Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Sexta-feira, 12 de Setembro de 2008

29mim.

Acho que foi no final de 2002, na metade do segundo semestre, alguma coisa assim. Nessa época eu trabalhava de ajudante geral numa metalúrgica, pintando chave-fusível, acho que vocês nem fazem idéia do que seja isso, mas tudo bem. Fazia o turno da noite, e mais duas horas extras, todos os dias (noites). Entrava às vinte horas e saia às sete da manhã do outro dia. Trabalhar a noite é horrível. Alias, trabalhar já não é lá a coisa mais agradável do mundo, durante a noite então, é pior. Às vezes passamos por isso, aceitamos qualquer emprego só para não ficar em casa sem fazer nada... Fazer nada... Tão relativo.


Num dos finais de semana, havia combinado com um pessoal de irmos até um bar que tocava música ao vivo (rock’n’roll, claro) para fazer o que pessoas jovens fazem. Cheguei do trabalho no sábado de manhã, e como não conseguia nunca dormir de imediato (acho até que o período em que trabalhei nessa empresa foi o que menos dormi em toda minha vida) sentei na cadeira-de-balanço que havia no quintal de casa, com uma caneca de café quente e puro na mão, e acendi um cigarro (nessa época eu ainda tinha esse maldito vício). Fazia isso quase todos os dias. Ficava lá, pensando em nada, no vai-e-vem da cadeira, tragando e tomando, esperando a boa vontade do deus do sono (Hipnos) me contemplar com tal graça. Nesse dia, não sei o por que, não me esforcei muito para tentar dormir. Já eram quase onze da manhã, decidi ir para rua ver se encontrava alguém para bater um papo e, lógico, tomar uma cerveja. É, meus horários eram todos desregulados.


Voltei a tarde e, como já estava tudo combinado para a noite, fui tirar um cochilo. Lá prumas oito da noite minha mãe e minha irmã entram no meu quarto gritando “ganhamos!, ganhamos!”, acordei assustado, sem entender nada... Pela primeira vez em toda minha vida vi minha mãe pular! Mãe não pula, não faz essas coisas, fiquei espantado! E sem entender nada, ainda. Daí veio à notícia que todos os seres humanos (todos mesmo!) esperam ouvir um dia: ganhamos vinte e cinco milhões de reais na mega-sena! Claro que não acreditei, de primeira, mas para confirmar liguei num número de telefone que fornece o resultado do jogo e, para minha felicidade, era verdade! Nós estávamos milionários! E não foi só isso, fizemos à sena e a quina, primeiro e segundo prêmio, e tudo isso em apenas dois jogos. Pela primeira vez amei uma gravação de secretária-eletrônica. Liguei várias vezes. Ligamos a TV, na tentativa de ver o resultado para confirmar de vez que nós éramos os mais novos milionários do mundo, mas faltava 29mim para o jornal começar. Ficamos na espera. Nossas cabeças estavam a mil-por-hora. Imagine, você dorme um puta dum piãozinho duma porcaria de metalúrgica, e acorda um milionário! Começamos a fazer milhares de planos: casas, carros, viagens, montar um negócio... O que? Montar um negócio? Esse eu eliminei na hora! Trabalhei (ainda trabalho) a vida inteira, e quando ganho vinte e cinco milhões vou me encrencar montando uma empresa? Para que? A encheção de saco é a mesma, a única diferença é que você é o dono. Ta certo que é uma diferença considerável, mas, fala a verdade, você com uma grana dessas, podendo viver de renda, viajar o mundo todo, estudar o que quisesse, você abriria uma empresa? Deus me livre! Acho que fomos tão bem educados a trabalhar que, mesmo com a vida ganha, só pensamos nisso: trabalho, trabalho, trabalho... Nesse conflito de classes, empregado e patrão, todos se tornam escravos, e sem perceber, de um sistema capitalista que nos desumaniza e que nos ensina que o bom é ser das duas uma: ou empregado ou patrão; ou numa versão 2.0: empreendedor e colaborador; que merda, todos somos escravos do trabalho.


Trabalhar eu não iria “nem a pau”. Eu seria, no máximo, um artista plástico, um violonista excêntrico, poeta, filósofo, escritor meia-boca (tipo Paulo Coelho), seria qualquer coisa, mas desde que não fosse algo ligado a uma forma de trabalho mais trivial, dessas, que aprendemos a amar em quanto não a temos e nem a somos.


Meu pai foi o único que não gostou de ficar rico. Disse que os bancos passariam o dia atrás dele, tentando vender essas porcarias de serviços que custam muito e não ajudam em, quase, nada. O pior é que ele não deve ter percebido que isso já acontece, e já que isso já acontece, não é melhor que aconteça isso com nós na condição de milionários? Claro!


Bem, depois de muitas, mais muitas viagens milionárias, o jornal, em fim, começou. Todos fomos para frente da TV, até o cachorro. Parecia jogo do Brasil em final de copa do mundo. Por fim os números, e para desilusão geral da família, os números ditos não batiam com os nossos... Como não? Ficamos todos sem entender nada. Eu queria uma explicação, afinal, deixei de ser milionário mais rápido do que me tornei. Ligamos novamente para o telefone que fornece o resultado, e, para complicar ainda mais, os números batiam com os dos nossos jogos. Ai, para poder entender o que estava acontecendo, reconstitui toda a história. Minha mãe havia jogado o resultado do concurso anterior e, quando ligamos para conferir, ainda não haviam trocado a gravação... Então: ela fez o jogo, que era a repetição do resultado do último concurso, esperou durante a semana para obter o resultado do atual, ligou antes da gravação ser alterada, e ficamos todos achando que estávamos ricos! Perfeito! Mais real do que tudo isso só se realmente tivéssemos ganhado. Acho que nem preciso dizer que fiquei possesso.


Não fiquei rico, mas a sensação de estar, de ser, é indescritível. O pior é que havia recebido meu (misero) salário aquele dia e, como a noitada já estava confirmada, e eu pensando que estava milionário, eu ia detonar no rock’n’roll, ia torrar todo meu suado dinheirinho. Já estava até pensando como iria pedir demissão, assim do nada, sem dar bandeira de que fiquei milionário.


Imagine o seguinte: todas as possibilidades, desejos, realizações que o dinheiro pode proporcionar, eu tive em minhas mãos! Pelo menos por 29mim.

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publicado por AB Poeta às 19:29
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