Manifestações consciente do inconsciente. Contos e poesia crônica.

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Terça-feira, 9 de Junho de 2009

O escritor de verdade

Quando ele entrou na sala de espera da agência de empregos Great People Of Talent, viu o enorme número de candidatos socialmente vestidos que aguardavam a hora de serem chamados. Acomodou-se do jeito que deu, num dos poucos lugares vagos. O entrevistador, especialista diplomado em Recursos Humanos, pós-graduado em Psicologia Empresarial, doutorado em Analise Comportamental e com MBA em Gestão de Pessoas, interfonou para secretária:

 

- Luzinete, Luzinete! Oh Luzinete! Manda logoentrá o próximo aí que tá chegando a hora dalmoço!


- Sim doutor.

 

A menina pegou um dos currículos que estava na pilha sobre a mesa e chamou.

 

- É... Paulo Capivara. – O rapaz gesticulou com a mão.


- O Sr veio para a vaga de Auxiliar de Comunicação Interna, né?


- Sim, isso mesmo.


- Ok, pode entrar que o Dr Pancrácio está aguardando.

 

Levantou-se, tropicou na ondulação do gasto carpete, ajeitou-se, seguiu em direção à sala de entrevistas. Quando entrou viu um senhor com óculos de armação marrom, gordo, com o papo cobrindo o nó da gasta gravata, várias guimbas no cinzeiro e uma placa de alumínio sobre a mesa que pré anunciava: Dr. Aristeu Pancrácio Teutônico III. Cumprimentou-o com um aperto de mão, lhe disse bom dia, sentou-se na cadeira há frente da mesa, ainda olhando os mais diversos diplomas, honrarias e fotos que estavam pregadas na parede. Segurando a ficha, o doutor iniciou a entrevista:

 

- É... Sr... Paulo Capivara. É você?


- Sim, sou eu.


- Que bom, que bom. Então... veio pra vaga de comunicador ajudante interno?


- Exato, é para ess....


- É... tô vendaqui... no seu curríclo, você... formadem Letras?


- É, isso mesmo, me forme...


- Certo, certo... mas tô vendaqui... sem experiência anterior... Você nunca teve emprego?

 

- Sou escritor, e faço alguns bicos de redator publici...


- Ah, é artista!


- Não, não, sou escritor e...


- Inscritor, artista... é a memá coisa. – anotou em vermelho na ficha:
“inscritor/livros inscritos=”


- Teressante, teressante. É... quantos livrus... você tem inscrito?


- Um publicado e...


- Um! – riscou a anotação anterior “livros inscritos=” e escreveu:
“um livro inscrito”.


- O Sr é artista... mas tem só um livru?


- É!? escrevei um, meu primei...


- Quantos cêêê vendeu?


- Não sei ao certo, acho que de 100 a 150 exemplares...


- Não sabe? Como assim?


- A editora informa meio por cima, e não tenho como controlar porq...


- Tabom, tabom... Inscreveu... mas ninguém leu... então o pau cumeu! – gargalhou estridente, retirou os óculos para enxugar as felizes lágrimas.


- É né... - O candidato sorriu amarelo com o canto da boca, por obrigação, sua vontade real era grampear a língua do decrépito no risque-rabisque e retirar com o extrator de grampos, de forma medieval, os olhos do desgraçado.


- Ai, ai... tabom, tabom... – o entrevistador se recompôs – é... então, Sr... Paulo Carneiro.


- Não é Carneiro, é Capivara.


- Capivara, carneiro, coelho, são tudo roedores mâmifreros. – Disse com um ar sábio. Paulo não esboçou reação alguma.


- Então... Sr... Paulo Capivara, inscreve... é artista... mas ninguém compra seus livru...


- Bem, vendi sim, mas não sei o número exato de...


- A sim, sim... vendeu, vendeu... é verdade... sua mãe, avó... sua tia.... muita gente deve te comprado. – Paulo olhou para um ponto qualquer da sala, soltando o ar pesado contido nos pulmões.


- Então... a vaga é pra auxiliar comunicativo interno, mas... pelo quivejaqui... é... vai ser difícil...
sem experiência anterior comprovada, é... a empresa talvez nunqué alguém nesse perfil.


- Bem, estou a disposição, e essa vaga me inte...


- É, mas é talvez né... e talvez nué um sim, mas também nué um não... quem sabe... vou faze assim: vou guarda seu curríclo aqui, e... qualquer novidade aviso, ok.

 

Sem paciência alguma, mas mantendo a pose de candidato interessado, cumprimentou o Dr Pancrácio, agradeceu a oportunidade como se fosse única e seguiu para mais uma agência de empregos.
O Dr, já faminto, guardou a ficha do Paulo na letra “q” da gaveta de pastas suspensas – artista... rãn. Logo após interfonou para a secretária.

 

- Luzinete, Luzinete! Oh, Luzinete! Manda mais um aí que ainda dá tempo.


- Sim doutor.

 

A menina apanhou outro currículo na pilha, chamou.

 

- É... Nelso Ramires – O rapaz levantou-se.


- O Sr veio para a vaga de Auxiliar de Comunicação Interna né?


- Isso, vim para essa vaga.


- Ok, pode entrar que o Dr Pancrácio está esperando.

 

O candidato entrou na sala, cumprimentou o doutor e sentou-se, dando início a entrevista.

 

- É... Nelson Ramires... é você?


- Sim, mas não é Nelson, é NelSO.


- Ok, ok... Nelso, Nelson… é parecido né. – deu um sorrisinho – então... NelSO, a vaga é pra ajudante de comunicação auxiliar interno e... você temteresse né?


- Claro! Estou aqui para...


- Tabom, tabom... preciso dalguém que sabe inscreve BEM... o Sr tem experiência anterior?


- Tenho. Tai na fich...


- É verdade, é verdade... – leu na ficha: Experiências anteriores:
Balconista de Farmácia, 2 anos – Escriturário, 3 anos - Escrivão de Polícia, 8 meses.


- Ah, taqui... taqui. Enscrivão! Purque saiu da polícia?


- Muito violento, não agüentava mais, escrevia muitas barbari...


- Tabom, tabom... a vaga é sua. Votincaminha pra empresa. Vi quitem muita bagagem, tanto lê quantu inscrevê, bom isso! Vai ali, vai ali... fala com a Luzinete... vai te fala o procedimento.

 

Feliz, saiu o agraciado com o emprego novo. Os ponteiros já cravados no doze indicavam o merecido descanso. O Dr Pancrácio guardou a ficha do Nelso na letra “z” do arquivo, recostou-se na enorme e almofadada poltrona, acendeu um cigarro e interfonou.

 

- Luzinete, Luzinete! Oh, Luzinete! Pede pra mim um bife à cubana e uma caracú queu tô faminto.


- Sim doutor, vou providenciar. – Desligou o interfone.

 

- Ah... até quenfim me apareceu um inscritor de verdade! – De olhos fechados, tragou o cigarro.

 

 

Publicado também no blog do João Luiz do Couto

 

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publicado por AB Poeta às 20:46
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12 comentários:
De Roberto a 9 de Junho de 2009 às 23:08
Muito bom André, quase chorei de rir!

Bacana mesmo, humor gostoso sem apelações!

Parabéns!

PS: Escritor de verdade? Só rindo mesmo, esses caras são engraçados!

Valeu!
De Fernando Carneiro a 10 de Junho de 2009 às 00:48
Boa, André.
Me diverti. Show!
De um escritor de verdade que lançou dois livros esquisitos que vendeu pra toda a família (que não leu) e mais alguns malucos que leram porque são malucos.
De AB Poeta a 10 de Junho de 2009 às 01:09
Pô Fernando, agora que reparei! Tem um momento que o doutor chama o candidato de Carneiro, acredite, foi involuntário. Foi mal... (mas foi engraçado)

abrçs
De Bruna Nehring a 10 de Junho de 2009 às 03:49
Shit! até para publicar um comentário é dificil e complicado. Agora vai me dizer que meu e-mail não existe? então vai aí o meu comentário para voce, Andre:

É por isso que a gente encontra tanta gente incompetente em todo lugar (lojas, empresas e afins). a culpa não
é deles, coitados, mas da incopetência de quem os colocou naquele lugar sem qualificação!. Pra rir? sim do teu texto, mas
pelo resto é pra chorar...

Bruna
De Tiago 'Capivara' a 25 de Junho de 2009 às 03:58
Aê Andrezão, muito bom mesmo o texto, faz muito sentido! Ultimamente tem se dado mais importância à quantidade do que à qualidade, então acabam contratando gente com muita bagagem, mas que essa bagagem tem muito peso morto. Quem perde com isso somos nós, aspirantes ao mercado...

Abraço!
De diniz jr a 23 de Novembro de 2009 às 13:28
achei bacacana , mostra bem as cosias que nós ( escritores / redatores ) passamos , por sinal tb tenho um livro publicado ( hehehe)

diniz junior

criador do rabuja rubirosa
De diniz júnior a 23 de Novembro de 2009 às 13:31
achei bacana , mostra bem as coisas que nós ( escritores / redatores ) passamos , por sinal tb tenho um livro publicado ( hehehe)

diniz junior

criador do rabuja rubirosa
De AB Poeta a 23 de Novembro de 2009 às 13:41
Complicado né cara, essa vida de redator/escritor... Escrever é algo muito difícil, um trabalho árduo que demanda tempo, e que ninguém valoriza como deveria...

Cômico se não fosse trágico!

Vlw pelo comentáro!

Abrçss
De André Diaz a 25 de Junho de 2014 às 16:44
Engraçado. Mas no fundo é triste a situação. Quem escreve , sabe como é.
De AB Poeta a 26 de Junho de 2014 às 00:59
rsrs cômico, se não fosse trágico... escrever é pra quem realmente gosta. como profissão, são poucos os abençoados que conseguem viver disso.

vlw, pelo comentário. abrçs
De Diogo Souza a 26 de Junho de 2014 às 02:08
Cara, esse texto é muito bom, ri demais. Mas confesso que sofri um pouco porque me fez lembrar uma entrevista de emprego que fiz há alguns meses e quando falei que escrevia (e num blog!), a reação da moça foi semelhante ao "Ah, é artista".
É a realidade desse país e dos nossos escritores.

Parabéns pelo texto.
De AB Poeta a 26 de Junho de 2014 às 22:33
rsrs cômico e cruel né cara...

vlw pelo comentário e boa sorte em futuras entrevistas!

abrçs

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