Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Sábado, 10 de Outubro de 2009

Estado crítico

Minhas dores... Ah, minhas dores. O que elas não me fazem passar. Fui novamente ao hospital público para mais uma vez tentar fazer minhas repentinas e aceleradas palpitações cardíacas decorrentes do stress (o mal do homem pós-moderno) diminuírem. Fui atendido até que rápido (e com direito a eletrocardiograma), fiquei aproximadamente 1h, o que para os padrões públicos e Standard de atendimento é pouco tempo.


Enquanto aguardava minha vez de ser atendido, uma pergunta me veio à cabeça: quem é que manda na saúde pública brasileira? Será que é o ministro da saúde? O governador? O prefeito, ou a sub-prefeitura? Senadores, deputados, vereadores...? O presidente? A população? Quem será, ou quem são esses indivíduos responsáveis pelo funcionamento do sistema de saúde? Nessa minha paciente espera pelo atendimento descobri quem é que manda, quem é que da as ordens, quem são os bam-bam-bans, os reis da cocada preta, responsáveis por esses órgãos: são os diretores dos hospitais, dos postos de saúde ou de qualquer outro tipo de repartição pública desse mesmo gênero (ou de qualquer outro também). Bem, você deve estar se perguntando: como esse cara chegou a essa conclusão? Vamos a ela, a explicação:


Sentado esperando no confortável banco de madeira, em meio aos outros sem convênio médico que pacientemente também esperavam sua vez, uma placa fixada numa das portas dentro do ambulatório me chamou a atenção, nela estava (ou está ainda) escrito – ATENÇÃO SR. USUÁRIO, NÃO FORNECEMOS ATESTADO MÉDICO, FAVOR NÃO INSISTIR, ATENCIOSAMENTE, A CHEFIA DO PRONTO SOCORRO ADULTO. De primeiro momento não dei muita bola, mas como nosso cérebro nunca para de processar as informações adquiridas, comecei a desconfiar que havia algo de errado naqueles dizeres. Segundo ela, a placa, o hospital não fornece atestado médico, e imagino que essa atitude foi tomada pelo número excessivo de pessoas que pedem o mesmo, o que não quer dizer nada também, já que é notório que todas as repartições de saúde públicas são lotadas, então todos os serviços solicitados nelas sofrerão uma demanda muito grande. Fotografei a placa utilizando meu ultra-moderno celular, sai de lá e segui a caminho de casa. Chegando fui direto perguntar ao oráculo do século XXI, o Google, sobre o fornecimento de atestado médico e averigüei o que já desconfiava: o hospital estava (ou ainda está) infringindo a lei. Segundo a resolução nº 1.658/2002 do CFM (Conselho Federal de Medicina),
“o atestado médico é parte integrante do ato médico, sendo seu fornecimento direito inalienável do paciente, não podendo importar em qualquer majoração de honorários.”


Fiquei me perguntando: para que são feitas as leis, já que cada um faz o que quer? Se você for analisar quem é que manda no Brasil, vai ver que são os chefes das repartições públicas, porque são eles quem fazem à máquina estatal “funcionar”. Hospitais, escolas e as demais repartições estão todas a mercê de seus diretores. As leis que as regem parecem que nem existem, que não tem utilidade.


O CFM se reuni e define que o fornecimento do atestado médico é obrigatório, é um direito do paciente, mas o chefe do departamento do pronto socorro, que é quem faz o serviço “andar”, acha que não, tem muita gente “pedindo” a toa, então não vamos mais fornece-lo. Isso é no mínimo absurdo. Se eles acham que tem muita gente “pedindo” sem ter nenhum tipo de enfermidade, que estão solicitando o atestado só para conseguir matar um dia de trabalho, que atestem somente as horas em que o indivíduo esteve no local, agora fazer uma placa dizendo que não vão mais fornecer a ninguém, e ainda pedem para não insistir! Ai é brincadeira! O pior não é só a direção do hospital tomar essa atitude, é também a omissão da classe médica que se auto-infringe. Será que não teve um médico que indignado com essa decisão pôs-se contra a direção? Eu não estava lá para saber se teve ou não, mas pelo jeito... A placa estava lá (ou ainda está).

 

O que será que leva alguém a querer ser médico hoje? Amor à profissão ou glamour? Aquele médico que tem como princípios salvar vidas, acho que está ficando raro. Se é que ele existiu um dia. O que a maioria quer mesmo é o glamour, o status que a prática médica tem em nossa sociedade pós-moderna. Eles devem ter achado foi é bom, esse lance de não dar mais atestado. Eles vivem reclamando que ganham pouco. Se estão descontentes com o ordenado, então caiam fora! O médico que trabalha com má vontade prejudica muita gente.


Fora que não consigo entender como alguém que estuda tanto para ser médico pode ter uma letra tão, mais tão horrível. Deveria ser exigido do médico que ele escrevesse de forma legível. Geralmente ficamos sabendo qual remédio foi receitado somente na hora da compra, porque o farmacêutico é o único que consegue decifrar os garranchos. Deve ter um ou outro por ai que se preocupa em escrever de maneira legível, mas se for ver pela maioria...


Pensando bem, acho que o pior mesmo é saber que a população que paga imposto e usa o serviço público nem faz idéia de que aquela placa é um sinal, ou mais um sinal, do desrespeito com que os órgãos públicos tratam seus usuários. Se a população soubesse dos seus direitos, de que nós é que somos os “patrões” do estado, placas como essa não durariam muito.


A saúde brasileira segue entubada na UTI, seu estado é crítico e os médicos responsáveis pela sua recuperação estão mais preocupados em receberem o soldo e em exibirem seus diplomas, pendurados nas paredes de seus frios consultórios. Os populares que precisam desses serviços seguem ajoelhados, rezando para que tudo melhore em suas vidas. A fé ajuda, é fundamental em nossa existência, mas as coisas só vão mudar de verdade quando substituirmos as bíblias, livros de auto-ajuda ou qualquer outra coisa do tipo, pela constituição da república federativa do Brasil, que é o livro que rege nossa coletividade.
Minhas dores... Ah, minhas dores.

 

Hosp. São Luiz Gonzaga - SP/Capital - 25/09/09

 

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publicado por AB Poeta às 21:33
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