Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

Janeiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

pesquise

 

publicações

Mão amiga

O xis da questão

Um minuto de silêncio

Moluscos

Banquete

PEC(ados)

Lavrador

Declaração

Modelo

Encalço

Haicai V

Viagem

Numa fria

Poema antigo

Encontros

Ombrax

Sós

Coração violento

O que não passa?

Qual será a senha?

Marcados

Cada casa

Lançamento

A desmetamorfose

Um vazio

Paraíso

Noites de Verão

O relógio da vovó

Conto de Fadas

A fonte

Um par

contratempo

a bunda dela

ambidestro

mãe dos sem mães

advérbio

quando fomos nuvens

fossa

prateando

banquete

renda-se

pecado

translação

o fio vermelho

arte final

ossos do ofício

delinear

sinfonia

passarinha

fotogenia

Confira também



todas as publicações

subscrever feeds

Domingo, 24 de Outubro de 2010

Amor Estranho Amor

 

(fragmentos de divagações sobre o Amor)

 

O amor é um cão dos diabos, segundo Bukowski. Diria que o amor é um cão Do Diabo: um sorriso amigo, um abano de rabo, um latido que soa “seja bem vindo”, tudo isso ao portão depois de um dia dos diabos. Quem não acreditaria que isso é amor? O amor é isso: algo irracional: só um cãozinho é capaz de amar verdadeiramente. Apanha, é xingado, gritam com ele, colocam-lhe coleira e apesar de tudo ele ainda ama o seu dono. Quando procuramos alguém, procuramos um cão, ou pelo menos o olhar vidrado que o animal tem, sem preconceitos e sem receios. Olha com a língua de fora, baba e pula no colo... procuramos no outro o que ainda há de animal no humano. Mas quando você menos espera, o amor cão te morde, corre e vai mexer em outro lixo, te passa raiva e não há injeção que cure essa doença. O amor é um cão Do Diabo: indomesticável, imprevisível e que abana o rabo enquanto lhe interessa.

 

Dizem que o amor é cego, uns acham que sim, outros que não, mas acho que ele é os dois: quando se ama, nosso olhar se mistura aos desejos, às reações provocadas pelos toques na pele e as projeções de futuro parecem que se concretizam e abre-se um caminho novo que leva a algo sonhado; os olhos da cara se fecham e viram um olhar único, uma espécie de terceira visão com sexto sentido que lhe sopra ao ouvido: isso é amor... ame. E você ama porque não há nada a fazer a não ser amar. Aprendemos que o amor é uma jóia rara que poucos a têm e que temos que procurá-la durante a vida até o dia de encontrá-la e fincarmos nossa bandeira: conquistei! (é mais fácil subir o Everest do que amar). A visão única do amor cega e não enxergamos a sola quando ela se aproxima e nos rodeia de sombra. Só percebemos quando pisados: escutamos um estralo, a espinha dorsal se quebra, vemos nosso interior amarelo-pus exposto, mexemos as antenas a procura de sinais-resposta; vem a pá e nos joga no cesto, fecha-se a tampa, a barata morre, o amor gangrena e se vai com o tempo.

 

O amor é egoísta, e a conjugação do verbo nos diz isso desde o primário: Eu venho antes de Tu, que vem antes de Ele (a primeira pessoa é sempre singular); a segunda é Nós, que vem antes de Vós, ou seja: nos dois vem antes de você. Eles então... coitados, os últimos a conjugarem qualquer dos verbos.

 

Plantar: essa é a grande metáfora do amor: plantar hoje para colher o amanhã. Plantamos a rosa e ela nasce, vem com espinhos que tocamos com cuidado; até que ela murcha e morre. O amor morre, nos avisam isso por essa metáfora. Plantamos grãos num campo vasto e vazio que verdeja até colorir tudo, a colheita é feita e se não nos dá lucro, trocamos de semente: o amor é um agro-negócio!

 

O amor é uma utopia. Crer na utopia é o grande erro necessário de tudo. A utopia é necessária para seguir em frente, mas ela nunca poderá ser alcançada. No dia em que for, morre tudo: sonho, vontade, amanhã, utopia, amor (uma bela alegoria: monte num burrinho e pendure uma cenoura por uma linha em uma varinha, coloque à sua frente e o sentido da vida está pronto!: nasce mais uma utopia, mais uma amanhã, mais um amor).

 

O amor é um Ninho em um estranho, achamos esse estranho que deixa de ser estranho e vira Ninho... acaba o amor... viramos um estranho no ninho. O amor é um estranho que não conhecemos e projetamos esse amor nesse outro: somos um retro-projetor de imagens bonitas procurando um pano branco para torná-las visíveis e darmos movimentos a elas, até que a luz acaba e esvazia o pano novamente, fecham-se as portas e sobram somente as pipocas no chão: o coração metafórico é uma sala de cinema vazia que espera o amor projetar cenas na tela. Nada representa mais o amor do que o cinema.

 

O amor é um gostar ou um não-gostar: não interessa quem é, se você gostar vai amar e ponto. E quando esse amor acabar, vai passar a não-gostar e ponto também. Não existe prós ou contras que se coloque numa balança e evite o final do amor, ele finda e fim. Qualquer tentativa de prolongamento será como maquiar um cadáver: ele ficará lindo, porém frio... morto.

 

O amor é uma invenção pior do que a bomba atômica: existem japoneses que amam os americanos, e existem japoneses que não amam o Japão: vai entender. Entender para quê? E entender o quê? Amor é amor e dane-se, não é utopia e nem mais nada. O amor é algo hoje: só existe o Hoje, o resto é tempo que não vem e que já passou... O instante agora é onde o amor cria vida, e a vida nos cria, nos empurra, entre Amor Estranho Amor, até que a morte nos separe.

 

No fundo no fundo o amor é o grande “dane-se” da vida: nessa vida em que a gente só se dana, ame! E depois diga ao resto: dane-se!

 

Clique no assunto: , ,
publicado por AB Poeta às 19:47
link do post | comentar | adicionar aos favoritos
Follow ABPoeta on Twitter
Instagram

Compre meus livros


Livros por demanda



Poesias declamadas


Clique no assunto

todas as tags