luana e Felipe...  

 

Pra ver:

 

Os últimos passos de um homem (Dead man walking - EUA 1995) Direção: Tim Robbins

 

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Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Vitória - Parte I

Esta é minha primeira tentativa de escrever um texto que tenha por finalidade ser um conto. Este é o começo, vamos ver onde esta estória vai parar.

 

Vitória

 

Flores. Vitória adorava o cheiro, a pele aveludada, das flores. Ficava imaginando o destino que cada uma poderia seguir. Todas as vezes que um bouquet era vendido, sua imaginação fluía junto à viagem, sonhando, fantasiando o destino amoroso que poderiam ter. Vermelhas, alvas, amarelas, rosas, margaridas, girasois, copos de leite... Tudo era colorido mágico, delicado e bálsamo ao seu redor. O último vendido fora um de belo rubro, volumoso, que o rapaz fez questão que, junto ao enorme ramalhete, seguisse um poético e perfumado suave cartão (tanto quanto, ou até mais que as flores). E não era papel desses prontos, desleixados vendidos amontoados em prateleiras, com estampa de bicho, esse era escrito á mão, letra caprichosa, amor grifado, ressaltando o sentimento, emoção descrita em prosa – nossa, esse está apaixonado, ela vai adorar receber-lo, vou caprichar, quero ajuda-los, vê-los enamorados desejosos – pensou Vitória, que, sempre que era possível, lia os cupidos cartões.


Vitória era menina nova. Iniciou a adolescência já trabalhando, na floricultura da família. Saia do matinal colégio e ia direto, de uniforme e tudo, para o prazeroso trabalho. Adorava passar o resto do dia lá. A mãe, viúva, às vezes lhe fazia companhia. O negócio dela era cuidar das contas, deixava os cuidados, os caprichos da loja, para a prestativa filha.


No colégio teve os primeiros contatos com os livros. Romances, ficções, poesias... Vitória adorava as poesias, lia-as, reli-as... Em sua mão caíra o Sobre o Tempo e a Eternidade, do escritor Rubem Alves. Devorou-o. Depois de lê-lo, escreveu em seu caderno um pequenino e majestoso trecho que a encantou - para o meu desejo, o mar é uma gota – essa frase traduzia seu intimo – tenho que escreve-la em algum cartão, e vai ser no próximo vendido – e o que era simples desejo, logo se fez. Escrevia as frases nos cartões, sem ninguém saber, pois se imaginava como as borboletas e as rosas: vendo que as belas e enraizadas flores pouco se tocam, pois a leve brisa quando não sopra, o breve instante toque não acontece, então numa atitude instintiva de complacente amor, num heróico vôo a borboleta vai, boca orvalhada, beijando-as, uma-a-uma, espalhando o fecundo pólen, garantido a multiplicação, perpetuando a futura existência. Vitória nasceu apaixonada. Acredita que amar é a única razão de ser do ser.

 

Parte II - Carta de Vitória à Carlos

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Terça-feira, 17 de Março de 2009

Rita e Roberto - (Marketing Sensorial Parte II)

Roberto

 

Parecia que a semana não passava. A sexta feira é o último, mas também o pior dos dias; as horas se arrastavam cada vez mais “lesmamente”... E sábado era o dia derradeiro. Passou a semana inteira trocando mensagens, e-mails, telefonemas, com sua pretendente. O tempo, lento, castigava, pesava como uma cruz.


Roberto, apesar de ter o costume de não fixar paradeiro, sempre foi um cara romântico. Talvez a origem de seu nome tenha alguma relação com essa característica pessoal: seus pais, fãs de Roberto Carlos, lhe deram esse nome como forma de homenagem ao Rei da Jovem Guarda.


Chegou o sábado, e Roberto acordou bem cedo, o que não era de seu costume. Precisava preparar a cena, sabia que a primeira impressão é a que marca, é a que fica, e queria que o que acontecesse naquela noite não fosse algo fugaz, e sim que se iniciasse uma longa relação.
Foi ao mercado com uma lista de ingredientes, afim para preparar um Fondue de chocolate. Rita adora chocolates. Mas ele não parou por ai, comprou uma série de velas de diversos formatos, cores e aromas, e alguns incensos. Comprou também uma boa variedade de frutas; cores, aromas, sabores variados, seriam imprescindíveis na arte da conquista.


Chegando em casa, teve seu dia de Amélia: empurrou os móveis para os cantos, tirou tudo que estava na estante e a faxina “comeu solta”!
Passado o trabalho laborioso doméstico, começou a preparar o ambiente para a tão esperada noite. Espalhou as velas aromatizadas e coloridas pela casa, colocou os incensos em pontos estratégicos (sala, corredor, quarto... vai que róla né), preparou o conjunto culinário na mesa de centro da sala, dispôs as frutas, geometricamente picadas, ao redor. Deixou duas macias almofadas para serem utilizadas como assentos, e colocou os CDs a postos para servirem aos ouvidos no momento necessário.


O horário combinado foi o das 20:30hs. Horas antes Roberto dedicou tempo na escolha da roupa, e acabou não arriscando muito: vestiu jeans, uma camisa social branca, posta por fora da calça, com as mangas levemente arriadas, e um lustroso sapato caqui. O perfume, passou o mais suave, assim como a loção pós barba. No banho usou sabonete pompom - Desses ai, que se banha bebê - queria realmente sensibilizá-la, e não se intimidou para isso.
Tudo pronto, agora só faltava o principal: ela!

 

Rita

 

Há tampos Rita não conhecia alguém interessante. O teor das mensagens trocadas durante a infinita semana deixou-a empolgada, ansiosa, talvez agora ela conseguisse se firmar num relacionamento, quem sabe... Passou a semana inteira achando o que poderia acontecer. Poderia ser somente mais um encontro, mas preferiu não dar bola para o pessimismo. Situações hipotéticas, pensou somente nas melhores, no que de bom poderia, e haveria, de acontecer. Rita é nome santo. Sua mãe é devota de Sta. Rita de Cássia, e ela acredita que sua chará não há abandonará num momento como esse. A devota vela, essa, já acendera bem antes.


Amanheceu o sábado, Rita pulou da cama entusiasmada. Sempre acorda cedo aos sábados, mas esse teve um motivo a mais para tal agilidade. Cuidou rápido dos afazeres domésticos, precisava do máximo de tempo livre, queria dedicar-se a si o resto do dia. Queria ficar maravilhosa para a noite.


Rita presenteou-se com um dia de princesa, tipo destes, exibidos em dominicais programas: foi à manicure, pedicure, cabeleleiro, fez limpeza de pele, depilação... Não poupou esforços para ficar belíssima.


Chegando em casa, após a maratona de cuidados, fez uma leve e breve refeição. Banhou-se e dedicou os mementos antes do encontro à escolha da vestimenta adequada para tal ocasião. Diante das opções, escolheu um vestido preto, a altura dos joelhos, desses que deixam as costas amostra. Lingerie, só a debaixo, os seios, deixou-os à vontade, usando e abusando da jovialidade. Sapatos, brincos, pulseiras e colar, todos cromaticamente combinando, nada de nada escandaloso. Nunca carregava na maquilagem, e não seria hoje que tomaria atípica atitude. Tinha um rosto alvo e meigo, de uma delicadeza singular, e os longos cabelos negros e lisos, emolduravam-no. O creme, que lhe correu por todo corpo logo após o banho, ressaltava a suavidade de sua pele, deixando-a com um aroma adocicado... Doce, assim era o jeito de ser de Rita.

 

Marketing Sensorial

 

Roberto pegou-se rindo só. Estava sentado no sofá de fronte ao relógio, impaciente, acompanhando a trajetória circular do magrelo ponteiro. Parecia-lhe que nunca havia feito isso antes e, sabe-se lá o por que, gostava daquela sensação. Tirou o carro da garagem (o carro passou horas no lava-rápido) e partiu para busca-la. Saiu bem antes do horário combinado, qualquer imprevisto poderia colocar tudo a perder, e aquela noite, imprevisto, nem em pensamento.


Chegou no endereço, que estava rabiscado num papelzinho, estacionou num ponto onde seria possível vê-la saindo de casa. Tirou do bolso o celular e ligou dizendo que já estava esperando-a na porta. Rita atendeu e ficou impressionada pela pontualidade... Alias, pelo horário: Roberto chegou vinte minutos adiantado; e o que também a surpreendeu é que ela também estava prontinha, aguardando a chegada do rapaz.


Quando Rita saiu pelo portão, Roberto simplesmente arrepiou-se, levou uma súbita injeção de adrenalina, olhava-a maravilhado... Estava lindíssima. Parecia até mentira: ela era um ideal personificado. Seus olhares logo se cruzaram, e Roberto acompanhou sua leve passada com um sorriso quase que infantil. Os saltos altos nem faziam barulho. Não havia nenhum ruído poluindo aquela visão... Rita levitava em sua direção. Com uma agilidade olímpica, saiu do carro e abriu a porta para a mocinha, que, logo após um beijo no rosto, respondeu com um sorridente “muito obrigada”.


Rita não acreditava: ele estava usando seu perfume preferido! Já gostava de homem gentil, e gentil, cheiroso e bem vestido então... Pensou: alma gêmea? Não... Será?


No caminho para casa de Roberto, foram conversando sobre coisas sem tanta importância, ou até sem importância alguma. O legal disso era que mal perceberam a presença da música, ou do locutor falando sobre sei lá o que, de tão interessante que era prestar atenção, reciprocamente, nas coisas sem importância que um dizia ao outro.


Chegaram no local, Roberto desceu primeiro e, mais uma vez, abriu a porta para sua dama – gentileza nunca é de mais, segundo seu bê-á-bá do romantismo – e, estendendo a mão direita, ajudou-a a sair do carro. Rita era só sorriso... Um maravilhoso sorriso.


Roberto abriu o portão, cruzaram o quintal, chegaram num pequeno hall de entrada, onde pediu para que aguardasse um segundinho de nada, ia fazer os preparativos finais, pois queria que Rita adentrasse já com tudo conforme manda o figurino. Acendeu as velas, pôs o Fondue e as frutas sobre a pequena e íntima mesa, deu uma última ajeitada nas serviçais almofadas, que já estavam prontas a recebe-los, soltou a leve música... Pode entrar – disse sorridente. Rita respondeu com uma expressão de profunda alegria, não teve palavras. Ao ver o cenário pronto, Rita foi tomada por uma repentina emoção, que lhe pôs lágrimas aos olhos e elogios nos brilhosos e úmidos lábios – nossa... que lindo, está maravilhoso! – exclamou.


Rita e Roberto passaram horas conversando, regando palavras e gestos ao sabor do vinho. Suas risadas bailavam pelo ar, confundindo-se, qual risada partia de quem, e, ao mesmo tempo, entendendo-se mutuamente. Uníssonas. O aparelho de som, que observava feliz a tudo, deu a deixa para o casal e cantou – “I’ve been really tryin’, baby, Tryin' to hold back this feelin' for so long... let’s get it on…” – Marvin Gaye pré-anunciava o início. Roberto levantou-se, pegou na mão de Rita, que instintivamente o seguiu, sem dizer nada, só olhares. Dançaram... Colaram-se... Olharam-se... Beijaram-se...


O beijo marcou o início de uma relação longa, intensa e fiel.

 

 

 

 

 

Um possível começo...

 

Pra ver:

 

Marketing Sensorial

Let's get it on

 

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Let's get it on - Marvin Gaye

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

A pena mágica

 

Num mundo não tão distante, e nem tão ficcional, onde quem tem menos nas mãos pode vir a ser Rei, os conduzidos levavam suas existências guiando-se pelas luzes. A divina, essa sim iluminadora, não ajudava a populaça, pois ela era vista somente pelos virtuosos. As luzes utilizadas para conduzi-los eram as dos letreiros de lojas, de bares, dos cinemas, das propagandas, luz da TV... Mas no decorrer dos últimos anos um problema surgira: durante o dia a luz do Sol, que sempre causou problemas ao senado real, e que de uns tempos para cá vem ficando cada vez mais intensa, ofuscava as luzes dos letreiros e afins, atrapalhando, e muito, a condução das coisas. Sem essa luz para pautarem seus caminhos, os conduzidos logo ficariam a mercê das palavras contidas nas fachadas, e assim aprenderiam seus significados simbólicos, semânticos e elucidativos, e essa possibilidade de raciocínio sem controle produziu certo desespero na corte. A averiguação de falta de tal referência condutora durante a vigília deixou os autocratas preocupadíssimos, pois entenderam isso como uma ameaça à vida farta e luxuriosa dos cortesãos. Sem demora reuniram-se à procura de uma solução rápida e, de preferência, não tão custosa para o erário:


- Os luminosos durante a luz do dia não iluminam mais nada! E assim não guiam ninguém. Então como conduzir a plebe durante o dia, já que eles se guiam por estas luzes, as dos letreiros? Será que não é melhor recorrermos às...


- NÃO! Às palavras não! Para essas nem pensar! Elas, essas malditas, juntam-se e formam coisas terríveis... Formam FRASES!


- FRASES! ELAS FORMAM FRASES! Nossa, então o que faremos? Como evitar tal catástrofe! Não podemos deixar os conduzidos zumbizando por ai, sem luz guia e muito menos deixá-los expostos às frases formadas pelas palavras!


- Concordo plenamente. Temos que fazer algo a respeito. E de preferência sem recorrer às... Às... Não tenho nem coragem de repetir esse repugnante nome.

- Concordo, mas vamos fazer o que então?


- Já sei! Vamos utilizar a luz do fogo! Utilizá-la-emos porque, mesmo à luz do dia, elas, as chamas, são visíveis. E podemos apagá-las durante a noite, pois a luz da TV já os guia nesse período, e particularmente acho que ela faz isso muitíssimo bem.


- É uma boa idéia, mas já utilizamos as chamas para assar os pedaços de cadáveres de animais que caçamos, para alimentarmo-nos. Pode haver confusão. Os conduzidos podem não entender essa mudança e confundir as utilidades. Podem não distinguir os contextos...

 

- É verdade. Se isso ocorresse seria o caos do caos.

 

- Desgraçados são estes tais de conduzidos! Não fazem nada se não tiverem alguém que os mandem fazer! Que os ensinem a fazer! Não limpam nem o próprio cú direito se não forem corretamente adestrados.

 

- Concordo!

 

- Também concordo!

 

- Bom mesmo são os animais, que já nascem sabendo o que tem que ser feito. Já sabem para que vieram ao mundo. Equilibram-se coletivamente, cada qual com sua pré-determinada função existencial, de maneira perfeita.

 

- Concordo plenamente! Por exemplo: o João-de-barro: já nasce sabendo que tem que edificar a própria casa, e faz isso muito bem, com técnica e sem a ajuda de ninguém em... Sem dar um “piu” se quer.

 

- E insetos como as abelhas: constroem, dentro das colméias, milhares de hexágonos, simetricamente perfeitos, depois vomitam mel dentro, e tudo isso é comandado simbolicamente apenas por uma rainha; são mais de oitenta mil súditos operando ao mesmo tempo... Fascinante!

 

- É uma pena que não podemos transformar os conduzidos em animais, seria bem mais fácil, e útil, para nós.

 

- Já imaginaram que maravilha seria: não precisar mandar mais nenhum conduzido à Cia. Alfabetizadora... Economizaríamos milhares de moedas.

 

- É, mas pelo jeito a solução será gastar mais moedas com a Cia. Alfabetizadora, para letra-los e, conseqüentemente, guiar os conduzidos com a ajuda das... É, dessas ai mesmo que vocês estão pensando. Também não tenho coragem de dizer esse maléfico nome.

 

- É, não há outra solução... Acho que vamos ter que letra-los...

 

- É... Então vamos comunicar ao Rei, para que o decreto solucionador seja logo assinado, e livrarmo-nos rapidamente desse problema.

 

Naquela calorosa tarde o Rei já havia assinado uma série de vários outros decretos, o que o deixara com a mente cansada, exausto de tanto pensar, e sabendo a corte disso, caminharam todos receosos, com medo de alguma reação ríspida da parte de vossa majestade. Como não encontraram nenhuma outra solução, e o problema teria que ser resolvido o mais rápido possível, seguiram temerosos ao derradeiro encontro.


Quando adentraram na sala do Rei, ele estava sentado pensativo, com o olhar fixo no nada, imóvel e com um semblante não tão amistoso, apoiando o cotovelo esquerdo no respectivo braço do trono, com o punho cerrado e mantendo o queixo sobre, e a outra mão estava espalmada sobre a coxa direita...

 

- Com licença vossa majestade. – Disseram todos com a voz um tanto tremula. O Rei não esboçou nenhuma reação.

 

- É... Com licença, vossa majestade. – repetiram – se for incomodo voltamos outra hora...

Lentamente o Rei recostou-se, com a coluna ereta e o queixo erguido, repousou seus braços nos braços do trono, passando um ar de soberania e prepotência para com os nobres da corte, e disse:

 

- Sim. O que querem... O que os trazem aqui?

 

- É, desculpe-nos, vossa majestade, pelo incomodo...

 

- E por um acaso vocês sabem fazer outra COISA! Além de me causarem incomodo.

 

- É que... Que... Temos um problema e... Não conseguimos resolve-lo... - O Rei pôs-se a rir, levemente sarcástico...

 

- Grande novidade! Digam logo o que querem! Qual é o problema?

 

- É que... - Um outro palaciano interveio e disparou a dizer sem pausa...

 

- São as luzes que guiam os conduzidos durante a luz do dia por causa do sol rei astro os letreiros não iluminam nada consequentemente assim não guiam os conduzidos deixando essa tarefa apenas para a TV à noite e a luz do fogo não pode ser utilizada por que os conduzidos podem não entender e será o caos do caos e...

 

- CALE-SE! - urrou o Rei - Você é louco ou o que? Perdeu as estribeiras! Quer apodrecer na masmorra! Eu já sei o que está acontecendo!

 

- Sabes?! – Alguns murmuraram.

 

- Claro que sei! Tenho diversos informantes. Ou achas que deixaria a ordem do meu reino nas mãos de vocês! Áulicos idiotas!

 

- Se vossa majestade já sabe, então, por favor, diga-nos o que fazer.

 

- Sim, claro. Já pensei, pensei, pensei, e tive uma grande idéia. Vamos utilizar as palavras!

 

- Oh! – Disseram todos os cortesões, em uníssono – às palavras! Mas não é custoso e, pior, perigoso, recorrer às palavras? E se elas dominarem os conduzidos? Se isso ocorrer, podem eles virarem-se contra nós! E a Cia. Alfabetizadora? Teremos que erguer aos montes, e isso será muito custoso. Gastaremos muitas moedas!

 

- Vejo que letrar-se é mesmo privilégio de poucos. Eu não disse “recorrer às” e sim “utiliza-las”.

 

- Mas, como assim utiliza-las, vossa majestade. Perdoe nossa singela ignorância.

 

- É muito simples: precisamos somente simplifica-las. Torna-las menos complexas e mais práticas... Para nós, claro! – Quase todos riram a meio tom de maneira maliciosa.

 

- Ah! Entendi, e só mudarmos as regras do jogo! Oh, meu Rei, sua idéia é simplesmente genial. Mas... Vamos mudar isso como?

 

- Simples: assinarei um decreto mudando as regras, removendo sinais e acrescentando símbolos. Reordenarei tudo. Fazendo isso todos entenderão, pelo menos um pouco, as palavras, e assim esses ai, os conduzidos, podem guiar-se “sozinhos”, sem custo algum para os cofres e, melhor, não representarão nenhum tipo de ameaça a nós. – Todos riram em tons diferentes de satisfação.

 

- Viram como é fácil de resolver nossos problemas! Tragam-me agora papiro e pena tinteira. - Sentaram-se todos a távola, com a majestade na cabeceira, e foi assinado o decreto.

 

- Obrigado vossa majestade! Sem vossa inteligência não sei o que seria de nós.

 

- Eu sei disso! Agora, mandem chamar o poeta. Mandem-no registrar em poesia todo esse acontecimento histórico, que ficará para a eternidade...

 

- Sim, vossa alteza, seu desejo é mais que uma ordem.

 

- É... E vocês queriam investir na Cia. de Alfabetizadora... São uns dementes mesmo! – Após proferir, o Rei sentou-se soberano ao trono.

 

Rapidamente chamaram o poeta, que ao saber do ocorrido sentiu-se ferido, pois sua paixão, além de já ter virado um ofício, havia sido lesada. O que ele levou tanto tempo para aprender, debruçado dias e noites sobre sábias escrituras, já não valia mais de nada. Transcreveu o fato em poema, como era de vontade do Rei.

 

- A vontade do Rei é a nossa vontade também... E triste, de pé sobre o púlpito da ágora, recitou poeta:

 

A luz que guiava-nos, um dia
Sumira, sem dar explicação
Deixando conduzidos a deriva
Perdidos, atrás de solução

 

A chama acesa ilumina
Mas não com precisão
A TV, só à noite essa
Ajuda na condução

 

De dia o Sol brilha muito
Ofuscando a visão
E deixa as palavras expostas
Ameaçando cortesãos

 

O Rei, vendo aquilo
Agiu com precaução
E disse: Tragam-me papiro e pena
Vou acabar com a sofreguidão:

 

 

Assinar um decreto irei
Mudando a legislação
E as palavras, que antes ninguém lia
Não trarão mais aversão!

 

E assim foi feito
O Rei, que tem bom coração
Com uma simples assinatura
Alfabetizou toda a nação!

 

- Vida longa ao Rei!

 

- VIVA!

 

Após a leitura, o Rei foi aplaudido.
 

 

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Guia da reforma ortografica (2009)

Cartilha - Caminho Suave

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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

29mim.

Acho que foi no final de 2002, na metade do segundo semestre, alguma coisa assim. Nessa época eu trabalhava de ajudante geral numa metalúrgica, pintando chave-fusível, acho que vocês nem fazem idéia do que seja isso, mas tudo bem. Fazia o turno da noite, e mais duas horas extras, todos os dias (noites). Entrava às vinte horas e saia às sete da manhã do outro dia. Trabalhar a noite é horrível. Alias, trabalhar já não é lá a coisa mais agradável do mundo, durante a noite então, é pior. Às vezes passamos por isso, aceitamos qualquer emprego só para não ficar em casa sem fazer nada... Fazer nada... Tão relativo.


Num dos finais de semana, havia combinado com um pessoal de irmos até um bar que tocava música ao vivo (rock’n’roll, claro) para fazer o que pessoas jovens fazem. Cheguei do trabalho no sábado de manhã, e como não conseguia nunca dormir de imediato (acho até que o período em que trabalhei nessa empresa foi o que menos dormi em toda minha vida) sentei na cadeira-de-balanço que havia no quintal de casa, com uma caneca de café quente e puro na mão, e acendi um cigarro (nessa época eu ainda tinha esse maldito vício). Fazia isso quase todos os dias. Ficava lá, pensando em nada, no vai-e-vem da cadeira, tragando e tomando, esperando a boa vontade do deus do sono (Hipnos) me contemplar com tal graça. Nesse dia, não sei o por que, não me esforcei muito para tentar dormir. Já eram quase onze da manhã, decidi ir para rua ver se encontrava alguém para bater um papo e, lógico, tomar uma cerveja. É, meus horários eram todos desregulados.


Voltei a tarde e, como já estava tudo combinado para a noite, fui tirar um cochilo. Lá prumas oito da noite minha mãe e minha irmã entram no meu quarto gritando “ganhamos!, ganhamos!”, acordei assustado, sem entender nada... Pela primeira vez em toda minha vida vi minha mãe pular! Mãe não pula, não faz essas coisas, fiquei espantado! E sem entender nada, ainda. Daí veio à notícia que todos os seres humanos (todos mesmo!) esperam ouvir um dia: ganhamos vinte e cinco milhões de reais na mega-sena! Claro que não acreditei, de primeira, mas para confirmar liguei num número de telefone que fornece o resultado do jogo e, para minha felicidade, era verdade! Nós estávamos milionários! E não foi só isso, fizemos à sena e a quina, primeiro e segundo prêmio, e tudo isso em apenas dois jogos. Pela primeira vez amei uma gravação de secretária-eletrônica. Liguei várias vezes. Ligamos a TV, na tentativa de ver o resultado para confirmar de vez que nós éramos os mais novos milionários do mundo, mas faltava 29mim para o jornal começar. Ficamos na espera. Nossas cabeças estavam a mil-por-hora. Imagine, você dorme um puta dum piãozinho duma porcaria de metalúrgica, e acorda um milionário! Começamos a fazer milhares de planos: casas, carros, viagens, montar um negócio... O que? Montar um negócio? Esse eu eliminei na hora! Trabalhei (ainda trabalho) a vida inteira, e quando ganho vinte e cinco milhões vou me encrencar montando uma empresa? Para que? A encheção de saco é a mesma, a única diferença é que você é o dono. Ta certo que é uma diferença considerável, mas, fala a verdade, você com uma grana dessas, podendo viver de renda, viajar o mundo todo, estudar o que quisesse, você abriria uma empresa? Deus me livre! Acho que fomos tão bem educados a trabalhar que, mesmo com a vida ganha, só pensamos nisso: trabalho, trabalho, trabalho... Nesse conflito de classes, empregado e patrão, todos se tornam escravos, e sem perceber, de um sistema capitalista que nos desumaniza e que nos ensina que o bom é ser das duas uma: ou empregado ou patrão; ou numa versão 2.0: empreendedor e colaborador; que merda, todos somos escravos do trabalho.


Trabalhar eu não iria “nem a pau”. Eu seria, no máximo, um artista plástico, um violonista excêntrico, poeta, filósofo, escritor meia-boca (tipo Paulo Coelho), seria qualquer coisa, mas desde que não fosse algo ligado a uma forma de trabalho mais trivial, dessas, que aprendemos a amar em quanto não a temos e nem a somos.


Meu pai foi o único que não gostou de ficar rico. Disse que os bancos passariam o dia atrás dele, tentando vender essas porcarias de serviços que custam muito e não ajudam em, quase, nada. O pior é que ele não deve ter percebido que isso já acontece, e já que isso já acontece, não é melhor que aconteça isso com nós na condição de milionários? Claro!


Bem, depois de muitas, mais muitas viagens milionárias, o jornal, em fim, começou. Todos fomos para frente da TV, até o cachorro. Parecia jogo do Brasil em final de copa do mundo. Por fim os números, e para desilusão geral da família, os números ditos não batiam com os nossos... Como não? Ficamos todos sem entender nada. Eu queria uma explicação, afinal, deixei de ser milionário mais rápido do que me tornei. Ligamos novamente para o telefone que fornece o resultado, e, para complicar ainda mais, os números batiam com os dos nossos jogos. Ai, para poder entender o que estava acontecendo, reconstitui toda a história. Minha mãe havia jogado o resultado do concurso anterior e, quando ligamos para conferir, ainda não haviam trocado a gravação... Então: ela fez o jogo, que era a repetição do resultado do último concurso, esperou durante a semana para obter o resultado do atual, ligou antes da gravação ser alterada, e ficamos todos achando que estávamos ricos! Perfeito! Mais real do que tudo isso só se realmente tivéssemos ganhado. Acho que nem preciso dizer que fiquei possesso.


Não fiquei rico, mas a sensação de estar, de ser, é indescritível. O pior é que havia recebido meu (misero) salário aquele dia e, como a noitada já estava confirmada, e eu pensando que estava milionário, eu ia detonar no rock’n’roll, ia torrar todo meu suado dinheirinho. Já estava até pensando como iria pedir demissão, assim do nada, sem dar bandeira de que fiquei milionário.


Imagine o seguinte: todas as possibilidades, desejos, realizações que o dinheiro pode proporcionar, eu tive em minhas mãos! Pelo menos por 29mim.

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Sábado, 30 de Agosto de 2008

Proibido para menores

Quero deixar bem claro a todos que o texto postado aqui não foi escrito por mim, idealizador deste blog.

 

Uma breve explicação de como o texto chegou em minhas mãos:

 

Certo dia estava eu conversando com um grandissíssimo amigo sobre música, livros, filmes e mais uma porrada de coisas ligadas à cultura, quando comentei sobre o blog que estou desenvolvendo, e que ultimamente ando me dedicando a (tentar) escrever. Ele achou muito interessante tudo isso, e disse que também está escrevendo, ou melhor, psicografando.

 

Como? Psicografando! – disse eu espantado.

 

É, isso mesmo. Ultimamente ando psicografando alguns textos. – respondeu.

 

Mas como assim? Você recebe alguma entidade? – indaguei.

 

Sim recebo, ou melhor, incorporo: o Doutor Fritz! – respondeu com toda a tranqüilidade.

 

Cara, fiquei boquiaberto, pasmado!


Para quem não lembra, no final da década de 70 e em mais da metade dos anos 80, o médico ginecologista, o Dr. Edson Cavalcante Queiroz, ficou famoso por realizar operações espirituais que, segundo ele, eram guiadas por esta entidade, o Dr. Fritz. Também teve outros médicos, antes e depois do Dr. Edson, que incorporavam essa mesma entidade, mas isso não vem ao caso, já que a finalidade deste post não é lembrar dessas histórias.


Voltando ao assunto psicografia, esse meu amigo me apresentou alguns textos, li todos e achei um muito interessante, que falava duma palavra de nossa língua pátria, e que, segundo o idealizador do texto psicografado, é a palavra, de todas as línguas do mundo, mais gostosa de ser pronunciada. De primeira, achei totalmente estranho, por que, até onde eu sei, ou sabia, esse tal Dr. Fritz é alemão, então, pensei eu: como ele poderia saber o português? Ai sim, meu queixo caiu de vez! Numa dessas incorporações do meu amigo, a entidade escreveu como aprendeu a falar e escrever em português. Segundo ele, foi com o médico, escritor, dramaturgo e orador brasileiro Cláudio de Souza. Eles se conheceram numa convenção alemã de medicina, e o médico brasileiro contou-lhe sobre nosso país, costumes, clima tropical e tudo mais, o que, na época (começo do século XX, pré-primeira guerra mundial; nesse período a Alemanha não se encontrava numa situação econômica muito boa), deixou o doutor alemão fascinado, despertando assim seu interesse em aprender nossa língua.


Vocês já devem estar mais do que curiosos em saber que raio de texto é esse. Lembro mais uma vez: o idealizador deste blog não tem nada a ver com a autoria de tais palavras!

 

Vamos ao dito texto:

 

Estudando esta língua, a portuguesa, percebo, em minha face, que a pronuncia de certas palavras proporciona-me reverberações diferentes das palavras provindas da minha, queria e estimada, língua alemã. Passo dias a dizer as mais variadas palavras dessa nova língua, a qual dedico várias horas de estudo, a fim de conhecer cada vez mais o vocábulo lusitano, e tentando descobrir o que me faz aprofundar, cada vez mais, nessa busca por uma resposta sobre todo esse fascínio que tais novas palavras provocam em minha alma.


Depois de tanto pronuncia-las, nos mais variados tons de voz, cheguei à conclusão de qual, dentre todas elas, é mais prazerosa de ser dita. Tal palavra é: xoxota.


Vocês já perceberam como a palavra xoxota é gostosa de ser pronunciada? Se vocês prestarem atenção, toda as vezes que a palavra xoxota é dita, sua boca fica cheia d’água! Isso é um fato, você pode testar agora mesmo, se quiser, claro. Vamos lá, pronuncie em alto e bom som: XO-XO-TA! Inclusive eu, Dr. Fritz, desenvolvi uma teoria sobre essa relação fenomenológica que se da entre a pronuncia dessa palavra e a cavidade oral (boca).

 

Teoria fenomenológica:

 

A palavra xoxota é uma trissílaba, e duas delas, as primeiras, possuem a letra “X”, letra essa que é pronunciada de forma arrastada. Exemplo: “xis”. Todas as vezes que você pronuncia as sílabas que possuem a letra “X”, o ar quente que sai dos pulmões sofre uma pressão maior, pois geralmente, e imperceptivelmente, você faz essa pronuncia com os dentes cerrados e com a língua muito próxima ao céu-da-boca. E, especialmente, nessa palavra, você faz isso duas vezes seguidas (XO – XO), proporcionando um acumulo e pressão ainda maior de ar quente. Quando é pronunciada a sílaba “TA”, o ar frio que circunda o ambiente entra em sua cavidade oral (boca), chocando-se com o ar quente. Nesse conflito de ares acontece uma condensação, fazendo com que o ar vire água. Tudo isso faz com que sua boca fique cheia d’água!


Em homenagem a ela, essa fofurinha de palavra, vamos todos em une-sono, numa só voz, dizer em alto e bom som: XO – XO – TA!
Em pesquisas recentemente realizadas, foi descoberta a xoxota mais antiga do mundo, mas também foi uma pena, pois ela morreu e foi enterrada junto com a Dercy Gonçalves.


A xoxota é tão boa que há homens e mulheres que gostam dela! Tem homens que gostam tanto, tanto, tanto, que até querem ter uma no meio das pernas! Mas esse tipo de operação não realizo.


Vamos parar de hipocrisia e saudar, não somente a palavra, mas também o objeto apreciado, pois, como é de conhecimento de todos, sem ela nós não estaríamos vivos!


Muito obrigado, querida (objeto e palavra) xoxota!

 

Ass: Dr. Fritz

 

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Ligadas pelo desejo (de consumo)

Coisa. Para mim a (ou o) Coisa sempre foi um super-herói, aquele, dos Quatro Fantásticos. Pelo menos era esse o nome deles, quando eu era criança. Hoje, acho, que os Quatro viraram Quarteto. E herói sempre foi para mim uma referência: Pai Herói, a novela da Rede Globo. André Cajarana, era o nome da personagem interpretada por Tony Ramos, que, segundo meus pais, foi a fonte de inspiração para a origem do meu nome. É ai que a coisa começa a ficar estranha. Bem, segundo os meus registros, nasci em São Paulo, bairro da Aclimação, no sexto dia do primeiro mês do ano de mil novecentos e setenta e cinco (século passado). A novela referida foi ao ar no ano de mil novecentos e setenta e nove! Nove? Isso mesmo, nove (Nº 9; para não ter dúvida). Caso meus pais não possuam uma máquina de viajar no tempo, não sei como explicar esse desencontro de datas. O pior é que nem eles sabem o por que desse desencontro. Talvez o tal Cajarana tenha provocado algum impacto na vida deles dois, sei lá... Também, mais de trinta anos vendo novelas é normal que já não saibam o que vem antes do que. Por falar em novela, faz tempo que não acompanho nada na televisão. Principalmente as novelas. Todas iguais.


Vendo TV outro dia, me chamou atenção uma reportagem sobre uma cantora brasileira radicada em Cuba, que não lembro o nome agora (e nem depois também), mas lembro que ela falava sobre música cubana, mostrou um DVD e fez um comentário. Quis adquiri-lo na hora, pois já tinha visto aquele num Sebo aqui próximo. Sabe come é, estou desempregado, tempo ocioso é farto (dinheiro + ócio = consumo), corri para loja. Procurei, mas não estava mais lá. Alguém já havia comprado. Mas ai, sabe como é, a besta-fera do consumo entra em cena! Não tinha o que eu queria, mas havia vários outros que eu queria, mas não sabia que estavam lá. O que era para ser uma compra de, no máximo, doze reais, virou uma de quarenta e cinco. Dois DVDs e dois livros. Cultura nunca é demais, segundo meu senso moral. Sem problemas também, logo estarei empregado, esse dinheiro não vai fazer falta agora.


Produto adquirido, mesmo não sendo o desejado, volto ansioso para ver algum dos filmes. Durante essa volta uma imagem me chamou atenção: um senhor, desses que aprendemos a chamar de catador-de-papelão, com roupas humildes, chinelos velhos e óculos escuros da... Coco Chanel!? Tudo bem, é falsificado, mas e daí! A sensação de beleza, importância, de fazer parte de algo não era falsa, era bem real. Quem diria em Gabrielle, que sua criação um dia estaria no rosto de um trabalhador negro como as lentes, de um dito país subdesenvolvido. A pirataria é a redemocratização da cultura, pois falso é o produto em si, não o sentimento com relação a ele, ou que ele proporciona.


Realidade. A realidade é só um recorte. Nem lembrava mais como a rua era movimentada assim. Também, só passava por aqui pela manhã, para chegar ao trabalho. Será que todo esse povo mora aqui? Ou só trabalham aqui? Ou estão passeando aqui? Eu moro, eles, não sei. Quantos ônibus lotados. Não sei se existe, na língua portuguesa, o coletivo de solidão, mas uma definição contemporânea de coletivo para esse substantivo seria: transporte público. Fico imaginando, milhões de pessoas indo e vindo, sem trocarem uma palavra! Quantos pensamentos passam por essas cabeças. Quantos sonhos, desejos, etc... Parecem zumbis; são apenas corpos, a mente, essa, ta longe... O Coletivo é uma espécie de mosaico de realidades, cada um com a sua. Arthur tem razão, a existência em si é um tédio, um vazio (chega logo ao seu destino ônibus...). Esse vazio justifica um outro pensamento filosófico (só não lembro o autor) que diz: o homem é o único animal que nega ser o que é; pretensiosamente completo: o homem é o único animal que nega ser o que é, e que só se reconhece no consumo, sua maior característica; anda, se alimenta, fala, pensa, etc., mas o que realmente o diferencia, até dos da mesma espécie, é o consumo, e é nesse último que ele se realiza.


A realidade não é em si a matéria, o trabalho e nem o outro, são as sensações que deles provem, entendida de forma subjetiva; como os padrões e entendimentos sociais se renovam, a realidade também é renovável. Como já dizia aquela letra do Raul: “que o mel é doce, é coisa que me nego afirmar, mas que parece doce, isso eu afirmo plenamente”.
Chega de observações do mundo exterior, vou ao que interessa, ver um dos filmes. O Escolhido foi um que mostra a vida do artista plástico estadunidense Jackson Pollock. O outro é um filme chamado Amnésia, muito interessante, mas como já havia visto, esse fica para outro dia.


Terminado o filme, vem a ansiedade. A ânsia de falá-lo a alguém é grande... Enquanto não encontro ninguém, fico com a angustia de ter consumido algo, mas como ninguém ainda esta sabendo disso, não considero ainda o consumo consumado.

 

 

Para entender melhor, algumas definições definidas por mim:

 

Desempregado: Estigma ruim; classificação dada à pessoa que não tem emprego.

Empregado: Estigma do Bem; classificação dada à pessoa que tem uma ocupação com registro em carteira de trabalho, e que dedica todo seu tempo à ascensão de outra da mesma espécie.
Catador-de-papelão: Estigma; classificação dada ao trabalhador que coleta materiais recicláveis pelas ruas, praças, avenidas, etc; filantropia.
Gabrielle Bonheur “Coco” Chanel (1883 – 1971), idealizadora.

Trabalhador: Estigma bom; classificação dada à pessoa que aplica sua ação (força) em algo, a fim de obter algum retorno financeiro; ocupação sem registro em carteira de trabalho; autônomo.
Pirataria: Ato de copiar e comercializar algum produto sem autorização de seus idealizadores; tendência neoliberal.
Redemocratização da cultura:Segundo Walter Benjamin e Siegfreid Kracauer (pensadores da escola de Frankfurt) as sociedades capitalistas avançadas criaram, sem querer, condições para uma democratização da cultura (processo de industrialização da cultura). A pirataria surge como renovação desse processo, pois mesmo com a cultura industrializada muitos ainda não tem acesso; acesso esse que é proporcionado através da pirataria.
Arthur Schopenhauer (1788 – 1860).
Faça, fuce, force– Raul Seixas.
Raul dos Santos Seixas (1945 – 1989).
Pollock(EUA, 2002).
Amnésia(EUA, 2000).

 

11/06/08 

 

Texto acadêmico que fala sobre reificação, fetichismo, realidade, hiper-realidade, alienação e outras cositas filosóficas mas.
 

Baixe para ler:

O vazio da existência - Arthur Schopenhauer

Filosofando. Introdução à filosofia - Maria Lucia de Arruda Aranha

 

Para ouvir:

Raul Seixas - Faça, Force, Fuce

publicado por AB Poeta às 18:49
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Entrevista - Manoel

São nove horas da manhã do dia vinte do quinto mês, dirijo-me até sua residência, conforme havíamos combinado no dia anterior, por telefone, eu poderia a qualquer hora entrevistá-lo. Preferi pela manhã, pois sabia que estava trabalhando em mais uma obra - sua obra - então nada mais justo do que não incomodá-lo muito e realizar logo este trabalho.
Manoel, um senhor de sessenta e cinco anos, casado, quatro filhos, um neto e em plena atividade profissional. Fui recebido em sua casa, que me mostrou com orgulho, pois trabalhava em sua mais nova obra: O Sobrado; os tetos dos seis cômodos estavam no chão, e logo receberão uma laje e mais cômodos sobre ela, e, quem sabe, mais uma laje. Um sobradinho de três lugares, no fundo da casa, acomoda a família, que atualmente são em quatro. A filha casada mudou-se para Salvador, por motivos profissionais do marido, e levou junto o irmão mais novo, recém saído da faculdade, e que estava desempregado. Os dois, irmão e marido, trabalham na mesma empresa, que é do ramo das telecomunicações.
Aos dezoito anos, em 1961, Manoel desembarca em São Paulo, vindo de Pernambuco, numa cansativa viagem de ônibus que durou onze dias. Um comentário seu dá uma idéia do que foi essa “odisséia”: “...só vim conhecer asfalto em São Paulo. Antes, estrada, só de terra”. Em sua terra natal trabalhava na roça, com a família, como a maioria dos migrantes. Chegou sem emprego, com a cara e a coragem saiu em busca, já que estava na “terra das oportunidades”. Seu primeiro emprego formal foi numa construtora civil (o que explica sua atual função), onde ficou por três anos. Trabalhou em mais duas construtoras, numa por dez meses e noutra por três. Não disse o motivo de sua saída, de nenhuma delas.

Iniciou a vida acadêmica em Pernambuco, mas veio terminar, o que chama de “primário antigo” (que, na época, durava quatro anos), em São Paulo, pelo SESI (Serviço Social da Industria), em 1965/66. Em 1967 trabalhou na prefeitura de São Paulo como segurança, mas, nessa época já com três filhas, o baixo salário o fez desistir do funcionalismo público; ”...não sobrava dinheiro para nada. Nem pra uma camisa. Ou cumia ou vistia.”, disse. Mesmo assim ficou nesse emprego até 1976. Ao sair, quando entregou sua carta de demissão, ninguém acreditou, disseram-no que estava ficando “louco”. Mesmo assim foi firme em sua decisão.

O funcionalismo público, no Brasil, sempre foi visto com “bons olhos” (acho que o mais cabível seria “olhos grandes”), já que ninguém nunca é demitido; situação que é muito cômoda.

Sem emprego, e já com mais um filho a caminho, abriu uma empresa – 1977 - tendo o cunhado como sócio. Trabalhavam no ramo da construção civil, mas não deu muito certo. Três anos depois a empresa foi fechada. Partiu então para a vida autônoma, junto com irmão. Começaram a trabalhar como “pedreiro” (nome dado ao trabalhador da construção civil), oferecendo seus serviços a pessoas conhecidas, o que deu mais que certo! Não tinha uma região especifica de trabalho, aceitava todos que dessem um bom retorno financeiro. Até em outra cidade, caso fosse rentável. O que mais me chamou a atenção foi a resposta dada quando questionado sobre a capitação dos clientes (sempre pessoa física): “...nunca bati em nenhuma porta. Sempre fui procurado pelas pessoas.”. Realmente a melhor publicidade ainda é o “boca-a-boca”.

Sua média salarial depende muito da quantidade e do “tamanho” do serviço que aparece, mas mesmo assim disse que é entre um a dois mil reais/mês.

Sempre trabalhou da seguinte forma: vai até o local e faz uma avaliação, dá o preço da mão-de-obra e um prazo mais ou menos de quando fica pronto, pois sempre há imprevistos, tipo: o tempo (chuvas), quando o material acaba, etc... Sempre indica os fornecedores, mas a escolha final fica a cargo do contratante. Nunca foi assediado por nenhum fornecedor, os indicados por ele são conhecidos de muito tempo.

A concorrência também é muito grande nesse segmento. Muitas vezes é questionado o “por que” do preço, e ainda tem que ouvir que “fulano de tal” faz mais barato. Não se incomoda muito, muitas vezes acaba sendo o contratado, por já ter uma certa notoriedade. Isso gera confiança.

Hoje, está aposentado, pagou o INSS (Instituto Nacional de Seguro Social) por conta própria , e recebe em torno de dois salários mínimos/mês. Com a aposentadoria garantida, e todos os filhos formados e empregados, não “pega” muitos serviços como antes. Inclusive dispensou muitos por causa da construção que está realizando em sua casa.

Perguntei se estava satisfeito, respondeu com um sorriso leve e de maneira modesta: “é... da pra levar”. Terminei a entrevista, que durou cerca de meia hora, e ouvi um “já!” que saiu com certo espanto. Talvez ele tenha gostado de olhar para traz e ver a construção de sua história. Mas há verdade era que eu não queria mais incomodar um “artista” ansioso em ver a sua grande obra concluída.

 

* Entrevista realizada para fins acadêmicos em 20/05/08. A finalidade desse trabalho era traçar um perfil socio-econômico dos trabalhadores informais, nesse caso, os da construção civil, mais conhecidos como "pedreiros".

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publicado por AB Poeta às 18:23
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